Matérias / Irati de Todos Nós

16/09/16 - 16h15 - atualizada em 20/09/16 às 10h17

O Caminho das Tropas

José Maria Grácia Araújo            


E a tropa vai troteando 

São umas cinquenta mulas 

Pela estrada caminhando 


E quando vai chegando a tarde 

Param para descansar 

Onde tenha bom pasto e água 

Para a tropa alimentar


São mais de 50 mulas


      UMA BOA TARDE A TODOS os ouvintes do Programa “IRATI DE TODOS NÓS”, desejando a vocês muita paz, tranqüilidade, amor e patriotismo em vossos lares e em vossos corações.

      O assunto que trago para esta tarde é, sem dúvidas, muito interessante, como também, muito relacionado com a historia do nosso querido município de Irati.

      Vou falar hoje sobre a provável a origem do nome dado a nossa cidade, nos tempos que antecederam a sua denominação atual.

     Todos sabemos que no passado nossa cidade era conhecida como COVALZINHO que, segundo conta-se, devido a que muitas das famílias que aqui residiam cultivarem pequenas plantações de couve que eram muito apreciadas pelos TROPEIROS que por aqui transitavam.

Covalzinho

      Somente, por volta do final do século XIX, com a chegada dos trilhos da estrada de ferro é que a denominação COVALZINHO foi substituída por IRATI, que na língua indígena significa Rio de Mel. Bem, mais esse trecho da nossa historia, tenho certeza, todos os nossos ouvintes já conhecem perfeitamente.

     O que muitos, talvez, desconheçam é que, no passado, IRATI também fazia parte do tradicional CAMINHO DAS TROPAS. Na verdade era um caminho alternativo, mas nem por isso deixa de ser, historicamente, muito importante.

Para o jantar do tropeiro

Tem carne seca e feijão

Sentam em volta do fogo

E tomam bom chimarrão

Contam toadas de viola

E causos de assombração


Causos de assombração

     

Caminho oficial das Tropas no Paraná
Segundo o escritor e folclorista BARBOSA LESSA, nos meados do século XVIII, 1750 aproximadamente, as primeiras TROPAS entravam no território brasileiro, vindas do Uruguai. Do Chuí no Rio Grande do Sul, seguiam para até Torres, dai rumavam até Lajes em Santa Catarina, adentrando, então, em território paranaense, pela cidade de Palmas. Desta cidade seguiam até União da Vitória, donde se apresentavam duas alternativas para seguirem viajem. O caminho oficial das tropas era percorrido de União da Vitória a São Mateus do Sul, Palmeira, Ponta Grossa, Castro, e daí seguindo para Sorocaba, em território paulista, e de lá para o estado de Minas Gerais. No, entanto, a exemplo da localidade de Registro de Santa Vitória R.S., também conhecido como Passo as Guarda, onde a Coroa Portuguesa mantinha um posto de arrecadação de tributos, que era como se fosse um antepassado dos atuais postos de fiscalização, já naquela época, como nos dias de hoje fazem os caminhoneiros, as tropeadas, a fim de burlarem a fiscalização, criavam caminhos alternativos.

IRATI se encontrava em uma rota alternativa, que vinda de União da Vitória desviava São Mateus, onde existia um desses postos de cobrança de tributos, passava por nossa cidade, seguindo até Palmeira retornando ao itinerário normal das Tropas. 

           Essa prática se repetia por todo o trajeto das tropas, que era pontilhado de barreiras do erário. Por isso, além do caminho costumeiro as tropas eram obrigadas a descobrirem alternativas menos onerosas, que foi o caso de IRATI, que mesmo não fazendo parte da rota principal, também era visitado por TROPAS e tropeiros solitários.

A noite pra fazer a ronda

Um deles é escalado

No passo, vai ao arroio

Que fica no fundo do campo

Num local bem afastado

Vai fazer a sua cama

Enrola-se no acolchoado

Estende o pelego na grama

E dorme a luz das estrelas

Com o corpo todo cansado

A noite pra fazer a ronda

     Mais de uma dezena de povoados paranaenses surgiram, inicialmente, como pousos de tropeiros. De inicio nem ao menos possuíam nomes, porém, mais tarde se transformaram em Vilas e grandes Cidades.

     Estes povoados iam aparecendo a distância de aproximadamente 30 quilômetros uns dos outros. Distância que era percorrida pelas tropas durante um dia de caminhada, quando eram obrigados a parar para dar descanso aos animais e buscar abrigo e alimentação para si próprios.

      Estes locais eram, normalmente, uma rústica pousada, ou barracas improvisadas feitas com tecidos de algodão, que, na maior parte das vezes, não impedia que as águas das chuvas molhasse seus ocupantes e tendo nas proximidades um potreiro, onde os animais eram soltos, e devidamente vigiados ao custo de 200 reis por cabeça.

      Os tropeiros costumavam trazer, no retorno de suas tropeadas, os gêneros de primeira necessidade que, por ventura, não existiam em suas localidades de origem, tais como: Sal, açúcar, farinhas, polvilho, rapadura, ferramentas e outras necessidades mais.

