Matérias / Irati de Todos Nós

23/09/16 - 14h32 - atualizada em 29/09/16 às 14h14

Colcha de retalhos

José Maria Grácia Araújo 

Colcha de retalhos
Estou denominando o meu programa deste sábado de “COLCHA DE RETALHOS”. Não escolhi este título como uma indicação depreciativa, más sim para evidenciar a multiplicidade de fatos históricos que constantemente me chegam ás mãos, contando pequenos capítulos da maravilhosa história do passado do meu querido RIO DE MEL – IRATI.

O meu boa tarde a todos vocês, meus prezados ouvintes, desejando-lhes, como sempre o faço, muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

Mundo da fantasia

Agora sim! Por favor, fechem seus olhos e, imaginariamente, tomem suas agulhas de coser, fios e retalhos. Acomodem-se confortavelmente em suas cadeiras de balanço e vamos, então, dar inicio a uma maravilhosa COLCHA DE RETALHOS, que servirá como cobertura de vossas camas de sonhos e imaginações. Já estão com suas agulhas providas de linhas? Então, me acompanhem no maravilhoso passo a passo pelo encantado mundo da fantasia.  

A Rua do Comércio, que por ocasião da formação do primeiro quadro urbano da nossa cidade, passou a ser denominada Rua Velha e hoje é a nossa tradicional Rua XV de Julho. 

Era esse o local de parada obrigatória das tropas para comercializarem seus produtos, se alimentarem e alimentarem seus animais. Todos sabemos que a vida social em nosso município, deva ter iniciado, com mais intensidade, ao final do século XIX, 1895, aproximadamente, quando da chegada à Irati das primeiras famílias vindas das regiões de Campo Largo, Ponta Grossa, Lapa, Assungui e, até mesmo, de Curitiba. Todas motivadas pelas noticias da construção da Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande, que se aproximava do Covalzinho.

Nesta época, a nossa atual Iraty era apenas um pequeno povoado, perdido na imensidão do sertão do Paraná Central. Uma única rua cortava a vila, servindo como entrada e saída das comitivas tropeiras que por aqui transitavam. Um carreiro vindo pelo traçado da atual Rua 19 de Dezembro, descia pela ladeira onde hoje temos a nossa delegacia de polícia e desembocava na Rua do Comércio, atual Rua XV de Julho, na qual estavam distribuídas as principais casas residenciais e comerciais do então COVALZINHO. Esta rua se estendia até o inicio da atual Rua Conselheiro Zacarias, donde voltava à condição de simples carreiro ou picada, por onde as comitivas saiam em direção á Palmeira e outros lugarejos incrustados na rota oficial das tropas. 

As primeiras bodegas
Era ali que estavam localizadas as primeiras bodegas, os primeiros armazéns, assim como as casas das principais lideranças da Vila. Pode-se facilmente imaginar que era também na Rua do Comercio que a comunidade da época desenvolvia, com mais intensidade, o seu relacionamento social, com famílias visitando-se umas ás outras, crianças reunidas brincando e seus pais discutindo assuntos sobre os destino do povoado. 

Bem, minhas amigas e amigos, já cosemos os primeiros retalhos sociais da nossa colcha. Escolham, então, mais um destes maravilhosos pedaços de tecidos e... Vamos em frente. 

O retalho seguinte da nossa cocha nos conta um pouquinho sobre as atividades de lazer de nossos antepassados. Vocês nem imaginam como elas eram bem diferentes daquelas que praticamos nos dias de hoje. Mas, continuem com seus olhos fechados e... Bons sonhos.

Límpidas águas do Rio 2
Como nem só de trabalho e relacionamento social viviam os primeiros moradores do COVALZINHO, busquei identificar quais teriam sido as primeiras formas de lazer do nosso povo, naquele final do século XIX e descobri alguns documentos que me levaram até as barrancas do nosso, então, despoluído RIO DAS ANTAS, e descobri que ali foi o local preferido dos nossos pais para curtir seus pic-nic, pescarias, passeios de barcos e até torneios de natação. Tudo isso, prezados ouvintes, o nosso hoje moribundo RIO, proporcionava ao cidadão iratiense do passado. Resta-nos agora, tentar imaginar grupos de pessoas, elegantemente trajadas, com suas toalhas estendidas sobre a grama e suas cestas de guloseimas sobre elas, crianças brincando de roda e de pic-pic e, até, aqueles e aquelas mais arrojadas e desinibidas, com seus recatados trajes de banho, mergulhando nas límpidas águas do rio, que sem dúvidas, foi a coqueluche de lazer nosso povo Covalzinhense. 

