Matérias / Irati de Todos Nós

19/12/17 - 09h59 - atualizada em 20/12/17 às 09h42

"Crônicas nem sempre exemplares" Parte 2 - Prof. José Maria Orreda

Programa: "Irati de Todos Nós" apresentado dia: 02.12.17

José Maria Grácia Araújo                                   

Em continuidade ao tema apresentado no meu programa “IRATI DE TODOS NOS” do sábado passado, vou continuar apresentando-lhes, meus prezados ouvintes, um pouco mais da belíssima literatura produzida por inúmeros iratienses que nos orgulharam no passado, como também no presente e, por certo, continuaram a nos orgulhar no futuro.

O meu BOAS TARDE todos vocês caros ouvintes, sempre desejando-lhes muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.  

José Maria Orreda
José Maria Orreda não se furtava em nos dizer, pessoalmente e através de sua rica literatura que, é importante que todos nós iratienses, de berço ou de coração, conheçamos muito bem a história do nosso município. Insiste ainda Prof. Orreda “A preocupação dos pesquisadores e estudiosos deve ser ampla e continua, pois a evolução social e a definição de novas perspectivas na marcha evolutiva da nossa comunidade só poderão ter clareza futura desde que baseadas nos fatos históricos do passado”. Conhecer a história é, no mínimo, conhecer o rumo a se tomar. Etapas sociais e culturais a serem vencidas no presente só serão alcançadas na medida em que coletivamente valorizemos nossos vultos do passado e seus feitos que fundamentaram a formação do nosso presente, estendendo-se para o nosso futuro. A história é um processo contínuo a desafiar a argúcia e a tenacidade dos pesquisadores. 

Seguindo essa premissa venho já há mais de 15 anos pesquisando e divulgando através desta prestigiosa emissora Radio Najuá, importantes informações históricas que nos levam aos primórdios do surgimento do nosso amado e querido Rio de Mel Irati.

Querido Rio de Mel - IRATI

No sábado passado, dia 25 de novembro, falei sobre duas das mais antigas comunidades do nosso município, que foram Governador Ribas e Bom Retiro, hoje nossa querida Guamirim. Para hoje quero vos falar sobre outras duas comunidades, que na verdade são uma só, irmanada na união grande de seus habitantes, estou falando das minhas queridas comunidades do Riozinho e de Gutierrez, meu segundo berço, donde vivi durante meus primeiros anos de existência. E sem mais delongas, vamos logo ao assunto.

Distante apenas oito km. do centro urbano de Irati, Riozinho e Gutierrez constituem atualmente um dos mais populosos bairros do município, com varias indústrias, dentre as quais sobresaem várias olarias, fabricas de beneficiamento de milho, trigo e outros cereais e uma Universidade, entre outras. 

No setor do ensino, conta-nos o Prof. Orreda que até a década de 40, foram muitos os professores que serviram a cauda da educação nas comunidades irmãs de Riozinho e Gutierrez. Entre estes podem ser citados Celina Gracia Pereira, Virgílio Pereira, Arlindo Bovo, Geraldina Carriel, Zilda Dala Bianca, Francisca Araújo Ditzel, Maria Ferrari dos Santos, Maria José Teigão Chami, Maria de Lourdes Brustolin, Vitalina Trevisan Weigert, Risoleta Barros Pereira, Julieta Brustolin, Argentina Ribas Correa, dentre outros. A primeira zeladora da escola de Riozinho foi D. Ligia Lorenzi. Em 1952 foi instalada a Escola Trajano Gracia, em Gutierrez, sendo sua primeira professora D. Maria José Teigão Chami. Nos dias de hoje a comunidade se orgulha de contar com uma Universidade á Unicentro.

