Matérias / Irati de Todos Nós

28/11/16 - 10h15 - atualizada em 02/12/16 às 14h56

Irati - Meu Rio de Mel

José Maria Grácia Araújo  


Todos nós iratienses de ontem, de hoje e de amanhã, por certo, temos um imenso orgulho de nossos antepassados. De todos os homens e mulheres que no passado edificaram juntos o presente em que vivemos e o futuro em que viveram nossos filhos e netos. Os pioneiros plantaram a semente das arvores que hoje nos alimentam e nos dão sobras, as quais, nós seus sucessores, temos a responsabilidade de nos unirmos a fim de preservá-las para que as novas gerações de iratienses, também se alimentem de seus suculentos frutos.

O meu BOA TARDE a todos vocês, meus prezados ouvintes, que sempre me acompanham todos os sábados, desejando-lhes muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações. 

O Jornal O Debate, em sua edição do dia 15 de julho de 1967, data do 60º aniversário do nosso município, publicou a bonita mensagem de autoria do eminente extinto cidadão iratiense, Antonio Lopez Junior:  

Os Pioneiros
Irati 60 anos
“Como iratiense de nascimento e coração, que por uma coincidência interessante, nasceu neste mesmo dia 15 de julho, quando Irati tinha apenas 12 anos, não poderia de modo algum, deixar de marcar minha presença, quando se comemora os 60 anos do nosso município”. 

60 anos de vida de uma pessoa é muita coisa. O sinal do tempo já vivido começa a se estampar na face do cidadão. Para um município, entretanto, 60 anos significam apenas um começo de vida. Pode-se dizer que é a sua juventude e que é a época em que se prepara para entrar na maturidade. 

60 anos... Parece que foi ontem!... Naquela época, os trilhos de uma estrada de ferro faziam e localizavam uma pequena Vila. E ela começou ale, perto da estação, alargou-se na Praça da Bandeira, onde existia a Capela de Nossa Senhora da Luz. Foi se esgueirando, mais tarde, pela Farmácia Apolo, que já existia desde 1913, e foi subindo o morro da então chamada Rua Velha hoje Rua XV de Julho. 

Capela N. S. da Luz

Este meu Irati sessentão deve se orgulhar do seu passado. 

O Brasil inteiro que se orgulha daqueles que, tangidos pelo destino de uma grande nação, plantaram cidades no coração de um imenso sertão. 

A caminhada dos bandeirantes em todos os sentidos, abriu picadas nas florestas, plantou roças ao longo dos roteiros, travou batalhas com as tribos selvagens. Os seus passos ressoaram no coração da grande terra descoberta tendo como refugio o sertão que se prolongava para todos os lados. 

Os homens nunca sabem o verdadeiro papel que representam na história. A missão que Deus confia a cada um é executada, muitas vezes, fazendo acreditar á pessoa estar desempenhando outra. 

Fernão Dias
Fernão Dias, por exemplo, ao morrer, supôs que era o descobridor de esmeraldas, mas o que ele fora, na realidade, o ignorou, ou seja: Ele fora o homem que ligara, por via terrestre, o sul a norte do Brasil, por aonde vieram, mais tarde, os plantadores de cidades... 

Em nossa região, as cidades foram surgindo, nos pousos de tropeiros. Pelas longas e empoeiradas estradas, lá iam os tropeiros fazendo seu comércio e pernoitando nos recantos mais acolhedores do caminho. Ai estendiam seus couros, acendiam suas fogueiras, pegavam na viola e cantavam iluminados pelo luar do sertão. Pois, não era um verdadeiro tropeiro, o tropeiro que não sabia inventar e cantar versos de saudade e de amor, ou contavam causos sobre suas façanhas. Esses locais de paradas foram origem da maioria das nossas cidades de hoje. Perto dali, alguém se lembrou de abrir uma venda e como as tropas eram muitas, um concorrente abria outra e assim floresciam novas comunidades. Lavradores iam se localizando por perto e resolviam erigir uma capela, como foi o caso de Irati, que escolheu a veneração a Nossa Senhora da Luz. Os povoados iam aumentado, logo surgia um fogueteiro, um boticário, pedreiro, carpinteiro, ferreiro... Em seguida um armazém de secos e molhados, uma bodega e como havia crianças, surge também um mestre-escola. As cidades nasciam deste modo... Irati não fugiu a essa regra. 

