Cultural / Entretenimento

20/10/18 - 14h29 - atualizada em 20/10/18 às 14h44

FIEL atrai cerca de 800 alunos e professores em dois dias de evento

Feira Iratiense Estudantil do Livro ocorreu na quinta (18) e na sexta (19) no Clube do Comércio

Edilson Kernicki, com reportagem e fotos de Sidnei Jorge

Cerca de 800 alunos e professores participaram da Feira Iratiense Estudantil do Livro (FIEL), realizada entre quinta (18) e sexta-feira (19), no Centro Cultural Clube do Comércio. O evento, que reuniu palestras, haicai, contação de histórias, Cine Clube, entre outras atrações, foi promovido pelas Secretarias Municipais de Cultura, Patrimônio Histórico e Legado Étnico e de Educação, pela Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná (ALACS), Instituto Federal do Paraná – Campus Irati (IFPR), Núcleo Regional de Educação, Curso de Formação de Docentes do Colégio Xavier e professora Dorotéia Iankas Miskalo.

O jornalista e escritor Luís Henrique Pelanda, que participou da FIEL, disse que a iniciativa precisa ser mantida por muito tempo. “Em muitos lugares do Brasil, hoje, de Norte a Sul, muitas feiras de livros estão sendo organizadas e, por mais que saibamos que no Brasil a leitura ainda é uma coisa distante, remota da rotina da maioria da população, são essas feiras, que são organizadas no peito, na raça, por tanta gente, que vão conseguir aumentar esse contingente de leitores. Aqui em Irati, tive uma experiência ótima, porque cheguei e vim conversar com adolescentes. Acho que uma coisa que as feiras do livro devem sempre pensar é nos adolescentes e estudantes, que ainda não definiram exatamente que caminhos tomar”, analisa.

Ouça a entrevista completa com Luís Henrique no fim do texto

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O cronista da Gazeta do Povo explanou aos estudantes a respeito da profissão de jornalista e relatou experiências pessoais, algumas delas que embasam as crônicas que ele publica há cerca de dez anos. “Estava conversando com eles a respeito de uma crônica que publiquei na Gazeta do Povo, há alguns anos, sobre um menino que o meu personagem-narrador teria encontrado na Praça Santos Dumont, em Curitiba, diante de um passarinho morto, um sabiá-laranjeira. Conversando com esse menino, que guardava o sabiá morto no bolso, com uma fita vermelha que ele amarrava na perna do bicho e eu perguntava o que faria com o sabiá, se ele o enterraria. E o menino dizia que ia ressuscitá-lo e que, se desse certo, eu veria aquele passarinho voando pelo céu de Curitiba, com a fita vermelha na perna. Não explico o que aconteceu e deixava em aberto para o leitor”, comenta.

Jornalista e escritor Luís Henrique Pelanda falou de sua experiência com textos infantis em participação na FIEL

Segundo Pelanda, algum tempo depois, uma professora de Balneário Camboriú (SC) resolveu trabalhar esse texto em sala de aula com os alunos, de nove e dez anos, perguntando o que teria acontecido ao passarinho. “Cada criança tinha uma resposta diferente, lidava com isso através do humor, ou do lirismo ou da ironia; tinham referências de TV, de livro, de cinema, de vídeo game, várias religiões ali representadas, até os céticos representados. Era uma coisa muito divertida, os textos dessas crianças a partir do que eu tinha escrito. O adulto se identifica comigo, como cronista, quando lê o texto e eu percebi que essas crianças se identificavam não comigo, mas com o menino da história”, diz.

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Mais tarde, o mesmo tipo de trabalho com as crônicas foi aplicado em outras escolas e o escritor foi convidado a estender essa iniciativa a locais onde adolescentes cumpriam medidas socioeducativas. “É uma das coisas que mais me entristece, ver que um menino de 12, 13, 14 anos está tendo que enfrentar uma situação de encarceramento, de privação de liberdade. Quando fiz esse trabalho com esses meninos, descobri uma coisa que mudou minha vida e a forma de pensar o próprio texto, fazendo com que eu me achasse até um ingênuo: esses meninos, quando sugeriam o que teria acontecido com o passarinho morto, ou eles acreditavam que o passarinho teria ressuscitado após uma oração, através da força da fé, ou então não acreditavam, em hipótese alguma, que ele poderia reviver. Isso resumia, mais ou menos, o que eles passavam ali dentro. Alguns eram visitados por missionários evangélicos e acreditavam em Jesus e se imaginavam, como o passarinho morto, ressuscitando fora da cadeia. Outros, já desacreditados, pensavam que nunca conseguiriam se recuperar daquela fase. Eles me disseram, textualmente, que não se identificavam nem comigo, nem com o menino, mas com o passarinho morto. Essa experiência, para mim, e os desdobramentos que ela continua tendo, me mostraram que realmente escrevemos buscando coisas. Quanto mais escrevemos, menos sabemos o que ainda temos por descobrir e mais conhecemos pessoas, leitores que, fazendo o texto voltar para nós, acabam nos mostrando coisas que, ao escrever, nem desconfiávamos”, relata o escritor.

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“Todo mundo me pergunta se a literatura muda o mundo. O [Mário] Quintana falava que não muda o mundo, mas muda as pessoas. Existe acesso, mas nem todo mundo vai gostar de ler. Não preciso ser romântico a ponto de acreditar que a leitura vai agradar a todas as pessoas, apaixonar todas as pessoas do mesmo jeito. Cada pessoa tem a sua maneira de ver as coisas. O que acontece no Brasil é que é preciso dar acesso à leitura para todas as crianças e adolescentes. Ainda se pensa muito que a literatura, o livro é uma coisa chata, ou inútil, que você não vai usar aquilo para nada ou não tem nada a ganhar com aquilo, não é prático, não vai ganhar dinheiro nem arranjar trabalho lendo. Na verdade, a leitura vai te dar uma arma muito poderosa, que é a subjetividade, você vai aprender a pensar de outras maneiras”, resume.

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Confira a entrevista completa com o cronista da Gazeta do Povo

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