Matérias / Irati de Todos Nós

04/07/16 - 10h36 - atualizada em 05/07/16 às 12h57

Os homens do Covalzinho

Professor José Maria Grácia Araújo                         

Prezados e queridos ouvintes do meu programa IRATI DE TODOS NÓS, é com muita satisfação que lhes informo que meu programa desta tarde de sábado, dia 25 de junho de 2016, reveste-se de uma importância muito grande para mim, este humilde contador de histórias que neste momento lhes dirige a palavra.

Este o meu 500º programa desta maravilhosa série que já se estende por 13 anos, quase que ininterruptos. Motivo pelo qual lhes desejo fazer uma importante e apaixonada declaração de cidadão iratiense. AMO ESTE PEDACINHO DE CHÃO CARINHOSAMENTE CHAMADO DE IRATI – MEU RIO DE MEL.

RIO DE MEL - IRATI

O meu BOA TARDE a todos vocês ouvintes que me acompanham por alguns, ou por todos esses 13 anos, desejando-lhes muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

Todos se apaixonaram
Quinhentos programas. Nunca imaginei que teria tanto a contar sobre minha doce IRATI e que, tanto ainda resta a ser contado, que mais 1000 programas não me seriam suficientes para extinguir por completo tão grandiosa epopéia.

Daqui a 20 dias, em 15 de julho, estaremos comemorando mais um ano de existência do nosso RIO DE MEL – 109 anos de lutas.

Algumas derrotas e muitas vitórias. Algumas lágrimas e muitos sorrisos. Muitos se foram e muitos chegaram, mas todos se apaixonaram.

Virgilio Moreira


Virgilio Moreira, em certo momento chegou, se apaixonou e nos legou, inúmeros textos e poesias que nos comovem até os dias de hoje. Em sua homenagem, nesta primeira parte do meu programa, vou-lhes oferecer um destes maravilhosos relatos da autoria deste grande mestre das palavras adocicadas.


                             OS HOMENS DO COVALZINHO

O que os atraiu, o que os moveu a virem

De machado em punho, traçando as rotas do futuro

E rompendo o teto dos pinheirais

Num abrir incessante de clareiras

Onde a vida pulsava com mais seiva e plenitude

Foi o raciocínio bem humano que procurou

Do potencial que gera o conforto

A abastância e a felicidade.


Covózinho ou Covalzinho
Ermelino de Leão, em seu precioso Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná, assevera que após a declaração da guerra ao ditador do Paraguai, Francisco Soplano Lopez, os habitantes do litoral e dos arredores de Curitiba, temerosos do recrutamento que se operava em massa, para a Guarda Nacional e ás tropas de primeira linha, deslocaram-se, ás pressas, e, atravessando os Campos Gerais, internaram-se nos sertões do sul, em busca de tranquilidade; esta evasão deu origem ao nascimento de diversos povoados, entre os quais avultou-se o de COVOZINHO ou COVALZINHO, esguido *a raiz da Serra da Floresta, junto *as nascentes do RIO DAS ANTAS.

O que o notável historiador não disse, foi se colhera essa informação em uma fonte legítima, dos próprios fundadores da vila do Covalzinho, quando a visitou em começos de 1898, ou se a escutara de forma aleatória e descredenciada, atribuindo á aqueles que ignoraram o chamado imperial, a formação de todos os núcleos de povoação que, á aquele tempo, desabrocharam sob as florestas que iam do Graraúna ao Iguaçu.

Sono de heróis e de justos
Os elementos que se pode reunir, no intento de desvendar tal mistério, que apontassem os contornos que nos garantissem como genuína e livre de qualquer dúvida tal informação não foram devidamente confirmados levando-nos a concluir que: o historiógrafo, tomando a nuvem por tempestade, o que quase sempre ocorre, no desenrolar da história, acreditou que os pioneiros do Covalzinho integraram o grupo assustado dos aventureiros que, para livrar-se do fantasma das carabinas, rasgou o emaranhado das matas, e, cruzando rios e espigões, veio ter ás paragens que circundam a Serra da Esperança. Vamos, hoje, restabelecer a verdade e mostrar aos descendentes dos Pires, dos Pacíficos, dos Monteiros, dos Ribas, dos Pachecos, dos Grácias, dos Gomes, dos Morais, dos Calderaris, dos Benedictos, dos Andrades, dos Sabóias, dos Rochas, dos Lisboas, dos Xistos, e dos Vasconcellos, que esses autênticos e denodados semeadores de idéias podem fluir, eternamente, o sono dos heróis e dos justos, livres de mácula e do estígma de desertores do chamado da pátria. 