Povoado aumentando

É bem verdade que não se deve apenas mirar no passado, esquecendo por completo o futuro, mas é verdade, também, que tem sido o exemplo dignificante dos que ficaram para traz, na escalada do tempo, que tem incentivado as grandes obras que impulsionam o progresso presente. 

Por isso devemos nessa oportunidade, prestar a homenagem que merecem, aqueles que ficaram nos fragmentos históricos de Irati, como iniciadores ou continuadores de nosso município. E não apenas os que têm seus nomes na história escrita, mas toda aquela legião imensa de patrícios e de forasteiros que aqui fincaram seus marcos e aqui, no silêncio do anonimato, construíram inicialmente, a grandeza de nossa comunidade. 

Pacífico (de hoje)
Pacífico (de ontem)
À semelhança dos plantadores de cidades, reverenciamos os feitos do humilde velho PACIFICO, que ainda conhecemos centenário, arcado sobre se bordão a contar historias dos primeiros tempos de Irati; dos coronéis Manoel Gracia e Emilio Batista Gomes, que eram grandes em seus ideais; do Coronel Sabóia, Coronel Pires, Julio Vieira Lisboa, Major Pires, que comandavam a policia na cidade e, lá no sertão, pelas bandas do Rio Corrente, perto do Bom Retiro, hoje Guamirim, que é mais velho que a própria vila do Irati, a família Batista desbravadora, da qual descendo... (Quero lembrá-los, prezados ouvintes que este pronunciamento é do eminente cidadão iratiense, Antonio Lopes Júnior, publicado no jornal O Debate do dia 15 de julho de 1967). 

Mas continuando:

Seminário S. V. de Paulo
João Wasillewski
Avançando no tempo, merecem destaque, no campo da cultura e da educação, a Dona Noca, a professora primária que formou tantas gerações de iratienses; a Dona Maria Ferrari, minha mestra e da maioria dos homens e mulheres da minha geração; a irmã Helena Olek, que veio jovem da Europa, e com a força de sua juventude levantou, com espírito de sacrifício e capacidade de renuncia, lá em cima, onde desponta um imenso campo verde, o Colégio Nossa Senhora das Graças. Exemplo dignificante de mulher denodada! Verdadeira missionária que juntamente com a irmã Gabriela, souberam elevar, pelo próprio esforço uma obra gigantesca, sem pedir auxilio oficial. O saudoso prof. Tito Calderari, que lutou como um leão para fazer um ginásio em Irati, quando apenas em Ponta Grossa havia uma escola secundária e teve de enfrentar aqueles que teimavam em transformar uma casa de ensino em depósito de batatas. E esse Colégio, formou grande parte dos homens que hoje estão levando avante os destinos da nossa CIDADE. O antigo Seminário São Vicente de Paulo, por onde passaram os padres Pires, Pacheco, Lima, Rui, Matos.

O Capitão, como ainda é conhecido e como prefiro chamá-lo, Antonio Xavier da Silveira, primeiro boticário da cidade e primeiro esportista, e criador do ponto de reunião obrigatória de tudo o que se vazia na cidade. Dona Eugênia de Andrade Leite, exemplo de espírito público, atendendo sempre com cordialidade, na sua função de Agente do Correio. Quantos foram os jovens esperançosos, que iam ao correio em busca de suas cartas de amor, de saudade, e eram atendidos, a qualquer hora por Dona Eugênia... Zeno de Mattos Viana, que organizou a banda de música e fazia inundar a cidade com dobrados formidáveis e com marchas entusiasmantes. Davi Martins, o criador da primeira orquestra. Ladislau Schrut, o precursor do cinema em nossa cidade, com o prosseguimento de João Wasilewski, que aqui vem realizando, silenciosamente, um grande trabalho.

Tipografia Manual
O tenente Amaral, que também assim prefiro chamá-lo, porque foi assim que a cidade o conheceu, e o engenheiro Fernando Seiler Rocha, que construíram, em 1940, um marco divisor na administração pública de Irati. Prefeito sem vaidade, sem orgulho, que tinha uma só divisa: trabalhar pela comunidade sem sacrificá-la, preferindo antes sacrificar-se a si próprio. Os primeiros vereadores, então camaristas, quando Irati já era município: Antonio Xavier da Silveira, Salim Curi, Abib Mansur, Antonio Lopes, que foi presidente á época da instalação da Comarca e comandante da praça nos delicados e incertos dias da revolução de 1932.

O saudoso René Rizental e o atual jornalista Gumercindo Esculápio, precursores da imprensa iratiense; João Perez, na velha tipografia dos tempos manuais; Candoca Martins e seu irmão Cido Martins, pioneiros da moderna gráfica e incentivadores da boa imprensa e dos grandes ideais. 

