Futebol / Esportes

18/04/18 - 02h10 - atualizada em 25/04/18 às 00h34

Jornalista insultada no Emílio Gomes processa envolvidos

Caso da assessora do Operário insultada com termos de baixo calão em partida do Iraty contra o Operário, no domingo de Páscoa (1º) ressalta a face machista do futebol

Edilson Kernicki, com reportagem de Jussara Harmuch, Paulo Henrique Sava e Rodrigo Zub 

Carmelita dos Santos e Isis Azevedo participaram do programa Meio Dia em Notícias para debater o machismo e a misoginia nos estádios de futebol

Há 51 anos, o Brasil formou sua primeira árbitra de futebol, Léa Campos, numa época em que ainda vigoravam duas normas que proibiam as mulheres de jogar futebol: o Decreto-Lei 3199/1941, de Getúlio Vargas, e Deliberação Número 7, de 1965, do general Eloy Massey Oliveira de Menezes, presidente do Conselho Nacional de Desportos (CND). Léa enfrentou dificuldades para apitar em São Paulo e Rio de Janeiro, mas encontrou espaço em outros estados, como Rio Grande do Sul e Minas Gerais, onde ela nasceu. Em 1971, ela foi convidada pela FIFA para apitar um torneio mundial de futebol feminino amistoso, no México. Desde então, muitas oportunidades surgiram para que ela se destacasse nos continentes americano e europeu. 

Sua carreira no futebol foi interrompida em 1974, quando sofreu um acidente de ônibus, de uma companhia que pertencia a João Havelange, brasileiro que tinha assumido a presidência da FIFA. Havelange foi um dos primeiros a se opor à presença de mulheres no futebol. 

O decreto-lei 3199/1941, que considerava o futebol “incompatível com a natureza feminina” deixou de vigorar somente em 1979. Sete anos depois, em 1986, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino disputava sua primeira partida, num amistoso internacional contra os Estados Unidos. No mesmo ano, nascia Marta Vieira da Silva, consagrada jogadora brasileira, eleita cinco vezes consecutivas a melhor do mundo – entre 2006 e 2010. 

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Assessora do Operário hostilizada 

Mesmo assim, as mulheres ainda sofrem com a intimidação e o assédio de torcedores dentro dos estádios, sejam elas familiares de jogadores, profissionais do esporte, árbitras – ou mães de árbitros, gandulas, jornalistas. No dia 1º de abril, a jornalista Bianca Machado, assessora de comunicação do Operário, de Ponta Grossa, foi alvo de insultos por parte da torcida do Iraty, durante e ao final de partida válida pela 1ª rodada da 2ª Fase da divisão de acesso Campeonato Paranaense. O Iraty perdeu por 2 a 1 para o visitante e cerca de 20 torcedores do Azulão passaram a ofender a jornalista, durante a coletiva de imprensa realizada no gramado do estádio Emílio Gomes, onde não há Sala de Imprensa. 

A assessora de comunicação do Operário, Bianca Machado; a presidente da Liga Iratiense de Futebol, Isis Azevedo, professora de Educação Física, que atua como representante em partidas da Federação Paranaense de Futebol (FPF) e da Federação Paranaense de Futebol de Salão (FPFS) e Carmelita dos Santos, da Associação dos Representantes e Árbitros de Irati (ARAI) foram convidadas do programa Meio Dia em Notícias de segunda-feira (16) para debater o machismo e a misoginia nos estádios de futebol. 

Bianca, que participou por telefone, relatou que no fatídico domingo de Páscoa, após o término da partida do Iraty contra o Operário, no Emílio Gomes, enquanto aguardava a coletiva de imprensa com o técnico do time, Gerson Gusmão, que ela tinha a função de coordenar – foi alvo de xingamentos de cerca de 20 torcedores do Iraty, que ficaram na grade que separa a arquibancada do gramado. Ela revelou que se sentiu ainda mais intimidada quando passou a ser citada nominalmente pelos agressores. “Foi bem traumático, mas junto com meu advogado já abrimos inquérito policial para investigar essa situação e para que esse grupo de torcedores que proferiu ofensas a mim seja punido de alguma forma, para que mais nenhuma mulher, nenhuma profissional, precise passar por esse tipo de coisa”, disse. 