Milagre da multiplicação de lares
O que os atraiu, o que os moveu a virem, de machado em punho, traçando as rotas do futuro e rompendo o teto dos pinheirais, num abrir incessante de clareiras onde a vida pulsava com mais seiva e plenitude, foi o raciocínio bem humano que procurou, em todos os tempos, o meio propício ao desenvolvimento do potencial que gera o conforto, a bastança e a felicidade; o que os chamou de outras plagas, induzindo-os a perpetuarem o milagre da multiplicação dos lares, foi a voz longínqua do Nazareno que, alcançando-os no fragor da jornada, lhes determinou fossem, no sul do Paraná, os plantadores de povoados em sertões inexplorados, após o que seguir-se-ão o labor pacífico e a marcha de almas predestinadas.

Os trilhos da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, ao se afastarem de Ponta Grossa, demandando o vale do Rio do Peixe, juntaram, como era natural, à beira do longo eixo, os homens que mantinham, em estado latente, as legítimas qualidades de desbravadores, e que aliavam à rapidez da ação a férrea virtude da perseverança; formaram-se, destarde, ás margens do novo caminho que as foices e os machados punham á disposição das zonas incultas, as povoações e as vilas, onde se agitavam, sofregos e resolutos, os genuinos bandeirantes sulistas, que ao término do século XIX, demonstravam ainda, no ímpeto das sua aventuras, que provinham dos destemidos chefes sertanistas que se chamaram Francisco Pedroso Xavier – o capitão de Villa Rica -, Angelo Pedroso – o explorador do Tibagi -, Francisco Martins Lustosa e Cândido Xavier da Almeida e Souza -, os descobridores dos campos de Guarapuava, padre Francisco das Chagas Lima – o Anchieta do Atalaia – e Diogo Pinto Portugal – do povoador do terceiro planalto.

Taboas, vigas e pranchas
Abatendo as árvores, repartindo-as em táboas, vigas e pranchas, num vibrar contínuo de serras e machados, foram eles que substituíram a “taba” indígena pelo alviçareiro povoado, que já trazia no arcabouço a promessa cristalina de uma cidade ativa e venturosa. Donos da iniciativa e arquitetos de Municípios, eles tiveram a suprema lida de jogar a sementeira em chão fecundo e generoso, que nos devolveu a cem por um, no espelho da realidade, todos os sonhos de grandeza e todas as idéias que se escudaram nos princípios da fraternidade cristã.

E nós, os atuais e felizes herdeiros de terra tão opulenta, devemos de nos debruçar sobre as fontes donde borbotam os mais sadios exemplos de fé, as mais exuberantes tradições de nobreza, e, solvendo-as largamente, sentir em nossas veias e no sangue a força e o entusiasmo que nortearam os gigantes do nosso passado. Já é tempo de, em traços veementes, alargando o painel doado por nossos antepassados, tentarmos por no cimento da história os feitos patrióticos dos HOMENS E MULHERES DO COVALZINHO; feitos que traduzem sacrifícios, que condensam amarguras, que encarnam lutas e que, ás vezes, custaram sangue e lágrimas!

O nosso valor, em lh’os restituindo inteiros, sem que nenhuma sombra reste ou perdure, nos fará dignos de nós mesmos e da posteridade que nos espreita, para o soberano julgamento que será de glória ou de condenação.

Os que cavaram ois alicerces do Irati do passado, aguardam, na mudez dos seus túmulos, o nosso gesto marcante e decisivo: sejamos, portanto, diligentes e assíduos, no imitá-los e no engrandecê-los.

Homens e mulheres do Covalzinho

Neste próximo 15 de julho, como uma sugestão deste meu programa IRATI DE TODOS NÓS e dessa conceituada emissora RADIO NAJUÁ, muito bem, poderíamos nos programar a todos, para oferecermos, em praça pública, uma justa homenagem, aos HOMENS E AS MULHERES que nos legaram o primeiro chão COVALZINHO e o abasteceram com sementes férteis, produzindo, então, este nosso CAUDALOSO RIO DE MEL que, honrosamente chamamos de IRATI.