E para não enfileirar tantos nomes, incluímos numa prece comovida, todos os que nunca foram lembrados em homenagem alguma, todos os que foram esquecidos, muitas vezes de propósito, mas que dentro de suas possibilidades e, muitas vezes, além delas, ajudaram a erguer os alicerces deste grande edifício que se chama Irati e que hoje abriga todos nós.

E, para um encerramento digno de sua grande capacidade intelectual, Antonio Lopes Júnior, assim se despediu: 

As palavras tupis encerram em suas sílabas, ima discrição inteira. Os primeiros habitantes ao trocarem o nome de Covalzinho, para o de Iraty, não o fizeram á toa. Deveria ter um significado. Segundo os entendidos Iraty, em sua língua significava abelhas, o que foi muito acertado. Aqui, desde então, formou-se uma imensa colméia, que elabora, ininterruptamente, o mel do trabalho conjugado, onde todos sem exceção, até o mais humilde, contribuem para a grandeza de um município que há de resplandecer no cenário nacional.

Imensa Colméia

Eu, pessoalmente, não sou um escritor. Julgo-me, apenas, um humilde pesquisador da nossa história, porém, se o fosse, acredito que estaria, semanalmente, construindo textos a serem publicados em nossa mídia, procurando sempre, ao estilo dos grandes mestres, Tico Lopes, Virgilio Moreira Foed Castro Chama, José Maria Orreda e tantos e tantos outros iratienses, a fim de enaltecer os gloriosos feitos daqueles que plantaram a semente, regaram o seu caule, podaram o arbusto que veio a se tornar essa frondosa árvore que hoje nos fornece os frutos da nossa sobrevivência. Parabéns a todos vocês, meus conterrâneos, pioneiros desta grande colméia, chamada Irati, nosso caudaloso Rio de Mel.  

Araújo - IRATI DE TODOS NÓS
É isso aí, meus prezados ouvintes, Irati visto pela sensibilidade deste impecável personagem do nosso passado, Antonio Lopes Júnior, era tudo isso e muito mais. Por isso, faço questão de sempre que encontro, ou que me são oferecidos textos como este que vos apresentei, de divulgá-los o mais rapidamente e em sua íntegra a todos vocês que me acompanham nesta minha humilde missão de enaltecer as boas coisas produzidas pela nossa gente.

E, como me restam ainda algum minuto do tempo do meu programa, vou continuar lhes oferecendo mais algumas perolas do nosso rico passado. 

Como, nestes últimos dias tive a satisfação de filmar com a RPC, Programa Meu Paraná, algumas imagens que mostram detalhes históricos sobre a nossa estação de trens, quero então acrescentar mais alguns detalhes sobre este local tão importante para a história do nosso município. 

Inicialmente gostaria de contar-lhes um pouquinho sobre alguns relatos de meus pais, somados a lembranças da minha infância e juventude, as quais assim poderia descrever: 

Proclamação da República
Irati iniciou a sua vida mais ativa a partir da inauguração da Estação da Estrada de Ferro, isto ainda no ano de 1899, quando a então antiga vila do Covalzinho, passou a se denominar Iraty, ainda com “Y”. Nesta época em que o município dava os seus primeiros passos, aviam se passado apenas 77 anos da data da Proclamação da nossa República e ainda não havia ocorrido a primeira guerra mundial. Estávamos no final do século XVIII e Iraty surgia, então, como uma grande promessa de força, progresso e realizações.

O Comércio, a industria, os hotéis, as repartições públicas, as bodegas e armazéns, como também, a primeira capela, estavam todos apinhados o mais próximo possível da, recém inaugurada, estação de trens, que tornara-se o novo centro de atividades da Vila. 

Irati das velas e lampeões
Os cavaleiros, carroças e carroções, rodavam agitadamente pelas ruas e caminhos que davam acesso á estação, ora levando suas cargas de erva-mate, madeiras ou batatinhas, para serem embarcadas em minúsculos vagões, e distribuídas por todo o Estado do Paraná e do resto do país; ora para buscarem as mercadorias que chegavam de localidades distantes, a fim de suprirem as crescentes necessidades da ansiosa população da Nova e florescente Vila do Iraty. Eram tecidos de seda, ou simples morins e pelúcias, assucar (com dois esses), phosphoros (com dois phs), Kerosene (com k) e até os famosos “burzeguins” (butinas) que protegiam os pés de alguns poucos afortunados da época. Era só o trem chegar, e lá ia o povo todo correndo, lotando as vendas, as bodegas e outras casas de comercio, em busca das novidades que chegavam pelo trem; uma seda, para um vestido novo, um brim riscado, para o terno do próximo casamento, o açúcar preto, que iria adoçar o café da manhã; Querosene, fósforo e velas, que iluminavam o interior das casas e, também, para os lampiões das ruas e vielas.