Bianca Machado trabalha como assessora de imprensa do Operário há dois anos e com jornalismo esportivo desde 2015

Conforme a assessora do Operário, o inquérito foi aberto na Delegacia de Irati e alguns dos torcedores já foram identificados. Ela espera não só que eles sejam responsabilizados como também que o episódio sirva de exemplo para que mais nenhuma mulher passe pelo que ela passou em campo. Bianca afirmou que já trabalhou em outras partidas após o incidente: duas pela segunda divisão do Paranaense e uma pela Série C do Brasileirão, no domingo (15). A jornalista afirmou que trabalhou normalmente e que nunca precisou lidar com essa hostilidade em Ponta Grossa.

“Aqui em Ponta Grossa nunca tive esse tipo de problema, nunca proferiram ofensas a mim durante o trabalho. Esses jogos foram tranquilos para trabalhar, graças ao apoio de outros profissionais de imprensa, dos torcedores do Operário, o que foi muito importante para superar isso, para seguir em frente e fazer meu trabalho”, relatou a jornalista, que trabalha no Operário há dois anos e, antes, atuou junto no antigo Keima Futsal, desde 2015, quando ainda estava na faculdade. 

A jornalista revelou que já tinha passado por situações parecidas durante jogos em outras cidades, até mesmo no Estádio Emílio Gomes, mas que jamais tinha sido algo da mesma proporção que tomou no dia 1º de abril, quando os torcedores permaneceram vociferando palavrões contra ela, nominalmente, mesmo após o fim da partida. 

Mulheres que atuam no futebol opinam sobre machismo no meio esportivo

Carmelita dos Santos, que costuma atuar na mesa de arbitragem, demonstrou ter um ponto de vista diverso do da assessora de comunicação do Operário, ao naturalizar o ambiente hostil dos estádios, onde o torcedor vai para “extravasar”. “Situações [de machismo] ocorrem em todos os lugares, de sermos assediadas. Mas a proporção [da ofensa] cabe a nós dar a ela a que ela merece. Não adianta, os torcedores vão normalmente ao estádio para torcer pelo seu time e também para extravasar o estresse acumulado durante a semana. Tantos anos assim, chega uma certa época que nem ligamos mais. Ouvimos, mas não assimilamos o que as pessoas falam, porque, na verdade, vamos lá para trabalhar e não para discutir ou fazer um embate. Os torcedores têm respeito, mas é uma questão de você assimilar e tomar você o que lhe é devido”, afirmou. 

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Isis Azevedo, que atua na arbitragem de jogos pela FPF, revelou que enfrentou hostilidade da torcida ponta-grossense quando foi delegada na mesa de arbitragem do primeiro jogo em que trabalhou neste ano, no Estádio Germano Kruger, em Ponta Grossa, quando o Operário recebeu o Andraus Brasil. Isis disse que foi chamada de “batateira”, uma alcunha usada para se referir aos iratienses que, a depender do contexto, pode ser entendida como um tratamento carinhoso ou como xenofobia. 

“Quando fui para Ponta Grossa, escutei me chamarem de ‘batateira’ umas mil vezes pelo menos, mas como eu já tenho dez anos de Associação e há dez anos trabalho nesse mundo que é predominantemente masculino, é complicado, sabemos que tem homens que não seguram a língua. Eles falam mesmo. Como já temos bastante tempo nesse ramo, vamos mesmo filtrando algumas coisas. Quando comecei a atuar como representante, na mesa de arbitragem, também ouvi várias coisas que não gostei, mas às vezes temos que dar uma relevada, porque a torcida está nervosa, porque perdeu”, relativizou. 

“De forma alguma eu vou achar isso uma coisa normal, porque eu estava ali trabalhando e foram proferidas ofensas à minha pessoa. O torcedor comprar o ingresso ou ser sócio não dá a ele o direito de ir ao estádio ofender outras pessoas, ofender profissionais que estão ali trabalhando. No meu caso específico, foi após a partida e esses torcedores não foram embora e continuaram ali xingando os profissionais de imprensa que estava ali trabalhando”, reiterou a jornalista, que destacou que havia mulheres entre os torcedores que a insultaram. 

