Matérias / Irati de Todos Nós

08/12/17 - 10h09 - atualizada em 20/12/17 às 10h31

"Crônicas nem sempre exemplares" - Prof. José Maria Orreda

Programa: "Irati de Todos Nós" - apresentado dia: 25.11.17

José Maria Grácia Araújo                 

Todo o Rincão que se preze esta repleto de contos, crônicas, histórias e muitos e muitos causos. Principalmente quando dentre seus eméritos escritores e poetas estão José Maria Orreda, Oscar Leandro, Fued Castro Chama, Alzira Dembinski Bueno, Juvenal Ferreira Camargo e tantas e tantas outras inesquecíveis personalidades que, no passado, abrilhantaram a nossa literatura.

E é por isso que no meu programa deste sábado, dia 25 de novembro, quero lhes oferecer um belíssimo pacote de relíquias da arte escrita, falada, cantada e declamada, que são obras raras destes nobres cidadãos iratienses.

O meu boa tarde a todos vocês, meus prezadíssimos ouvintes, desejando-lhes muita paz harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

Bem, meus assíduos ouvintes, sem mais perda de tempo vou iniciar esta pequena coletânea da belíssima literatura iratiense, pelo nosso saudoso prof. José Maria Orreda, com sua crônica intitulada: JOÃO TRABUCO

Professor José Maria Orreda

Nicolau tinha setenta anos, Maria Joana apenas dezessete, idade em flor, e não queria casar com o noivo que o pai lhe arranjara. Acabou casando, vestida de noiva. Algum tempo depois João Trabuco apareceu, procurava serviço, roçar capoeira, arrancar batata, plantar feijão, mandioca e erva mate. João era homem muito valente e Maria Joana uma moça muito faceira. Nicolau, o noivo, era um homem muito rico, precisando de ajuda. O calor deixa o mato ardente, com cheiro de mulher. Nicolau sequer percebeu, mas para ele começava a “pestiar” o ambiente.

Arrancar Batatas
Foram fazer um batatal no Camacuã. Maria Joana ficou em casa, janela de vidro, poço no quintal, galinhas soltas. João Trabuco, uma tarde, veio trazer recado do patrão: - - não esqueça de molhar os tomates, as alfaces, os pepinos e os pimentões! Porém, fascinado pelo verão de Irati, deu a deixa que Maria Joana esperava desde o casamento. No sábado da primeira semana de roça, quando Nicolau voltou, não encontrou Joana, sua mulher, em casa. Ela já estava morando no ranchinho do Trabuco.
Ranchinho do Tratuco
Nicolau adoeceu, teve enjôo, dor de cabeça, febre alta, que remediou com pó milagroso de Nossa Senhora Aparecida, bento pelos padres. Benzeu-se de suas moléstias com Dona Maria Rosa. Tomou Xarope aviado pelo Vico. Ao sentir-se melhor, calçou a bota, colocou o revolver na cinta, a faca por dentro da calça, nas costas, e foi ao ranchinho do João Trabuco e de sua nova companheira, Maria Joana. O calor de Irati sufocava-lhe os passos.
Hô de casa, quero fala cum vois mecê!
Ao chegar à porteira, gritou chamando seu desafeto, o João, “ô de casa! Quero falar com vols mecê. Home!”. João Trabuco, ainda com as portas e janelas fechadas respondeu: - To aqui, dentro! Veio brigar véio?- Não vim brigá não, tudo que tenho pertence à Maria Joana, cavalos, marrecos e galinhas, em nome do Pai do Filho e do divino Espírito Santo, quero mora com vois meceis. João Trabuco foi saindo devagarzinho do rancho, caminhando pé sobre pé, muito ressabiado, abriu a porteira. Nicolau entrou ajeitando a guaiaca, parecia mas sem muita vontade, querer puxar a faca, olhou para Maria Joana com os olhos marejados de alegria, quem sabe de agonia, ela fritou-lhe um ovo de galinha carijó e Nicolau, o ex-esposo, ficou em definitivo no seio da nova família, que naquele momento se formava. Até que um dia, quando partiu desta para outra vida, seu exemplo foi louvado e seu corpo recomendado, na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Rio Bonito.

Eita, causo complicado Sêo! Até parece com as novelas da Globo Home!

Como o nosso segundo homem das letras e dos versos, que nos brindaram no passado com suas obras poéticas, cito Nhô Juvenal Ferreira de Camargo, vulgo Juvenal Mole. De sua lavra a bonita Décima “A Festa de N.S. dos Remédios de Angaí”. 

