Futebol / Esportes

12/03/12 - 15h43 - atualizada em 12/03/12 às 15h46

Teixeira anuncia saída definitiva da CBF, culpa saúde e lamenta: 'foi subvalorizado nas vitórias'

Vinícius Konchinski e Ricardo Perrone/ Uol Esporte


José Maria Marin nem bem se apresentou como novo presidente da CBF nesta segunda-feira e já anunciou uma bomba: a renúncia definitiva de Ricardo Teixeira. Poucos dias após pedir licença médica do comando da entidade alegando problemas de saúde, o mandatário abriu mão definitivamente do cargo. O cartola também deixa o Comitê Organizador Local da Copa de 2014, igualmente assumido por Marin.

NÚMEROS DE TEIXEIRA

23 anos à frente da CBF
 2 títulos de Copas do Mundo
 5 títulos de Copa América
12 técnicos passaram pela seleção nesses 23 anos
3,8 milhões de reais recebeu a filha de Teixeira em escândalo do amistoso da seleção contra Portugual

Teixeira enviou uma carta de renúncia a Marin, que a leu nesta manhã, durante evento realizado na sede da CBF. “Eu, hoje, deixo definitivamente a presidência da CBF”, disse um trecho da carta lida pelo novo presidente e assinada por Teixeira.

No extenso texto lido por Marin, o ex-mandatário atribui sua saída aos problemas de saúde, mas faz questão de reclamar das críticas que recebeu ao longo de seus 23 anos à frente da principal entidade do futebol brasileiro.

"Futebol em nosso país é associado a duas imagens: talento e desorganização. Quando ganhamos, despertou o talento. Quando perdemos, imperou a desorganização. Fiz o que estava ao meu alcance. Renunciei à saúde. Fui criticado nas derrotas e subvalorizado nas vitórias", escreveu Teixeira.

Na entrevista que se seguiu à leitura da carta, José Maria Marin fez questão de destacar que seguirá a linha de Ricardo Teixeira à frente da CBF, disse que a entidade não passará por grandes mudanças e salientou que ficará no cargo até o final de 2014.

"Devo cumprir o mandato até o fim. A minha nomeação faz parte de uma administração contínua. Portanto, vou ficar até o final, como estava combinado".

Fim de uma era

Ricardo Teixeira deixa o comando da CBF após 23 anos na presidência da entidade


O longo período em que Teixeira esteve à frente da entidade e a série de denúncias de corrupção corroeram a imagem pública de principal cartola do futebol brasileiro. No ano passado houve passeatas pelo país pedindo a saída do então dirigente.

Sua situação à frente do comando do futebol brasileiro já estava insustentável. Teixeira enfrenta acusações de superfaturamento no amistoso entre Brasil e Portugal, em 2008. A Polícia Civil encontrou cheques entregues por uma sócia a Ricardo Teixeira. O amistoso custou mais de R$ 8 milhões aos cofres públicos.
O escândalo, aliás, foi apresentado pela Rede Globo, vista por Teixeira como uma aliada. O Jornal Nacional dedicou 3 minutos no ano passado para exibir a relação suspeita do então dirigente com a empresa Ailanto. Documentos apontam que uma empresa pertencente à Ailanto tinha sede em uma residência de Teixeira.

Teixeira deu os primeiros sinais de que sairia no final do ano passado, ao se queixar com amigos de cansaço. Dizia estar de “saco cheio” da série de denúncias contra ele divulgadas pela imprensa. A saída teria como principal objetivo preservar sua família do desgaste. No entanto, a renúncia não acaba com os problemas. Várias ações na Justiça suíça tentam a liberação de documentos que comprovariam que o brasileiro recebeu suborno da empresa ISL. Depois teria feito acordo judicial para devolver a quantia.

A saída do cartola, que ficaria no poder até 2015, em tese, não afeta a realização da Copa do Mundo no país. As principais decisões já estão tomadas e sua presença no comando do mundial não era bem aceita por Dilma Rousseff.