Unicentro

Trajano Gracia empenhou-se, auxiliado por sua esposa D. Olívia Maria Anciutti Gracia, para instalação de um Seminário em Riozinho. Em 1950 foi iniciada a construção do Seminário Santa Maria, assim denominado em homenagem a D. Maria Olívia, benemérita da instituição, com relevantes serviços e ajuda prestada ao Instituto Popular de Assistência Social, entidade mantenedora do Seminário. A área onde se localiza o educandário, hoje Unicentro, foi doada pela família Anciutti. São mencionados como fundadores, em nome do IPAS, Frei Patrício de Nebola e representando a comunidade, D. Olívia Maria Anciutti Gracia. Instalado em um prédio majestoso e com magníficas instalações constituem o patrimônio da atual Universidade do Centro Sul do Paraná UNICENTRO.

Dona Mariquinha

A seguir, para reforçarmos nosso amor e carinho pela nossa Aldeia, vou oferecer-lhes, caros ouvintes, um belíssimo e poético texto do meu grande amigo Luiz Vanderlei Kava, intitulado MEU RIO DE MEL. 

Minha Aldeia Irati 

Talvez seja um sonho

Nascer aqui; e assim...

Desta mãe encantadora,

Desta Mãe que és belezas mil.

Não sou só eu que a amo

Há tanta gente aqui, e assim

 a chamam: Irati

Mas há tanta gente também

Que a usa, explora,

Tentando roubá-la de nós...

Mas, minha aldeia Irati,

Nunca me afastaram de ti.

Lembro-me ainda com saudades

Quando pequeno corria

Por seus verdes campos floridos

Olhando e navegando

Em suas belezas sem fim...

Nos céus encantos de ti

Em suas cores, tu és minha eterna Irati...

Que moras em meu coração...

Coração de filho que sonha

E acorda em seus braços, feliz

Por ti darei minha vida

Pois tu me deste a minha vida

MEU RIO DE MEL IRATI

Vanderlei Kawa

Vamos agora, vocês e eu, nos acalentarmos com mais um conto da série Crônicas nem sempre exemplares de autoria de José Maria Orreda.

A MARCA DO CAVALO 

Prateados e Carijós, caboclos rijos e guapos, habitavam a região que vai além da Serra dos Nogueiras, lá pelas bandas da Serra dos Beneditos. Muito antes ou muito depois de Nhô Benedito da Cruz e Nhá Mina plantarem o laranjal no sitio encantado, abençoado pelas nuvens, hoje querência do Juca Diniz e sua digníssima consorte. Pelo sim, pelo não, a aura do espaço tão forte, o sol sempre presente, de manhã com gosto de aurora, de tarde com cheiro de outrora, na tarefa de iluminar tudo e todos pelo lado de dentro, o infinito tão azul, as estrelas tão próximas, chuva de ouro, jasmins e aleluias não são apenas flores, mas entidades vivas que o Juca entre a roça de milho e os cuidados com o pomar, tornou-se sábio e aprendeu a ver e reconhecer o mundo. E olhando para o azul infinito, lembrou do Dico, do Chasco, do Ivo, do Quiréra e do Nenê que, de olhos arregalados, foram buscar a luneta que Nhô Benedito usou para construir a linha telegráfica da Ferrovia São Paulo Rio Grande, no rumo de São João dos Pobres, que estava adormecida no sótão da casa grande.

Ferrovia SPRG
Na época da demanda do cavalo, o Candinho era rei da noite, cantor da madrugada, batia em policia na estação, antes ou depois da passagem do trem, carregava abacaxi na Rua Sete e repetia no pente melodias próprias para pistão. O Nego Gibi pisava descalço nas brasas das fogueiras de São João, São Pedro e São Paulo na fabrica de caixas do Menemar, o divino era festejado no Riozinho, O Olmyr plantava feijão no Caratuva, Nho Juvenal Mole fazia décimas no Iraty Velho, “Fui ao campo colher flor, todo campo floreceu”, o Nego Pessoa recitava a escalação de todos os times do fluminense desde os tempos mais antigos, Nhá Satu cuidava das criancinhas na escola, Dona Hilda a Cidália e Dona Ana faziam a merenda dos socorridos, mais ou menos quando o Buck Jones e o Rock Lane crivavam de balas a tela do Cine Theatro Central, sem falar do James Stwart e o Durango Kid, ocasião em que a fumaça da pólvora cobria a lona do circo Theatro Politeama e NHô Bastião arrancava risos de uns, e gritos de outros, mostrando Nh’Ana.
Cine Theatro Central
Algum tempo depois o Prefeito, Tenente Amaral considerou a Campanha do Metal, da borracha e do ouro importantes para o bem e salvação do Brasil, para pagar as dividas do Paraná e favorecer os usurpadores do erário público, próprio do passado e dos dias presentes. Pedro Coronha e Juca Paulista ainda tomavam chimarrão com Nhá Nardina no Rio Bonito. Há! nossa Irati do passado pulsava através da linha internacional da Estrada de Ferro SPRG com seus trens internacionais, sem falar nos desfiles cívicos e discursos de autoridades civis, militares e eclesiásticas quando da passagem por nossa estação de ilustres figuras do poder dominante do país e do mundo. 