Quando conheci Iraty

Iraty era pequeno

Tinha só a rua da instação

Contando isso mai o meno

Que chamavam Covarzinho

Dispois ele foi crescendo

Quando falam em Iraty

Ele sempre fais outra figura

Porque é uma terra bençoada

Que todo mundo percura

Muita gente vem prá cá

Pra ganhá uma otra artura

Há muito tempo já existe uma arte e uma literatura puramente iratiense. Suas raizes remontam aos primórdios da vida da vila e tem se manifestado em suas multiplas variedades, desde a mais elementar e mais autêntica, literatura chamada de cordel, na qual os sentimentos se manifestam destituidos de qualquer atributo cultural, na plenitude de sua pureza telúrica e humana, em que os sentimentos afloram por simples embevecimento, como é o caso da poética e singela trova que acabo de lhes apresentar, presados ouvintes.

Criada pelo “menestreu” da Vila São João, que arrastava com sua viola e suas décimas uma tradição de tempos imemoriais, até aquela literatura amadurecida através de estudos e que se manifesta como reflexo de uma inteligência criativa como desdobramento da própria dinâmica da vida, que projeta além do concreto, do real, as implicações do imaginário

Juvenal (Mole) Ferreira de Camargo
Nosso mundo tá virado

Logo ninguém se batisa

Quando pai raia com o fio

O fio já se ingirisa

E logo ele diz pro véio

Vão se saiba onde pisa

Nos domingo im veis de i na igreja

Vão nas bodeha bate cachola

Uns tocando gaita, bebendo pinga

Otros tocando viola

E quando encontra cum cego

Se defende de dá esmóla.

Juvenal Mole – o Mernetrel da Vila. 

Braulio Zarpellon
No caso do romance, do conto, da poesia iratiense, existe uma evidente ambição criadora, que transcende o meramente ocasional, e a atividade passa a requerer aparatos de auto crítica, noções de estética atualizadas, além de competência a todas prova. É esse ocaso do nosso escritor criolo Bráulio Zarpellon, completamente segregado dos meios culturais do Estado e do País, que realizou nos seus contos e romances, a tranquilidade de um convívio, onde os personagens se movimentam e compõem um mundo vivo manipulado pelo escritor, somente conhecido por sua arte de alguns poucos amigos.

No romance intitulado “Torvelinho” de sua autoria, Nair, Adélia, Celeste, o estudante Paulo, são nomes com os quais o leitor passa a conviver também depois da leitura de seu livro, acumulando em centenas de páginas grandes emoções.

O que admira no romance inédito de Braulio Zarpellon, é a plasticidade dos diálogos, que nos restituem uma fala particular aprendida por nós em nossa própria infância. Com Torvelinio, fica estabelecida a realidade de um conceito que se aplica a Irati, e encoraja aqueles de veem nas artes um desafio ás suas inteligências criadoras. 

Esta mesma experiência, circunscrita ao conto, nota-se também em José Maria Orreda. Sua face, entretanto, na busca que vai desde o exercício verbal, até a captação instantânea de um flagrante da realidade que, de súbito, nos coloca diante de um impacto e de um espanto, derivador de uma técnica, muito próxima do realismo mágico.

Olga Grechinski Zeni
José Maria Orreda

José Maria Orreda realizou uma importante obra em suas múltiplas atividades. Este seu trabalho deveria ser anotado em todas as suas manifestações, em todas as suas fases de experiência e progresso, para ficar como documento de uma sociologia do ensino. Seria uma contribuição aos outros municípios do País. Os jogos Desportivos Socio-Culturais, o Jornal o Debate, foram criações de sua vasta inteligência. 