Ufa! Nossa concha está aumentando rapidamente de tamanho. 

Vamos, então, para mais um colorido retalho da sua rica composição. Este retalho, meus querido caminhantes por esta estrada da nossa história, é talvez um dos mais importantes desta nossa colcha. Ele identifica uma das datas mais importantes deste nosso maravilhoso passeio mental. Ele nos leva até o mês de dezembro de 1899. Momento do nascimento do nosso caudaloso e adocicado Rio de mel – IRATY (com “Y”).

Um novo Irati
Dirijam sua visão imaginaria para aquele grupo enorme de cidadãos aglomerados defronte a pequena estação de trens e escutem o grande alarido de vozes e palmas ao termino de cada pronunciamento que é proferido. Isso mesmo, vocês adivinharam. Estamos presenciando o momento em que a estação de trens de IRATY estava sendo inaugurada. Momento em que o Covalzinho deixava de existir, cedendo seu lugar para um novo IRATY, que surgia pela escolha de João Vizinoni, engenheiro chefe das obras da Estrada de Ferro e, com isso, o início de todo o progresso que ela prenunciava trazer consigo. 

A partir daquele auspicioso momento histórico, a antiga vila do Covalzinho, agora a já vila do Iraty, passou a respirar ares de progresso e desenvolvimento. A recém inaugurada estação de trens passou a ser, então, o ponto convergente de todas as atividades econômicas e sociais do novo IRATY. Sobre trilhos de aço, agora chegavam os mais diversos produtos, necessários ao nosso povo, ao mesmo tempo que saiam outros que produzíamos com eficiência, como a erva mate e a madeira. Mas, a nossa minúscula estaçãozinha de 1899, não revolucionou somente o lado econômico da Vila, ela mudou também, profundamente, os costumes sociais do cidadão iratiense da época. A estação passou a ser o mais importante centro social da nossa população, que não perdia, por motivo algum, a chegada ou saída dos trens de passageiros e até daqueles que só transportavam cargas. Na época, tínhamos três tipos de composições ferroviárias. As composições só de passageiros, as de carga e a mista, a qual era composta de vagões de carga e de passageiros. No entanto, algum tempo mais tarde, fomos brindados também com uma composição que se convencionou chamar de “Trem Internacional”, que transportava passageiros, em sua maioria GRINGOS, vindos de São Paulo com destino aos outros paises latinos americanos, notadamente para a Argentina. A sua passagem semanal por Irati era um acontecimento de gala, o qual nem uma personalidade iratiense deixava passar em branco. Em seus melhores trajes dominicais, todos afluíam para a estação a fim de apreciar a passagem da famosa composição de estatus “INTERNACIONAL”. 

Trem Internacional
Getulio Vargas, Evita Perón, Carlos Prestes, Percival Farquar, e tantas outras personalidades, nos deram a honra de seu transito pela nossa cidade. 

No largo, ao lado da estação, ficavam estacionadas dezenas de carroças, charretes e gaiotas que faziam o transporte de cargas e até de passageiros chegados pelo trem. Tínhamos, também, muitos moleques carregadores de malas, que se ofereciam aos passageiros que aqui desembarcavam para carregar-lhes as malas e outros tipos de volumes até seu local de hospedagem. 

Estes moleques, além de transportarem os pertences do viajeiros, serviam também, como propagandistas de alguns dos hotéis e pensões da vila.

Este nosso passeio mental, ainda não acabou, caros ouvintes. A melhor parte dele vem a seguir. Continuem com seus olhos serrados e imaginem-se como cidadãos daquele inicio de Irati. 

Aquele início de Irati
Cidadãos que ansiavam por saber de tudo o que estava acontecendo em locais mais afastados do nosso município. Uma carta, um telegrama, uma noticia de um dos jornais de Curitiba ou de São Paulo, eram aguardados como verdadeiros tesouros que só chegavam até aqui, 10, 20 dias ou mais, após serem endereçados a nós. 

Olha lá! Esta chegando o trem que trás o malote do correio, será que a minha carta esta chegando, e o meu jornal do mês passado, será que enfim chegou? 