Juvenal Mole

Neste ano eu fui à festa

Lá pras banda do Angaí

E lá vi tanta coisa

Que inté agora não vi

Tinha muita gente de lá

E tinha também de Irati

Tinha inté gente minha

Que quase não conheci.


É bunito um lugar deste

Que o povo tudo cumbina

Quando chega o dia da festa

Cuidam bem da lei Divina

Aqui tem muitos bãos homê

E de amizade é uma mina

Pois agora trocô de nome

Já não é mais Diamantina. 

Lá pras banda do Angaí


Foi na casa do Tonico Chaga

 que me hospedei permeiro

Por ser tão boa esta vaga

Pois ele é bom companhero

Foi lá que tratei um baile

Pro próximo méis de janero

E também deu pra canta

Na budega do Artur Ribeiro.


Eu cantava nos butiquim

I tudos achavam engraçado

Traziam cerveja pra mim

Só pra fazer um bão agrado

Churrasco sobrava tanto

Que inté tava pelos gramado

Que ninguém fazia conta

Pois tudos já tinha armoçado.

Churrasco sobrava tanto


Fiquei muito contente

Por que nesta festa vim

 aqui tem muito boa gente

e eu sabia que era anssim

nessa hora chego uma limosina

e eu vi que era de Irati

Dr. Canoco desembarco

I já veio dá um abraço em mim.

Limosina do Canoco


O Canoco tem um instudo

Que ele sabe acontrolá

Logo na hora do armoço

Me convido pra lhe acompanhá

As prenda que era mais cara

 ele logo queria arrematá

e disse um discurso no coreto

pra o povo se alegrá.


O que achei tão bunito

Foi também a porcição

Que rompeu de dentro da Ingreja

E já procuro uma dereção

Subiu e desceu as rua

Fazendo muita devoção

E varou pela rua principal

Pra bençoá toda a população. 


Nhô Juvenal Mole foi um personagem de relevo do folclore iratiense. Nos deixou uma coletânea de trovas e décimas que enriqueceram a nossa cultura popular.

Alo, meu pessoal amigo, aí dos nossos queridos rincões de Governador Ribas e Guamirim. Agora que esta nossa prestigiosa emissora, Radio Najuá, com suas transmissões em freqüência FM, atinge todo o interior do nosso município, assim como também toda a nossa região Centro Sul, quero lhes oferecer, também, um pouquinho da história dessas importantes comunidades iratienses.

Do grande teatrólogo e escritor iratiense Oscar Leandro: 

Tetrólogo Oscar Leandro

“GOVERNADOR RIBAS E GUAMIRIM”

Por volta de 1940 a estação de Governador Ribas, situada a quatro quilômetros da sede do distrito de Bom Retiro, hoje Guamirim, era o centro principal para o escoamento do produto que mais se cultivava no município de Irati: a batata.

