Opinião / Notícias

17/08/15 - 13h35 - atualizada em 17/08/15 às 18h29

O que pedir no manifesto?

Não vemos cartazes pedindo reforma política, tributária e trabalhista
Jussara Harmuch


Manifestação deste domingo em Irati
Você que faz parte dos mais de 51,64% de brasileiros que votaram neste governo, está nas ruas porque é contra o PT, contra o governo da presidente Dilma, ou contra o que ela disse que ia fazer antes das eleições e o que está sendo obrigada a fazer agora?

No campo político, parece que o Brasil é o país dos terços. Um terço apoia o PT, outro é oposição e outro vai conforme a onda. Com a crise vivida na atual administração, o terço petista parece estar dividido entre uma metade fervorosa de militantes que não arreda o pé, aconteça o que for, e outra que discorda da maneira como vem sendo conduzida a política econômica, principalmente.

Não é preciso dizer que a situação se agrava à medida que o bolso do povo esvazia. Quem gosta de perder o emprego e ainda ter de sujeitar a um endurecimento das regras para pleitear o seguro? Os que tinham facilidade de crédito para aquisição de moradia e compra de eletrodomésticos ficaram endividados e as prestações com juros mais altos. Pagamos mais caro pela energia e gasolina, cujo preço foi represado por mera estratégia eleitoreira.

A corrupção, que sempre assolou o país, talvez não fosse suficiente para, sozinha, desencadear uma revolta popular. De barriga cheia e com um pouco de divertimento, vai se levando. Acostumados com o quase tudo “acaba em pizza”, a população acaba assimilando os escândalos como parte do processo. Mas é verdade que muitas faixas foram vistas nas manifestações deste domingo (16) com apoio ao juiz Sérgio Moro que conduz a operação Lava Jato. Passada a atuação do Ministro Joaquim Barbosa no Mensalão, Moro caiu nas graças do povo como o salvador da pátria. As prisões de gente da classe alta, empresários e dirigentes partidários, fazem o povo acreditar que algo está sendo feito para combater. Falta investigar ainda a classe política envolvida no esquema que detém foro privilegiado, como os presidentes do Senado, Renan Calheiros e da Câmara, Eduardo Cunha, ambos PMDB, citados no processo.

Os cartazes erguidos durante os protestos pedem o fim da corrupção e culpam a administração de Dilma pela crise econômica. Mas não vemos apoio e nem palavras de ordem em direção de uma reforma política ampla e direcionada a inibir distorções na esfera representativa com a eleição de políticos que não obtiveram legitimidade nas urnas e moralizadoras no sentido de proibir doações de campanha por empresas. Também não vemos cartazes pedindo reforma tributária para descentralizar a arrecadação, dando melhor condições aos municípios de administrar sem precisar mendigar emendas com parlamentares em troca de apoios políticos. Reforma trabalhista, código civil, nada disso consta na pauta das grandes massas.

Abaixo, cito parte de dois textos de opinião publicados na edição da Gazeta do Povo de hoje, 17:

Renúncia é a melhor opção, por Mário Sérgio Lepre, cientista político

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É triste constatar que ainda faltam três longos anos para um governo que há pouco começou. Como encarar esse grande impasse? Infelizmente não há atores políticos no Brasil com credibilidade para sustentar uma repactuação política.
O maior problema que temos diante de nossos olhos é um modelo político ultrapassado que está sendo colocado em xeque sem que tenhamos claramente o que colocar no lugar. Esse problema é muito sério. Há uma sociedade que não suporta mais pagar a conta de um Estado enorme, custoso, ineficiente e injusto. Sim, é injusto porque temos privilegiados, temos aqueles que se apropriam do público em benefício particular desfigurando a República.
É contra isso que muitos vão às ruas. Há uma insatisfação generalizada com a corrupção, com os privilégios, com a impunidade e com o modus operandi da política brasileira. Pior para o PT, que teve 12 anos para alterar um modelo político velho e não o fez por oportunismo.
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Aristocracia, plutocracia, demagogia ou democracia. O que escolheremos?
, por Emerson Cervi, Cientista político e professor da UFPR

O movimento de ontem teve como novidade a organização mais estruturada e próxima a partidos de oposição, portanto, menos espontânea. Houve até carro de som com chamada para as passeatas nos dias que antecederam o domingo. A redução no volume de participantes mostra um descrédito aos atuais atores da cena política - não desmobilização. Estamos aprendendo a não ser usados para fins particularistas. A sociedade brasileira parece separar os próprios interesses dos interesses de grupos políticos.

Para mim, o Fora Dilma é só um meio para o Fora PT, o fim principal dos manifestantes. Mas, se o PT foi eleito democraticamente, de onde vem tanta oposição? Das escolhas do próprio PT, que nunca teve grande preferência. Em 2002 o PT venceu a eleição em uma conjugação de fatores que incluíram o carisma de Lula, a rejeição ao PSDB depois de repetidas denúncias de corrupção não investigada nos governos FHC e, principalmente, uma aliança do partido com a classe média urbana. Depois disso o PT resolveu abrir mão da classe média urbana. Achou que poderia governar apenas com as classes subalternas urbanas. A consequência foi jogar a classe média urbana no colo do conservadorismo de direita, abrindo espaço para a difusão do discurso obtuso e moralista até então limitado a segmentos pouco relevantes da sociedade. O resultado é o que estamos experimentando agora.

Nossas manifestações também podem ser um terreno fértil para o surgimento de lideranças demagogas, que não falam com o povo, nem a favor do povo. Se colocam como o próprio povo. Ou as manifestações podem fortalecer nossas instituições políticas, reduzindo a dependência a figuras populares, carismáticas ou heróis nacionais construídos artificialmente. Cabe a nós a escolha.

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