Levanta de madrugada

Almoça no romper da aurora

Monta o burro redomão

E vai chegando a espora

Viaja com sol a pino

Comendo o pó da estrada

Até chegar ao destino.

Levanta de madrugada

     IRATI, vista em fotos antigas ou em desenhos feitos pelos artistas Primo Araújo e Mestre Rosinha, mostram muito indícios da passagem de tropeiros pelas suas ruas e carreiros. Vindas da região de União da Vitória, as tropas entravam no Covalzinho por carreiros que seguiam o traçado onde hoje existe a Rua 19. Este carreiro seguia, descendo até onde hoje é a delegacia de polícia, local em que dava inicio a primeira e única rua da Vila, que, inicialmente se chamou Rua do Comércio, depois Rua Velha e hoje Rua XV de Julho. Esta rua ia somente da atual delegacia até o início da atual rua Conselheiro Zacarias, que dali em diante voltava a ser um carreador, que seguia em direção a Palmeira.

Irati antiga - Primo Araújo

     A Rua do Comércio, era ladeada por grandes valetas cortadas, de quando em quando, por pontilhões que serviam de acesso as residências da rua, tendo em locais estratégicos (frente de bodegas e armazéns, casas de coronéis e prédios públicos) palanques providos de argolões de metal que serviam para se prender as montarias dos habitantes da vila e dos tropeiros que circulavam pelo local.

E quando é tempo de chuva

Com a roupa encharcada

Chega no pouso com fome

não pode acender o fogo

Só acha lenha molhada

Dá uma saudade de casa

Que estrada! Que que nunca vi

Vai assobiando e pensando

Como é longe... Minha Irati

Desenho de Primo Araújo

     Outro indício da passagem das tropas pela nossa cidade, aparece em alguns dos artigos do nosso primeiro código de Posturas Municipais de 17.07.1907.

     No seu artigo 83, ele informa: É proibido galopar nas ruas da vila, salvo em caso urgente de socorro e moléstias.

     Artigo 84 – É proibido conduzir pelas ruas e praças, animais bravos e enloucados, a não ser a “cabo curto” (cabo curto significava com o cabresto ou o freio seguro)

     Artigo 85 – É proibido aos carroceiros e condutores de qualquer veículo trazer os animais a trote largo pelas ruas e praças.

     Artigo 85 – É proibido ter animais suínos, caprinos, langíneros e cães soltos nas ruas e praças da vila. Excetuam-se das disposições acima os cães de tropeiros ou viajeiros em transito pela vila.

     Artigo 86 – Qualquer das infrações acima serão punidas com a multa de 10$000 a 20$000 (deis a vinte mil reis) além das mais que incorrer pelos acidentes que dez causa.

     É pouco, ou quer mais...Todas essas normas já existiam em 17.07.1907, isto é, a apenas dois dias após a criação do nosso município.

Mas já disposto e animado

Prossegue em sua viagem

Porque o iratiense caboclo

Tem fibra e muita coragem

Em uma tarde bonita

Ao fim da viagem chegaram

Cansados, mas satisfeitos

Em fim a carga entregaram. 

Cansados mais satisfeitos

     Algumas historias típicas do tropeirismo são bastante interessantes e também curiosas, senão vejamos:

Cavalo Garrano

     Os tropeiros cavalgavam e utilizavam para o transporte de viveres e mercadorias as diversas raças de animais. Os mais comuns eram cavalos e mulas. No entanto uma delas aparece com mais freqüência nas páginas da historia das Tropas. Estou falando do Cavalo GARRANO, raça trazida para o Brasil pelos portugueses e espanhóis.

     O Garrano adaptou-se e reproduziu-se, com facilidade, em território brasileiro, trilhando desde vastos planaltos até altas serras. Galgando montes e descendo encostas, recostadas de coxias profundas, ao sol a pino ou com o soprar dos ventos, cruzaram nosso país de Norte a Sul. Sobre este grande animal temos, também, um pouco da sua historia. Conta-se que um peão, filho de negra, mulato das Campinas, viu-se em “palpos de aranha” ao tentar refrear um potro garrano, ao gosto crioulo: Ferido pelas esporas e com aquele peso intruso que o seu lombo nunca suportara, o GARRANO ora se dobrava, formando bossa de dromedário, ora se distendia em pulsos sucessivos e coices sem descanso. Carecia de grande perícia e não menor coragem quem se escanhasse sobre o seu dorso agitado. Para alexandrino, porém, aquilo parecia uma diversão: cara alegre, os dentes ferrados no lábio superior, ia saltando, com a montada, por todo o descampado e via-se que gostava fazendo sofre o potro, ao esporear-lhe profundamente o ventre até sangrar. Mas chegam outros tempos e ai o temos ao lado do homem, nos ranchos, no dia a dia da faina campeira, a lavrar a terra, a resgatar a rês perdida, a puxar carroça, a transportar nos alforges peles de vicunha, nos rodeios, nas tropeadas, nas carreiras de cancha reta, nas cavalhadas, nas feiras nos desfiles festivos e nas longas viagens.