Compradores de batatas
Centenas de vagões eram requisitadas mensalmente através daquela Estação, para atender as dezenas de depósitos que se localizavam naquele importante centro produtor. O então agente da estação o Sr. Artur Martins que, além de suas obrigações profissionais, empregava seu tempo vago para, comigo, com o comerciante Simão Michaliszen, com os batateiros, como eram chamados os produtores e compradores de batatas, tomar parte numa espécie de comissão, criada para atender as necessidades do lugar. Eu (Oscar Leandro) era na qualidade de funcionário público, encarregado do posto fiscal para arrecadar os impostos devidos ao Estado e, por solicitação do Prefeito de Irati, Tenente Amaral, arrecadava também para a Prefeitura, pois o lugar não dispunha de funcionários públicos para tal. O Posto Fiscal atendia as demais estações da linha, até Água Clara. Os batateiros que mais colaboraram com a comissão foram: Paulino Stroparo, David Brandalize, Joaquim de Souza, Irmãos Ribeiro e outros que por lá passaram. Representando os lavradores, sempre se fazia presente o Sr. Alexandre Haliski. A comunidade de Governador Ribas cresceu repentinamente em virtude da grande produção agrícola, mas não possuía nem mesmo uma escola para as crianças. Foi então que a comissão entrou em cena e construiu-se, perto da estação ferroviária, uma casa de madeira, com uma sala de aula e moradia para a professora. 
Estação Governador Ribas
Construída a escola, aceitando nosso convite, o Interventor Manoel Ribas compareceu para inaugura-lá e festejou durante todo o dia, juntamente com aquele povo simples, não lhe faltando seu prato preferido, churrasco com farinha de mandioca. A mandioca solicitada pelo interventor, felizmente, foi encontrada na venda do Sêo Simão. Presume-se que foi um dos dias mais felizes que o interventor do Paraná passou no meio daquela gente boa, na maioria plantadores de batatas. Mais tarde, reduzida a produção de batata, em virtude da queda do mercado, Governador Ribas voltou a ser o que era. Já então havia sido construído um Grupo Escolar em Guamirim. A escola construída pela comissão foi doada à Congregação das Irmãs da Imaculada Virgem Maria, que havia instalado um colégio na localidade. Imediatamente formamos outra comissão pois aí a situação era mais angustiante ainda. Essa outra comissão foi composta por moradores da vila, que aceitaram nossa sugestão e dela participaram com abnegação, entre outros componentes o Sr. Edvino Scharamm, que foi enquanto viveu, um elemento de grande valor, dando tudo de si em favor da comunidade; os senhores Fioravante Princival, João Braz Dantas, Bevenuto Stroparo, Francisco Carraro, Laudelino Afonso da Rocha, Sebastião Pareira, Miguel Chuilki, Lauro Pereira, Adão Guiska, Elias Adib, Assad Harmuch e mais aqueles que eram convocados para determinados serviços. A vila não tinha nada, nem escola, a não ser uma sala com quatro paredes, quase em ruínas. Foi pensando nisso que a comissão tomou as primeiras providências.
De carrocinha
Naquele tempo não havia transito de caminhão ou automóvel na localidade, nem de passagem, mas sabendo-se que o interventor do Paraná se encontrava em Irati, de carrocinha e debaixo de grande temporal, alguns elementos, comigo e João Brandão na boléia, lá fomos falar com Sua Excelência, contando a ele toda a situação, munidos é claro, de um recenseamento das crianças em idade escolar. Mais tarde, conferenciando com o Prefeito de então, João de Mattos Pessoa, este prontificou-se a construir o Grupo Escolar, com quatro salas de aulas e duas para a direção. Já na gestão do Governador Moises Lupion que compareceu a inauguração, a convite dos guaramirienses, sendo que o discurso agradecendo em nome das crianças em fila, por indicação da diretora D. Esperança Carignano Chuilki, foi proferido pelo aluno João José Leandro. O Governador Lupion acompanhado de sua esposa D. Herminia e comitiva passou o dia todo na Vila, em meio a grandes festividades. Aconteceram, nesta ocasião, fatos pitorescos mas, o mais importante foi contado pelo Governador Lupion, durante o banquete. O caso foi o seguinte: A comissão havia encarregado Nhô Soares para ficar na entrada da Vila com a missão de soltar um foguete quando notasse que o Governador estava se aproximando, afim de avisar o pessoal para colocar a criançada em fila e outras providências mais. Aconteceu que Nhô Soares, vendo um automóvel passando na estrada gritou: 

Alto lá!
Alto lá! Pare o carro, o carro parou, E Nhô Soares perguntou: O senhor é o Lupion? – Sim, sou eu, respondeu o governador. Então fique parado aí, que eu vou lá no morrinho soltar um rojão para avisar o pessoal. Só saia quando eu mandar, entendeu? E assim foi feito. Passadas as festividades da recepção ao governador Lupion, voltamos então as nossas atividades normais. Numa das reuniões da comissão alguém lembrou de me fazer presidente do Clube de Futebol da Vila. Mas o Clube ainda nem existia. Tudo que existia era uma divida de dezessete mil réis de uma câmara-de-ar que não fora paga. Mesmo assim fui eleito e empossado no botequim do Daniel. Formamos uma diretoria e tanto! Sêo Edvino, como tesoureiro. Formamos o time, promovemos jogos nas redondezas, o mais longe foi em Rebouças. Craques e diretores se locomoviam em carrocinhas. As reuniões não podiam continuar na bodega do Daniel, queríamos ser civilizados e ter um clube de verdade, com sede e tudo, não só de futebol, mas recreativa e cultural, com bailes e teatro também, ora essa! Lá está o Clube Guaramiense, todo o mundo ajudando e fazendo as maiores economias. Custou, naquela época, a fabulosa quantia de vinte e dois contos de réis, emprestados pelos sócios e restituídos em apenas dois anos com valores arrecadados com sorteios, com mensalidades e outras atividades mais. E a iluminação da sede? Problema que precisava ser resolvido. O Fioravante colocou água de seu moinho a disposição, o dínamo gerador foi comprado e a rede elétrica instalada. Muito foguetório na inauguração e a luz inundou não só o clube, como também, as casas de famílias, a igreja e as bodegas. E por falar na igreja, esta era pequena demais para a Vila, não comportava o grande número de fieis. O jeito era demoli-la e construir outra maior. A comissão uniu-se com o bondoso Padre José e o templo foi construído a jato, inclusive uma casa paroquial bem confortável. Logo após a Vila hospedou o bispo de então, D. Antonio Mazarotto, da Diocese de Ponta Grossa que prometeu enviar um vigário, permanente, pois o padre José residia em Rio Azul. E os impostos? O povo tinha de se locomover uns cem quilômetros (ida e volta) de carrocinha para pagar os impostos em Irati. Absurdo! A comissão mexeu os pauzinhos e a Coletoria Estadual foi criada e instalada em grande estilo no Guamirim. A população unida á comissão, lutava por melhores condições de vida. Nessa ocasião tudo era motivo de festa no Distrito. Houve um ano em que os colonos tiveram grande prejuízo com o trigo, ficaram arrasados. Surgiu, então, a idéia de convidar o gerente do Banco do Brasil, sr. Brancallioni, para um churrasquinho em Guamirim; ele aceitou e a reunião teve lugar em baixo de um pinheiro, pois ainda não tínhamos a sede do clube; todos unidos compareceram e aí aconteceu o inesperado! Na alegria da festa foi debatida a situação dramática dos colonos. A miséria deles atingiu o coração do visitante, que mandou às favas toda a burocracia. Determinou que, munido de um simples bilhete nosso, fosse apresentado na agência do banco o colono que precisasse de financiamento. Assim foi feito e todos foram salvos na colheita seguinte que foi muito boa. O financiamento maior coube ao Sr. Antonio Padilha de Miranda, que dispunha de maior área para o plantio. Recuperaram-se todos os prejuízos do ano anterior, graças a um simples bilhete de apresentação de um gerente bem intencionado da época. Formou-se então uma união ente a população do distrito, que tudo conseguia com a maior facilidade, com alegria, com festa e, sobretudo, com muita amizade.

