Matérias / Irati de Todos Nós

23/12/16 - 11h09 - atualizada em 23/12/16 às 13h23

É Natal!

José Maria Grácia Araújo           

Me desculpem, meus prezados ouvintes. Ouvintes de todos esses quase quinze anos em que venho lhes apresentando o meu programa IRATI DE TODOS NÓS. Me desculpem sim, pois é sempre ao final de cada ano que a magia e o romantismo dos anos dourados da minha infância e juventude voltam a minha lembrança e me atingem com um grande impacto de saudade e melancolia.

O meu Boa tarde a todos vocês, meus diletos e prezados ouvintes, deste que é o meu penúltimo programa deste sofrido ano de 2016. Não me esquecendo de desejar-lhes um FELIZ NATAL, mesmo que ele seja aos moldes dos natais dos dias de hoje. Um feliz natal, a cada um de vocês, a seus familiares, a seus parentes, a seus amigos e vizinhos, desejando a todos muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.  

Quando vos falo da magia e do romantismo dos anos que já se foram, estou retrocedendo as douradas décadas de 40, 50, 60 e, talvez, com muita boa vontade, até a década de 70, período em que eu curti a minha infância, adolescência e parte da juventude em Irati. Período em que tudo aqui era dourado e repleto de fantasias e romantismo. 

E não estou falando só sobre o NATAL daquela época, estou sim me referindo a cada uma das atividades das quais participávamos, fossem elas de lazer, educativas, cívicas, religiosas, esportivas ou, até mesmo, profissionais. Todas eram muito especiais, pois cada um de nos as praticávamos em conjunto, em grupos familiares, de amigos, de vizinhos, em fim em grupos de moradores de uma mesma terna, acolhedora e pequena cidadezinha incrustada no interior do estado do Paraná, conhecida pelo nome de Irati, nosso adocicado RIO DE MEL. 

É isso aí mesmo caros ouvintes, para você, também, que está conosco há pouco tempo, ou que esta chegando agora, não faça essa fisionomia de quem não esta entendendo nada, pois, se quiser posso muito bem arranjar muitas e muitas testemunhas de peso e de idade, para que, juntos comigo, possamos te convencer de tudo isso que estou iniciado a lhes falar.  

 


Papai Noel, 

Já faz mais de 60 anos que eu não escrevo para o senhor, não é? Mas hoje, meu bom velhinho, resolvi resgatar aquela criança de brilho nos olhos e com o coração cheio da esperança que ainda vive dentro de mim. Não sou mais aquela criança e meus pedidos mudaram um pouco, mas com certeza o senhor poderá me atender.

Eu gostaria de uma pequena caixa vermelha. Isso mesmo, vermelha. Que represente a vida.

Para que eu quero essa caixa? Eu explico:

Dentro dela vou guardar todo o amor que eu ainda tenho para dar. Toda a esperança que vive dentro de mim. Toda a saúde que eu ainda possa ter… Todo o carinho que ainda eu tenho para distribuir.

Vou guardar também dentro dela a compreensão, pois ela está tão rara hoje em dia…. Guardarei também a solidariedade que é tão escassa nos dias de hoje. Guardarei todos os meus sonhos para que nenhum fuja por entre os meus dedos. Nela vai caber também o meu sorriso para que eu possa ofertá-lo aos amigos a quem tanto admiro….

Vou guardar também todos os meus momentos felizes, pois não quero me esquecer de nenhum…. A minha gargalhada infantil…. A saudade da minha infância, porque nela existe a prova do amor, da magia e de bons momentos. A confiança no futuro, pois sem ela não vivemos. A minha lealdade para que com ela possam contar todos os meus amigos e conterrâneos. A felicidade… para que eu possa compartilhar com todos vocês que me ouvem neste momento. O brilho do meu olhar, para iluminar a caminho que ainda desejo percorrer.

Nela também guardarei os meus desejos mais secretos para que um dia eles possam se realizar…. As lágrimas, pois elas também são de felicidade…. Todo o aprendizado que a vida me ofereceu para que eu seja uma pessoa cada vez melhor….

O senhor deve estar se perguntando onde vou guardar essa caixinha… e eu lhe respondo:

Dentro do meu coração, pois de lá sei que ela jamais sairá… e para sempre ali ficará.