“O machismo no meio esportivo – mas não só no meio esportivo – é algo que está meio enraizado na sociedade. E não pode ser assim, de forma alguma. Não é porque a mulher trabalha num ambiente predominantemente masculino que ela merece escutar ofensas. Se fosse alguma crítica ao meu trabalho, tudo bem, aceitaria normalmente. Agora, ofensas à minha pessoa, utilizando meu nome, foi algo bem dramático para mim. No dia, fiquei bem nervosa mesmo, não sabia o que fazer. Espero que isso não seja visto como uma coisa normal”, protestou a assessora do Operário. “Não tem essa de ‘não ligue, deixe para lá’. Eu vou até as últimas consequências. Estou correndo atrás dos nossos direitos [das mulheres], de podermos trabalhar com mais respeito e mais dignidade”, emendou Bianca.

A jornalista ressaltou que foram alguns torcedores do Iraty que a insultaram e pontuou que, de forma geral, foi bem tratada na cidade, inclusive por colegas que se solidarizaram com a situação que ela passou. 

Campanha #deixaelatrabalhar

“Quero deixar bem claro que de forma alguma acho que a Bianca esteja errada. Pelo que eu sei, pelo que falaram, não foi legal. Acho que ela está no direito dela e cada um sabe até onde tem que ir”, reforçou Isis. Ela destacou a campanha #deixaelatrabalhar, que ganhou projeção depois que a repórter Bruna Dealtry, do Esporte Interativo, e a jornalista Renata de Medeiros, da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre foi xingada e quase agredida fisicamente durante um clássico entre Internacional e Grêmio. A campanha busca incentivar as torcidas a tratarem com respeito as jornalistas esportivas. Quanto ao assédio, Isis afirmou que os homens, muitas vezes, ultrapassam os limites ao tentar, forçadamente, até mesmo abraçar ou beijar as repórteres em coberturas esportivas. 

Vale ressaltar que, em outras oportunidades, a jornalista Bianca Machado frisou que não foi oferecido nenhum suporte à sua segurança diante da intimidação a que foi submetida por parte da torcida do Iraty e que sequer tinha sido a primeira vez que ela se viu nessa situação. À Tribuna do Paraná, a assessora afirmou que havia diretores do Iraty e policiais militares no gramado enquanto ocorria a situação e que ninguém a ajudou. Bianca disse que trabalhar no Emílio Gomes é sempre complicado devido à proximidade com a arquibancada. 

A equipe de Jornalismo da Najuá entrou em contato com o presidente da Torcida Jovem do Iraty, Vinícius Azevedo, que não se manifestou sobre o caso. 

Notas 

Depois que o caso repercutiu, tanto o Iraty, quanto o Operário e a FPF se manifestaram por nota. A diretoria do Iraty expressou que não compactua com a atitude de “algumas pessoas que se dizem torcedores”, que lamenta o ocorrido e que os envolvidos são uma minoria que não representa a grande torcida do Iraty e a população da cidade. 

Tanto o Operário quanto a FPF repudiaram a atitude dos torcedores que insultaram a assessora do time ponta-grossense. O Operário afirmou em nota que repudia a falta de urbanidade de alguns torcedores e que sente “orgulho das mulheres que trabalham no clube e de todas aquelas que estão inseridas no esporte e lutam diariamente para legitimar a sua participação em um ambiente muitas vezes machista e intolerante”. A diretoria do Operário também expressou que vai adotar as medidas cabíveis para que este ato não fique impune. 

A FPF também repudiou os atos de violência contra a assessora. “A FPF não tolera, em hipótese alguma, atos de tal natureza, pois causam enorme repugnância pelas condutas praticadas na ocasião, lamentando que ainda ocorram no meio esportivo, em ataque gratuito ao trabalho profissional feminino”. A Federação também se predispôs a cobrar as responsabilidades das autoridades competentes e a apoiar tanto o Operário quanto a jornalista Bianca Machado “a fim de que os responsáveis pelas agressões não sejam acobertados pela impunidade”. 


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