Viram só prezados ouvintes, e em especial aos queridos e laboriosos habitantes do nosso querido Bom Retiro, hoje Guamirim, que no passado soube unir a força de sua população e prol do bem comum da comunidade. Parabéns meus irmãos deste Iratizão cada vez mais de todos nós.

Poetisa Alzira Dembinski

E para encerrarmos o programa de hoje com chave de ouro, da nossa poetiza Alzira Dembinski Bueno as poesias VIVER EM TUDO e CANTO AMANHECIDO.

NO RAIAR DO DIA

NO AROMA E GRAÇA DA AURORA

NO BRILHO E DOÇURA DO ORVALHO

NO ÚMIDO DO ARVOREDO

NO GORJEIO DOS PÁSSAROS

ESTOU PRESENTE.


NO VENTO QUE GEME

NAS VELAS INFLAMADAS DO BARCO

NOS MORMÚRIO DOS BOSQUES

NAS NOITES INSONES

NAS HORAS QUE FOGEM

ESTOU PRESENTE


EM TUDO QUE CINTILA

EM TUDO QUE VIBRA

EM TUDO QUE SOFRE

EM TUDO QUE ESMAECE

ESTOU PRESENTE 


NA SAUDADE DO RISO

NA INFÂNCIA QUE BRINCA

NO SONHO DA MOÇA

EM TODA A EXISTÊNCIA

ESTOU PRESENTE


NO DESEJO ARDENTE DA POSSE

NAS MÃOS DESPINDO CARÍCIAS

NOS CORAÇÕES SENSÍVEIS

NA ESPERA DO AMOR

ESTOU PRESENTE.



CANTO AMANHECIDO


ARRANCADO NA PAUTA

DAS NOITES INSONES

DEDILHANDO NAS CORDAS

DOS NEURÔNIOS GASTOS

DESLIZAM ARPEJOS E ACORDES

NAS TECLAS DO NADA


MARCAM-SE NOS COMPASSOS

OS TEMPOS FORTES

E OS TEMPOS FRACOS

RESPEITAM-SE AS FIGURAS

AS PAUSAS

OS ACIDENTES

OS OCORRENTES


E NO CONFLITO E DISSONANCIA

DAS SONATAS ENFUNADAS

REPASSADAS DE ALERTA

E DE AFLIÇÃO


RESSOAM AINDA

APOJATURAS VIBRANTES

RETEMPERADAS NA FÉ

NA ESPERANÇA

E NO DESEJO DE PERFEIÇÃO.

É isso ai, meus queridos e prezados ouvintes, estes são alguns de nossos expoente da literatura, da prosa, do verso e dos causos, que nos brindaram com seus magníficos trabalhos, dignificando a cultura desse IRATI CADA VEZ MAIS DE TODOS NOS. Até o próximo sábado. Até lá.


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