Meu bom velhinho faça que com a chegada do Natal, a criança que cada um tem dentro de si renasça novamente…. E que o Menino Jesus nos abençoe e proteja.

A minha criança dentro de mim está viva… e cheia de sonhos a espera do meu pequeno-grande milagre de Natal….

Fechem seus olhos e imaginem, caros ouvintes, uma noite de Natal dos anos 50, no centro de Irati. Na rua XV de Novembro, por exemplo, onde morava meu avô Miquelino. Sua casa ficava bel ali, no centro nervoso da cidade. Cine Central, á 50 metros, Bar do Maluf, a 40 metros, Bar Marabá, a 30 metros, Padaria Wasilewski, a 60 metros (dava até para sentir o cheirinho do pão, juntamente com as encomendas de frangos, pernis, leitões e outras guloseimas natalinas que estavam sendo preparadas para as famílias iratienses degustarem nas suas ceias natalinas. Estou falando da casa do vô Miquelino, por ser ela uma das mais visitadas nas noites de natal e ano novo, mas poderia estar usando como exemplo, a casa do Sr. Abdala Pedro, ali bem próxima, ou de seu Eurico Miranda, do seu Elias Harmuche, da família Maluf, Wasilewski, Garzuze, Vander Lars, Pauluki e tantas e tantas outras que se apinhavam a poucos metros de distancia umas das outras.

Durante o dia todo, a criançada ficava brincando em frente a suas casas, sempre se misturando umas com as outras. Eram, naturalmente, brincadeiras daquela época, Pular corda, amarelinha, passa anel, pega-pega, roda, bolinha de gude (a rua XV era ainda de terra, dava até para jogar bolinhas de gude), peteca, bandido e mocinho e muitos outros folguedos infantis, daqueles bons tempos mágicos repletos de romantismo.

Quando os relógios “cucos” anunciavam 18 horas do dia 25, só se ouvia, em cada janela, uma mãe gritar: Joãozinho, Martinha, venham tomar banho e se arrumar para jantar e esperar o Papai Noel, senão ele não trará “o” (Vejam bem, estou dizendo “O”, e não “OS”) o presente que você encomendou para ele.

Mais uma vez, amigos ouvintes, era assim mesmo, ninguém ganhava mais que “1” presente, e bem simpleszinho mesmo.

Uma boneca de pano, muitas vezes feita em casa mesmo; um caminhãozinho de lata, pois não existia o plástico ainda; uma bola de capotão, para os meninos de 15 a 16 anos; um tabuleiro de damas ou trilhas; uma chuteira feita artesanalmente na Sapataria Borne; um pião feito na marcenaria do Romanhuk ou, até mesmo, uma perna de pau, feita em casa por nosso pai. Eita mundo bão seo! Como era bom, assim mesmo, ganhar um presentinho singelo desses e preservá-lo durante o ano todo, até a chegada do próximo natal.

Calma, meus queridos ouvintes, não pretendo convencer ninguém de que tudo era mais romântico no passado. Mas sabem como é, hoje é véspera de Natal e eu estava justamente pensando nele, no seu significado e fazendo aquele exame básico de consciência.

No Reveillon, são tantas as distrações da festa, que não dá tempo de passar o ano a limpo. Mas no Natal dá. O espírito da festa, mais famíliar, mais caseira, nos leva naturalmente à reflexão, ao retiro espiritual.

Pelo menos antes da ceia, dos presentes, do amigo secreto e daquela troca de abraços com familiares que a gente só vê uma vez por ano. “Lembra da tia Julia?” Nem sabia que tinha uma tia Julia, mas, vá lá, um abraço e tapinhas nas costas de titia Julia, pois é Natal! Engraçado que, há pessoas nas nossas vidas que merecem ser vistas, ouvidas, sentidas o ano todo, mas mesmo assim, só lembramos delas no Natal.

Eu sei, é a correria do trabalho, o dia-a-dia atribulado, tanto para fazer e tão pouco tempo. Mas, vamos nos esforçar para tirar todo esse povo da geladeira em 2017.