O trem parava na plataforma da estação e todos ficavam com as vistas hipnotizadas, a procura do agente dos correios. Ele morava e tinha sua agencia em uma grande casa de madeira, situada próxima de onde hoje é a nossa estação rodoviária. Orgulhosamente, então, descia do vagão de correspondências, cumprimentava a todos, com um breve aceno de cabeça e seguia em frente por um carreiro existente, entre a estação e sua casa acompanhado de perto por quase uma centena de curiosos em saber se alguma carta ou jornal lhe havia sido endereçada e que estaria no interior daquele, tão esperado malote.

Largo da Igreja
De peito estofado, como de um arauto da felicidade, lá ia ele, a frente de um cortejo de esperançosos cidadãos, até sua casa-agencia incrustada ao meio de um imenso descampado. Do alto da varanda do seu reino postal, tendo todos aos seus pés. De correspondência em correspondência, de jornal em jornal, ia chamando os felizardo para apanharem seu rico tesouro postal. Conta-se que era emocionante este acontecimento. Eram poucos os contemplados, que da li saiam sorridentes e alegres, lendo e relendo as cartas ou jornais recebidos, enquanto que, muitos eram os decepcionados e resmungões. É pouco, ou querem mais, meus queridos ouvintes. Algum de vocês ai, de olhos fechados, que estão me acompanhando, deixaram de receber suas cartas ou jornais. Nossa! Quantos estão resmungando. Talvez, no próximo trem postal tudo venha ser diferente para vocês, não é mesmo? 

Bem, agora quem quiser abrir seus olhos por alguns instantes, pode fazê-lo. 

Pronto, agora os fechem novamente. Isso! Vamos em frente, neste nosso passeio mental. 

Por volta de 1903, mais ou menos, edificou-se a primeira capela da vila, que se localizou bem ao centro de um vasto terreno que se denominou de LARGO DA IGREJA, e que se localizava exatamente, onde hoje temos a PRAÇA DE BANDEIRA e o CORREIO. De 1903 a 1926, o local tornou-se o ponto de convergência religiosa de Iraty. Muitas festas, batizados, casamentos e outras atividades cívicas, religiosas e sociais foram ali realizadas. Até as comemorações da emancipação do nosso município aconteceram naquele local. Uma curiosidade histórica, pouco conhecida, de nós iratienses é que, algum tempo depois que a capela foi transferida, o local foi conhecido como Praça Conselheiro Zacarias, para tornar-se, então, em 1944, a nossa Praça da Bandeira. 

Que pena!
Por muitos e muitos anos, esse nosso mais tradicional espaço público, foi palco de grandes cerimonias cívicas e populares, para então cair em quase total ostracismo. Que pena. 

Olha a pipoca, olha o refrigerante. Compre agora e se delicie assistindo a filme Sansão e Dalila.  

Esta era a invariável propaganda do pipoqueiro Herculano, proferida a todos que iam entrar para assistir uma das concorridas seções do CINE THEATRO CENTRAL, o mais antigo cinema do interior do Paraná.

Paixão de Cristo
O Cine Central, era um dos mais importantes espaços social e de lazer da nossa, já então, Perola do Sul. Local de grandes e diversificados acontecimentos culturais, políticos e sociais, assim como, de outras diferentes reuniões que ali, constantemente, se realizavam. Crianças, adolescentes e adultos, indiscriminadamente, frequentavam o local. As ruas próximas ao cine ficavam apinhadas de pessoas, veículos motorizados e principalmente carroças, a espera do horário em que as portas do local se abririam ao público. Três bares, duas sorveterias, uma casa de jogos e um circo, não conseguiam concorrer com o cinema, na atração de fregueses. 

Eram outros tempos
O acontecimento mais emocionante, no entanto, acontecia na semana santa, ocasião em que durante sete dias seu João Wasilewski, oferecia ao povo iratiense, tanto da cidade como do interior, seções continuas com a projeção do filme PAIXÃO DE CRISTO. Ai, então, é que o bicho pegava mesmo. Faltavam lugares para tantos expectadores. Era um empurra-empurra, para se entrar a sala de espetáculos e acomodar-se em uma poltrona bem localizada.