Foi então que aconteceu o causo da MARCA DO CAVALO, no tempo em que um trem atrás do outro, indo vazio e vindo cheio de imbuia, pinho e cedro, dia e noite que até não havia vagões suficientes, sequer locomotivas, por ordem do truste Farquart, fato que não deve ter sido esquecido pela memória geral do iratiense.

A marca do cavalo

Prezado amigo ouvinte. Calma, muita calma, se sua paciência estiver se esgotando. Agora, de verdade mesmo, vamos à questão do cavalo e sua marca. Tudo aconteceu desta forma: O processo havia sido protocolado e seguia os canais competentes, quando foi parar na QUINTA Delegacia Regional de Polícia, de Irati. João usava a marca “5” e José a Marca “6”. Curiosamente o pangaré apresentava a marca quase oculta pelo crescimento de sua pelagem. O Delegado anterior a gestão de José Thomaz decidiu, para inicio de conversa, que a marca do cavalo não poderia ser “5” ou “6” ao mesmo tempo, ao que todos aplaudiram com gestos de cabeça e murmúrios respeitosos. Ora disse o delegado olhando para as partes. Não sendo “5” e sequer “6”, o cavalo sequer seria de João, sequer seria de José e sequer seria entregue a qualquer um dos dois, sendo impossível cada um ficar com a metade do animal, mesmo diante de algum mágico capaz de transformar um cavalo em dois petiços. Foi quando a multidão, sentindo o rigor da lei, sentiu firmeza na decisão. O delegado, então, determinou que João e José fossem buscar as suas marcas, isto é, os respectivos ferros que depois de aquecidos eram usados para a marcação de seus animais. O cavalo ficaria retido, uma vez que seria provocação dizer que ele ficaria espontaneamente aguardando as diligências.