E quando pelo trem chegava também o malote do correio? Era uma loucura!!! O povo todo corria para a estação, esperava o agente do correio apanhar a sacola de correspondências e o acompanhavam em um solene cortejo, repleto de angustias e esperanças até o local onde eram distribuídas as cartas, os telegramas e os raros jornais que chegavam até a Vila.

Hotel Veiga - Hotel Martins - Hotel Estrela
 

Próximos da estação existiam, pelo menos, três bons hotéis, destinados a receber forasteiros, mascates e aventureiros que para cá vinham comercializar sua mercadorias, o que na realidade não era nada difícil. Nenhum proprietário dos hotéis e pensões reclamavam da freguesia, pois quase sempre estavam lotados. Hotel Veiga, Hotel Estrela e Hotel Martins, secundados por outras tantas pequenas pousadas mais simples, lá estavam, imponentes e acolhedoras, dando suas boas vindas a todos que desembarcavam em nossa pequena Vila.

Nossos Pinheiros e Imbuias
A industria madeireira, também, se fazia presente nas imediações da estrada de ferro, depositando ali, pilhas e pilhas de taboas e pranchões, para serem embarcados para outras localidades bem distantes daqui. Foram nossos pinheiros e imbuias os responsáveis pela edificação de muitas e muitas pequenas e grandes cidades que surgiram naqueles tempos. 

Lá estavam os Grácias, os Gomes, os Dallegraves, todos com suas serrarias rodeadas por casas de operários. Bons tempos aqueles, prezados ouvintes. 

O comércio, também, não poderia deixar de estar presente neste centro de atividades da Vila. A Casa Progresso de Theodoro Cichewski, em fase final de construção, iria tornar-se, mais tarde, um dos principais expoentes da nossa emergente potência comercial. Era uma maravilhosa obra de engenharia e carpintaria, toda edificada por gente nossa. Somente que teve a oportunidade de conhecer o imponente casarão, é que pode avaliar a imponência daquela verdadeira obra de arte da arquitetura do nosso passado. Lá, próximo da estação, estava também, sempre de portas abertas aos almofadinhas, juizes, comerciantes e outras autoridades da vila, a Alfaitaria do PRIMO, que pertenceu ao meu saudoso pai Dario Araújo. Local onde todos os fraques, ternos com coletes, cartolas, polainas e outros acessórios da época, eram esmeradamente confeccionados pelo “PRIMO” e seus auxiliares, Candóca Martis, Facco e Berlintes.

Fraques e coletes

Isso era Irati daqueles tempos românticos, de lutas, sacrifícios e também de muita alegria e esperança no porvir daquela pequena Vila que começava a sua trajetória entre as povoações do interior paranaense. Tempos em que com muito sacrifício e trabalho, nossos avós lutaram bravamente a fim de nos legarem um espaço de vida no qual pudéssemos hoje viver condignamente, procriar e acalentar sonhos sempre cada vez maiores. 

Porém para que todos estes sonhos de nossos antepassados, assim como, também, os nossos sonhados no presente, possam cada vez mais tornarem realidades, necessitamos nos darmos as mãos, e nos lembrarmos sempre que lutamos por uma causa comum, que é de paz, harmonia, amor por nossa querida Irati, nosso eterno e caudaloso Rio de Mel, agora, em nossos dias, com “I” ao seu final.

Necessitamos darmos as mãos

Este relado poderia se estender indefinidamente, pois o passado da nossa terra mãe, da nossa generosa e lutadora gente, foi muito rico em fatos marcantes que necessitam ser conhecidos por nossas novas gerações de jovens e adolescentes, pois é neles que reside a continuidade desta empreitada que teve como inicio a chegada dos primeiros habitantes deste maravilhoso pedacinho de chão que carinhosamente chamamos de Irati. 

O meu convite a todos vocês, para estarem comigo e com este maravilhoso grupo de amigos que atuam nesta emissora, líder do centro sul paranaense, Rádio Najuá, no próximo sábado, quando aqui estaremos todos sempre com um pouquinho mais da história nossa terra e da história da gente. Até lá. 


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