Mas, depois que todos ocupavam seus lugares, as luzes se apagavam e o filme começava a ser projetado, só se ouviam soluços e assoar de narizes. Alguns até arriscavam balbuciar palavras como: Malvado! Assassino! Você vai direto para o inferno! Isso tudo quando as cenas mais violentas de agressões ao CRISTO eram perpetradas pelos soldados romanos.

Eram outros tempos, outros costumes, outras plateias, outras convicções. Mas que era apaixonante, isso era sem dúvida nenhuma. Todos saiam do cinema soluçando e com os olhos marejados pelas lágrimas. 

Já se recompuseram, caros ouvintes? Posso ir em frente? Muito bem, enxuguem suas lágrimas, guardem seus lenços e... Vamos lá. 

Convido á todos a me acompanharem até a Rua XV de julho. Venham comigo conhecer aquele que foi um dos mais importantes clubes sociais de todo o interior do Paraná. Fica bem ali, defronte a casa do Coronel Emilio Gomes. 

Chegamos. Apresento-lhes o Clube do Comércio, nascido do ideal e do sonho de uma centena de iratienses sonhadores, como nós que aqui estamos neste momento.  

Tudo teve inicio no ano de 1923, aproximadamente. Um grande casarão de madeira, com uma arquitetura refinada e de fino acabamento, foi a primeira sede da sociedade. Grandes bailes, com famosas orquestras nacionais e internacionais. Vestidos longos, fraques, esmukins e gravatas borboletas, ninguém podia deixar de tê-los em seus guarda-roupas. Era frustrante não poder participar de um baile, por não possuir o traje adequado, ou não ser sócio do tradicional Clube do Comércio. Mas, nem só de bailes, vivia o casarão encantado, outros eventos sociais, esportivos, políticos e até religiosos eram freqüentes no local. Casamentos, formaturas, recepções a grandes autoridades estaduais e nacionais. Houve um momento em que o clube serviu até como hospital, durante a segunda guerra mundial. Hoje, já construído em alvenaria, o antigo clube transformou-se em um Centro Cultural de grande importância para a nossa querida Irati do século 21. Parabéns ao meu amigo Virgilio Trevisan, mentor dessa nobre iniciativa.

Vestidos longos

Meu Deus! Não tinha reparado. Nossa colcha já está quase pronta. Mas ainda falta um último retalhozinho para completá-la. 

Este sim, por experiência pessoal, eu não poderia deixar de acrescentá-lo a esta nossa obra de arte.

Para encerrar, com agulha de ouro, essa minha pesquisa, selecionei um acontecimento social e religioso muito especial da nossa historia. Trata-se da festa de Nossa Senhora da Luz, ocasião em que, bem ali, na Rua XV de Novembro, junto aos trilhos da Estrada de Ferro, eram montadas barraquinhas cobertas de lonas, onde se desenvolviam as mais diferentes atividades recreativas. Era uma semana de festas e confraternizações, onde toda a população da cidade e do interior se reunia para angariar recursos para a Matriz de N.S. da Luz e, ao mesmo tempo, se divertir e confraternizar. Tinha a barraquinha do tiro ao alvo, administrada pelo Chapova, a barraquinha da roda da fortuna, sob a responsabilidade da inesquecível Leoni Fenianos, a barraca do aviãozinho, sob os Cuidados do Farmacêutico Vico. Tinha, ainda, as barracas da víspora, corrida de cavalos, pescaria e muitas e muitas outras mais.

Eram noitadas saudáveis, alegres e cordiais. Ocasião em que todos abriam seus corações e, principalmente, suas carteiras, a fim de contribuírem com uma nobre causa, que era então o termino das obras da edificação da nossa Matriz de N.S. da Luz.

Uma breve observação: os quadros e desenhos que ilustram esta matéria são de autoria de Primo Araújo (Meu pai). 

Bem, meus amigos, viajantes do tempo. Chegamos ao final de nossa encantada viagem. Podem abrir os seus olhos e voltarem à realidade dos nossos tumultuados dias atuais. Eu, pessoalmente, não tenho nenhuma lembrança mais nítida de momentos tão preocupantes como os que, nos dias atuais, nossa sociedade enfrenta. Talvez seja fantasia minha, mas se me fosse dado o privilégio de voltar ao passado, com certeza, eu compraria só a passagem de ida. Um bom final de sábado, um ótimo domingo a todos e até a próxima semana que aqui estarei novamente trazendo-lhes um pouquinho mais da nossa história, da história de nossa gente. Até lá. 

  


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