A Senhora Olga Gryczynski Zeni realiza poesia dentro de um critério estritamente moderno, restaurada pelo surrealismo com as experiências mais eminentes em todo mundo, desde Breton, Tristan, Tzara, Eluard, até os nossos mais eminentes poetas brasileiros. Realmente, o exercício de auto conhecimento, a relação entre o real e o imaginário, de cuja conciliação depende o equilíbrio, é uma prática que encontra na palavra e sua referência ideal. Em Dona Olga o sentido da poesia adquire, cada vez mais, função psicológica reguladora da ordem individual, na medida em que se circunscreva as realidades pessoais, particulares. Realidades do poeta, realidade do seu povo, até universalizar-se e servir de documento histórico da humanidade. 

O sr. Antonio Lopes Júnior foi autor de poemas cheios de sabedoria. Maria Luiza Hessel foi autora, também, de alguns poemas de uma riquissima vocação para e poesia. Sr. Miceslau Hessel, também, poeta deixou apreciável coleção de poemas inéditos. O exercício da poesia disciplina a sensibilidade, a inteligência, estabelece padrão de cultura, dignifica a sociedade.

Oscar Leandro
No teatro a atuação do sr. Oscar Leandro á frente de um grupo de artistas amadores reacendeu os melhores entusiasmos vividos já pelas vocações cênicas iratienses.O sr. Oscar Leandro iniciou sua atividade em Guamirim, interior do nosso município, transferindo-se depois para a cidade e a seguir para Maringá, onde dirigiu grupos amadores. Foi autor de diversas peças entre dramas e comédias.

Em Irati, além, desta floração, que foi prenuncio de efervescências culturais, existiu a militância quase silenciosa da pintura, que oscilou entre dois polos distintos mas reveladores de individualidades artisticas poderosas. O sr. Dario Araújo (Primo) enriqueceu o patrimônio municipal com tal versatilidade que surpreendeu a todos vê-lo resolver em plena mocidade, lá pelos idos da década de 20 do século passado, a carência de cliches para a imprensa nascente local com trabalhos de xilogravura onde se distinguiram as figuras dos, então jovens, João Wasilewski, Antônio Xavier da Silveira, Gumercindo Esculápio, todos ilustrando as páginas do famoso jornal O ESPALHA BRASA. 

A capacidade criadora do sr. Dario Araujo não se confinou às exigências do dito jornal, mas desenvolveu-se na confecção de desenhos de propaganda – uma das fases da nossa cidade é reconhecida através de seus traços – e, sobretudo, na pintura, onde, em algumas telas de grandes dimensões, ele captou aquela beleza clássica das figuras biblicas, a tranquilidade de semblantes, os coloridos repousantes de paisagens, numa esplêndida sinfonia de inteligência e gosto depurados que, na verdade, caracterizaram a sua grande obra.

José Siqueira Rosas (Rosinha)
Sobre o sr. José Siqueira Rosas, os dois paineis que enfeitaram o salão nobre da Prefeitura de Irati em tempos passados, foram testemunhas eloquentes de sua capacidade criadora. Os dois paineis representam o coroamento de uma carreira toda ela dedicada ao estudo da pintura numa atividade ininterrupta de mais de trinta anos, durante os quais a pesquisa para o conhecimento das linhas, dos tons, das luzes e sombras, alem de noções geométricas dos planos e profundidades, tão nitidas em sua obra, foram o esforço constante do artista Siqueira Rosas.

Iraty, olha o pastel!

milho verde, jabuticaba, pinhão,

moranguinho e doce de mel.

Bolinho de carne, banana, cocada, café com mortandela no pão.

Batelata espera as malas na estação.

O trem apita na curva do Varela.

Sopa no Hotel Veiga à luz de vela

Mocinhas irão à novena na capela da estação,

Cangica dos monjolos do Iraty-Velho

Na luz do lapião.

E assim foi o meu Irati do passado. Esta muito diferente no presente e, como o será no futuro? Quem sabe?

Quem sabe

Obs. Quadros e desenhos do artista Primo Araújo.

Covalzinho antes, Irati, com “Y” depois e, agora Irati, com “i”. Não importa, cada um deles sempre necessitou do amor de seus habitantes, não será agora, em pleno século XXI que esse amor possa ser desprezado. HOMENS, MULHERES, CRIANÇAS OU ADOLESCENTES, amem IRATI o nosso caudaloso e adocicado RIO DE MEL. Até o próximo sábado que, com certeza aqui estarei novamente para oferecer-lhes um pouquinho mais da história da nossa terra e da nossa gente. Até lá.

 


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