 

Tropeiro do Paraná 

Tropeiro da banda do sul 

Volta feliz ao teu rancho 

com as bênçãos do céu azul. 


    Não deixou de ser GARRANO, o animal dócil e fervoroso que assumiu muitos nomes desde que para as américas: Kaitá para os índios pampas, saguá para os índios do noroeste argentino, Mesteño e mustang para os mexicanos e californianos, cimarrone para os guatemaltecos, salvadorenhos, nicaragüenses, costariquenhos, panamenses, bagual para os rio-platenses e pingo ou crioulo para os gaúchos sul-rio grandenses e tropeiros de todas as paragens. Por onde passou, desviando dos caminhos trágicos, da sede e da fome, das chicotadas sem dó ou da morte por cansaço, deixou estórias de assombrar, criou afetos, fez figura no cinema, inspirou provérbios e canções na cultura dos nossos tropeiros. Havia entre o GARRONO e o TROPEIRO verdadeiras relações sociais. Alguns faziam parte da família; outros eram amigos; os mais eram tratados como camaradas ou velhos conhecidos. Isso não era prosa, era assim mesmo. O tropeiro nunca abandonava o seu cavalo à sua própria sorte: Não passava ele por algum lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que se não apeasse, fosse com pressa socorre-lo. Sangrava-o se era preciso; cauterizava-lhe as feridas; e até quando o animal se não podia erguer, ele o arrastava para a sombra e ia buscar-lhe água no chapéu em falta de outra vasilha. Estes gestos comprovam a tendência do tropeiro para a ternura, alumiam uma das duas grandes paixões porque a outra foi sempre a dama que levou, de rota batida, na garupa do GARRANO. E essas vibrações íntimas acompanhavam o tropeirista até o fim de suas vidas, fazendo-o afirmar: “Estou velho, tive bom gosto. Morro quando Deus quiser. Duas penas levo comigo; Um bom cavalo e uma linda mulher.”

Um bom cavalo e uma linda mulher

      Falar de tropeadas e tropeiros, sem reverenciar o seu bem mais precioso o CAVALO, seria o mesmo que falar de família sem reverenciar o AMOR.

     Outra parte muito importante da historia das tropeadas, diz respeito ao palavreado típico da atividade:

     Segundo algumas informações que consegui colher, uma TROPA agrega diferentes elementos e atribuições que contribuem para o bom andamento dos trabalhos:

     Compõe a tropa o Capataz, o ponteiro, o fiador, o meieiro, o madrinheiro, o cozinheiro e os demais peões. As mulas que transportavam as cargas e aquelas chamadas de revezo, que substituíam as que iam cansando. As comidas mais usuais das tropas eram o arroz de carreteiro, o feijão tropeiro, o charque (carne que era trazida sobre o lombo do cavalo, debaixo do baixeiro e da sela, que amaciava e salgava com o suor do animal e que após enxaguada em água de rio era assada em fogo de chão) o café tropeiro (que se o pó na chaleira, acrescentava-se água fria e que um tição aceso, colocado dentro, fazia o líquido ferver tornando-se um rústico, porém, gostoso café), o Chimarrão e o tereré.

     Alguns outros elementos que sempre estavam presentes na lida dos tropeiros, eram os berrantes e guampas, o carroção, os animais selvagens, tipo o guacho, um passarinho que chupa laranja, o queixada (espécie de porco do mato), Ariranha (animal aquático), o lobo guará, a anta, a boleadeira e muitos outros apetrechos campeiros. Assim como o cavalo é parte integrante da vida do tropeiro, a Erva Mate, não deixa por menos.

Capataz, peões e berrantes

     

     São tantas as coisas que fazem parte do tropeirismo e nosso tempo é um pouco limitado, porém vou seguindo nestes relatos até onde meu horário permitir:

     À noite, quando o tropeiro acampava e a fogueira era acesa, além de uma boa música de viola ou violão, começavam a surgir os relados de causos e lendas. As mais conhecidas eram sobre Boitatás (bolas de fogo que apareciam em noites escuras), Mula sem Cabeça (o próprio nome já identifica o causo), os enterros, que não eram do tipo funeral e sim, panelas de ouro que eram enterradas nos campos por senhores abastados e avarentos. A denominação ENTERRO vem desta prática. A lenda diz que, próximo a esses locais de enterros, vagavam entidades assombradas a fim de protegerem o tesouro ali depositado).

ui...ui...uii.. Que medo!
 

Ui...ui...ui... que medo, minha gente! Mas era assim mesmo, meus amigos ouvintes. Muita poeira, muita saudade, muito cansaço, muitas histórias e muitos causos de arrepiar até o mais valente dos tropeiros.

Irati fez parte de toda esta belíssima história do tropeirismo do passado, depois veio o trem de ferro, os ônibus, os aviões e... sabe-se o que mais virá ainda para apagar definitivamente de nossas lembranças todo este romantismo dos bons tempos passados. Que fazer?

Até o próximo sábado quando aqui estarei novamente, trazendo-lhes mais um pouquinho da maravilhosa história da nossa terra e da nossa gente. Até lá.       

          

       

     

     

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