Bem, mas todos vocês, crianças e adolescentes de hoje, não curtem as fantasias do nosso passado, não se emocionam mais quando o Bom Velhinho tira do seu saco de presentes um único e singelo brinquedo, não é mesmo? Talvez nem mesmo o Papai Noel continue sendo o símbolo do Natal para vocês e “seus” presentes já iniciam serem entregues alguns dias antes do dia 25 de dezembro, e não mais pelas mãos de um velhinho que para muitos de nós descia pelo chaminé de nossas casas, pois as casas modernas já não possuem mais chaminés, por onde que ele entrava nas noites natalinas, não é mesmo?

O telefoninho do meu tempo, com duas latinhas unidas por um barbante, hoje foi substituído pelo celular, e que muda de modelo a cada mês, a boneca de pano da menina anos 50, tornou-se hoje quase que perfeita, chega até a falar e andar por conta própria, e faz até xixi nas fraudas. E os vídeos games, então? Quem de vocês hoje se empolgaria com um tabuleiro de damas ou de xadrez, ou mesmo com um vistoso joguinho de pecinhas que eram movidas de casa em casa do tabuleiro, a cada lançamento do dado? Você meu amiguinho, anos 2016, que curte ser jogador de futebol, se sujeitaria a ir a um sapateiro para tirar as medidas dos seus pés, fazer duas ou três provas da sua chuteirinha e esperar mais alguns dias até que ela ficasse pronta, para só aí, então recebe-la do Papai Noel na noite de Natal? Eita trajeto longo este hem? Uma simples chuteira que hoje é comprada na mesma hora em qualquer loja de calçados, naqueles tempos tinha de ser encomendada, pelo menos, uns trinta dias antes da data em que ela poderia ser usada. Mas era assim mesmo, e como valia a pena esperar, mesmo que ela fosse o nosso único presente de Natal.

 

Dois carretéis de linhas, que as costureiras as vezes jogavam fora, mais alguns pedacinhos de madeiras e uns poucos preguinhos, eram o suficiente para que, com as nossas criatividades anos 50, os transformássemos em um caminhãozinho, um automóvel ou até mesmo em um carro de boi. Com latinhas de graxa de sapato, muito usadas antigamente, as meninas as transformavam em pratinhos para suas casas de bonecas.

Coitadas das galinhas de nossas mães, quando extraviávamos nossas petecas, lá íamos nós para o galinheiro da casa, correr atrás das penosas, depenando-lhes as caldas a procura de suas penas mais vistosas, cocococo...có; cococo...có; reclamavam elas, sem serem respeitadas ou ouvidas em suas lamurias, e ai, então uma nova peteca surgia quase que, do nada.

Nos, a piazada, tínhamos o nosso brinquedo predileto: A cetra, ou estilingue, como muitos o conheciam. Nem um piá que se prezasse deixava de ter um estilingue pendurado ao pescoço, pelo menos por 12 horas diárias, tinha alguns que até dormiam com ele enfeitando sua guéla. Haja barro da olaria Santa Terezinha e dos barrancos do Rio das Antas, para a fabricação de pelotes para serem lançados contra passarinhos, gatos, cachorros e outros mártires mais.

 

Mas, espera aí, amigo ouvinte!

Estava me esquecendo de um dos mais concorridos espetáculos dos meus natais, anos 50. Nunca iria me desculpar, caso deixasse fora deste meu programa de hoje, a maior atração natalina que nos era oferecida anualmente, durante uma semana inteirinha, pelo nosso inesquecível CINE THEATRO CENTRAL sob a regência do Sr. João Wasilewski, que era o filme PAIXÃO DE CRISTO, que iniciava a ser oferecido ao público iratiense, da cidade e da área rural, em três seções diárias, sempre lotadas, que se estendiam do dia 20 ao dia 25 de dezembro.

 

Em dias de semana, as seções eram freqüentadas, na sua maioria, pelo povo da cidade. As duas seções da tarde recebiam preferencialmente crianças e adolescentes e a seção da noite era reservada para o público adulto. Era aquele “fervo”. De dia a juventude iratiense, se vestia com suas roupas de missa, sapatos engraxados e bem lustrosos, os meninos com muita brilhantina nos cabelos, as meninas com um grande laço de fita, amarrado seus longos cabelos, quase sempre e loiros.