Aguardando as diligências
Foi quando sua excelência, o Delegado foi aplaudido pala massa de curiosos, diante da feliz decisão tomada. O delegado, acostumado com o jeito das tropas que ia buscar no Pinhão ou nos confins de Guarapuava, mandou chamar um dos presos muito habilidoso e prestativo, gente fina, de confiança, pau pra qualquer obra, ajudante de ordens, carcereiro nas horas vagas, fazedor de chimarrão para uns, mate para outros, atendente de telefone, delegado nos dias santos e feriados. Com a tarefa de raspar com uma lamina bem afiada ou navalha, o local da marca. A cicatriz contaria a verdade, doesse em quem doesse.
Capela de Nossa Senhora da Luz
Porém o sino da Matriz de Nossa Senhora da Luz anunciava a hora do almoço, algum tempo após do apito da fábrica de caixas do Ludikiewzc, genro do Chico Viana, maior potência do ramo no sul, centro-sul, leste e oeste do Paraná desde o governo Bento Munhoz da Rocha. O assunto da marca do cavalo, então ficou para o expediente da tarde, pois ali ninguém era de ferro. O Delegado comeu paçoca de charque com café, o Promotor almoçou no Hotel Estrela por conta do seu cliente, ocasião em que comentou que o caso já estava no papo, tudo com os aplausos e apoio do Antonio Piech, que disse – Com certeza Doutor! Sem dúvida Doutor! Mas D. Senhorinha, que então fornecia marmitas para os detentos, dependendo do Delegado, pedindo licença foi logo dizendo: Cuidado que a verdade é mais forte que a vontade da justiça. Retomados os trabalhos, na anca do cavalo raspada, a marca ficou evidente o “5” estava na cara de quem tivesse olhos limpos para ver. O Promotor ainda disse com eloqüência de autoridade e firme convicção de voz, que era “6”, repetindo com o dedo o movimento no lombo do animal e depois empinando o nariz para o delegado. Não adiantou de nada. Foram arroladas as testemunhas e o cavalo entregue para seu legitimo dono. O promotor levou José à sala da chefatura, dizendo que havia acontecido um tremendo equívoco e apresentou a conta ao seu cliente, cem cruzeiros novos, moeda da época. –
Delegacia de Policia de Irati
Mas doutor, o senhor falou que seria fácil. Fiquei sem meu cavalo e ainda tenho de pagar todo esse dinheiro? Ao que o Promotor foi logo respondendo – Você me contratou para te defender, sabia que o cavalo não era seu e desejou que eu ganhasse a causa no grito. O Delegado quando a multidão se dispersou e o Promotor foi embora, já com a cuia do chimarrão na mão, desabafou: Vão para o diabo que os carregue ou se acharem melhor, para os quintos dos infernos; até parecem que não tem o que fazer; ainda bem que o mardito só se agarrou com o Promotor e não foi pedir ajuda ao Deputado; eu é que teria de ser vesgo. E até hoje, quem apurar os ouvidos ali diante da delegacia, próximo da antiga casa de morada e comércio do Coronel Francisco de Paula Pires na Rua quinze de Julho, antiga Rua Velha, ouvirá o eco da gargalhada do Nicolau Cara-de-Gato.

Deixando o complicado causo da Marca do cavalo de lado, vamos, então, para mais uma das históricas décimas de Nhô Juvenal Mole; A MENINA QUE SE ESTRAVIOU

Juvenal F. de Camargo

Foi no domingo de Natal 

Na véspera do fim do ano

Que se estravio a minha filha

Foi um taio soberano

Se fiá em gente de fora

Corre o risco do engano


Eu não dechava ela i

Se tivesse ali na hora

Que foi grande atrapaio

Eu não esqueço inté agora

É errado entrega criança

Pra quarqué gente de fora


Gente que não sabe nada

Puis tudo é Deus que determina

Dexo a minina estraviada

E garro por outra esquina

E veio sozinha imbora pra casa

Sem da conta da minina

Sem da conta da menina


Este causo qui acunteceu

Ta servindo de inscola

Se a minina não parece

Eu insacava a minha viola

Não pois eles na cadeia

Purque andavam pidindo insmola


O sr. Lucio Ribero

Home de boa atenção

Mandou sua caminhoneta

Atende minha percisão

Perguntei quanto custava

puis era minha obrigação

ele disse que não cobrava

por que tinha bão coração.


Uma mulher acho ela na rua

Isso foi no primero dia

A mulher pergunto pra minina

O que era que ela quiria

Ela disse quero i pra casa

Mais a estrada não sabia


A mulher fico cum medo

De decha ela sozinha

Mais isso era ainda cedo

Nem aviso os vizinho

Pego ela e levo pra casa

La no instituto do pinho


O ertro dessa muiá

Foi não avisá mais cedo

Quando foi ficando tarde

Fomo ficando cum medo

Tiro ela da cidade

e foi pro meio do arvoredo

Foi pro meio do arvoredo


Na casa do Lucio Ribero

Quando a Caminhoneta chego

Foi grande a quantidade de gente

Que a caminhoneta arrodio

Eu não sei quanto de presente

Que essa minina ganho


Foi logo no escurece

Que a caminhoneta chego

A visinhança queria vê

E muita gente arrodio

Foi um causo sentimentar

Que muita gente choro

Tudos queriam aparpa

Quando a menina desimbarco.


Juvenal Ferreira de Camargo o pai da menina.


É isso aí, meus caros ouvintes, só nos resta agora, esperarmos todos pelo próximo programa de sábado que vem, para nos deliciarmos com mais alguns causos, destes maravilhosos escritores iratienses. Até Lá. 


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