Lá íamos nós, assistir pela 6ª, 7ª vez, o grande épico da crucificação de Cristo, que por alguns anos ainda era em filme mudo, com legenda, no qual todos os atores pareciam sempre estar se locomovendo com muita pressa. Era a única ocasião que, dentro do cinema, toda a molecada ficava o tempo todo, em silêncio absoluto. Só se ouvia, de quando em quando, leves e retraídos soluços, daqueles mais cessíveis as cenas dramáticas do filme.

Á noite era a vez da platéia adulta e haja lenço para conter as lágrimas de homens e mulheres, com maior sensibilidade ao drama. Alguns chegavam a gritar “malvado”, “perverso”, “bandido”, ou outra critica qualquer, quando algum dos soldados romanos praticava alguma violência contra Jesus.

 

Mas nada se comparava, em quantidade, originalidade e dramaticidade, á aquilo que acontecia nas seções que eram apresentadas nos sábados e nos domingos. Ocasião em que os colonos de todas as regiões do município e redondezas, vestiam suas melhores roupas, preparavam suas carroças com toda a pompa, arreavam seus cavalos com todo o esmero que a ocasião merecia e saiam cedo de suas casas para chegar em Irati e adentrar ao Cine Central, ocupando os melhores lugares que encontravam. Um adereço que nunca faltava às matronas rurais era um vistoso terço que as acompanhava durante toda a apresentação do filme e que tinha suas “ave-marias” e “pai-nossos” recitados ininterruptamente, do começo ao fim do filme. Era um resmunguedo só. Mas ninguém se importava. ERA NATAL!

As ruas todas, ao redor do Cinema, ficavam apinhadas de carrocinhas e seus vistosos cavalos, esperando a hora de conduzir seus donos de volta a seus longínquos lares. Uma coisa é certa, se houvesse logo a entrada do cinema um esperto vendedor de lenços, por certo faria uma fortuna, somente os vendendo durante as projeções de inesquecível filme PAIXÃO DE CRISTO.

 

Ouvi dizer que o Natal perdeu seu significado…

Que deu lugar ao consumismo,

Árvores de Natal, ricamente enfeitadas,

Papai Noel esmeradamente caracterizado, distribuindo miriades de ricos presentes e familias inteiras trancadas em seus feudos.

Mas eu prefiro lembrar que neste Natal,

Por conta dos empregos temporários,

Muitas pessoas puderam resgatar um pouco de sua dignidade.

E que por conta do dinheirinho extra que receberão

Muitos pais e mães de família poderão

Oferecer uma mesa mais farta aos seus filhos.

Prefiro lembrar que por conta das Campanhas de Solidariedade feitas nesta época algumas crianças ganharão, sim, algum brinquedo.E que você…

Você poderá dar Aquele Abraço nas pessoas que você gosta

Mas que “por falta de motivo” pra abraçar

Ficou contido até agora… E, talvez, neste momento você perceba que, bem ou mal,

No Natal, o Amor está em toda parte!

Mas, se ainda assim, você não quiser celebrar nesta data

Não tem problema: Quero te convidar a viver com o Espírito do Natal todos os teus dias vindouros!

 

Viram só, prezados ouvintes, como as coisas eram bem diferentes de hoje, na celebração dos natais de antigamente. Tudo era mais mágico, mais sincero, mais romântico, mais comunitário. Formávamos todos uma única e grande família, quer fossemos moradores da cidade ou do campo, nos uníamos em bloco por ocasião de nossos natais, finais de ano, festas religiosas, campanhas religiosas e de fraternidade, datas cívicas e todas as ocasiões mais que exigisse que estivéssemos irmanados em uma causa comum. Bons tempos aqueles, sem televisores, sem computadores, celulares, e outros aparelhinhos mais, que nos confinam em nossos mundos particulares, impedindo de nos reunirmos com mais freqüência e fraternidade com nossos irmãos, sejam eles familiares, parentes, vizinhos, amigos ou conterrâneos como somos todos que escolhemos este mesmo pedacinho de terra, chamado de IRATI – NOSSO CAUDALOSO RIO DE MEL. Até o próximo sábado que mais uma vez aqui estarei trazendo-lhes sempre um pouquinho mais da nossa história, a história da nossa gente.





PUBLICIDADE

 


Comentários

Enquete

A pesagem de cargas na Estrada de Gonçalves Junior: (envie áudio com opinião 98405-1572)

  • Não é uma boa
  • É uma boa
Resultados