Após resistir a duas CPIs e a um incontável número de denúncias, o ex-genro de João Havelange sai de cena depois de transformar a seleção numa máquina de fazer dinheiro para a confederação e amigos do presidente. Vendas de ingressos, pacotes para jogos da seleção, direito de organizar amistosos, praticamente tudo ficou na mão de gente amiga de Teixeira. Sob sua batuta, a seleção ganhou dois títulos mundiais e se tornou trunfo político. Camisas do time nacional e o direito de receber jogos da equipe se viraram moedas de troca em alianças políticas. A rede de amizades em todas as esferas do poder, menos na atual presidência da República, porém, foi insuficiente para evitar a saída melancólica.

POLÊMICAS E ACUSAÇÕES CONTRA RICARDO TEIXEIRA

"Voo da muamba" de 1994

Em julho de 1994, quando o Brasil ganhou a Copa nos Estados Unidos, jogadores, comissão técnica e convidados da CBF desembarcaram no Rio de Janeiro com 17 toneladas de material, em um voo com cem passageiros. Teixeira foi acusado de pressionar o auditor fiscal da Receita Ferderal do aeroporto internacional do Rio para liberar o material trazido sem inspeção, caso contrário a Seleção não desfilaria em carro aberto. Quinze anos depois, em julho de 2009, a juíza Lilea Pires de Medeiros, da 22ª Vara Federal, determinou a suspensão dos diretos políticos de Teixeira pelo episódio que ficou conhecido no Brasil como "voo da muamba". Condenado por improbidade administrativa, ele foi proibido de realizar contratos com o poder público. Em junho do ano passado, os advogados de Teixeira derrubaram a condenação no Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

Máquinas de chope   

O episódio do "voo da muamba" deu origem a outro conflito entre Teixeira e a Receita Federal em 1995. Na bagagem do presidente da CBF estariam equipamentos de refrigeração de chope para bares, que permitem que os clientes se sirvam de cerveja gelada na própria mesa. O equipamento foi instalado no bar El Turf, do qual Ricardo Teixeira foi sócio, no Jockey Club do Brasil. Após a investigação, que envolveu até mesmo auditores disfarçados de apostadores de cavalos para acompanhar a instalação do sistema no bar, a Receita disse que o equipamento de origem neozelandesa entrou ilegalmente no país. A Justiça chegou a rejeitar a denúncia de Teixeira, que alegava que o equipamento entrou no país legalmente em 1995. O dirigente processou a Receita por danos morais, mas perdeu. Os equipamentos de refrigeração de chope ainda estão sendo disputados na Justiça, já que a Receita não desistiu do processo.

Ingressos para a Copa de 2006  

Em 2006, a Justiça do Rio recebeu uma denúncia do Ministério Público contra Ricardo Teixeira e o proprietário de uma empresa de turismo, por crimes contra a ordem econômica. A empresa Planeta Brasil foi a única autorizada pela CBF a receber e revender ingressos da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. A promotora autora da denúncia disse que a empresa de turismo reajustou os preços e condicionou a venda dos ingressos a pacotes turísticos. Teixeira foi ouvido em uma audiência da Justiça em agosto de 2006. Ele negou irregularidades e disse que mais de 800 agências de turismo estavam cadastradas junto à Planeta Brasil. Nem o presidente da CBF, nem a empresa foram condenados.

CPI do futebol de 2001   

Durante 14 meses, a CBF foi alvo de um inquérito parlamentar. O relatório produzido pela CPI sugere investigações mais profundas e indiciamento de diversas pessoas. Ricardo Teixeira era o principal foco das investigações. Ele é citado por desvio de recursos através de empréstimos junto ao banco Delta Bank, na realização do Mundial de Clubes da Fifa de 2000, que foi sediado no Brasil, e em operações com a agência de turismo SBTR. Ele também foi citado por evasão de divisas na Copa Ouro de 1998 e na compra de uma casa em Búzios, além de crimes de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. O presidente da CBF defendeu-se das acusações dizendo que nunca foi provado que qualquer dinheiro público foi parar em suas contas pessoais. Em julho de 2006, a 6ª Vara Criminal do Rio aceitou denúncia contra Teixeira por evasão de divisas com base no relatório da CPI. A CBF tomou empréstimos do Delta Banks com juros muito acima dos praticados pelo mercado, levantando suspeitas de que pessoas físicas tenham sido favorecidas no negócio.

Fifa e ISL   

Em novembro de 2010, o programa Panorama da BBC acusou Ricardo Teixeira de ter recebido propinas da empresa esportiva ISL. Em maio de 2011, o Panorama afirmou que o dirigente brasileiro teria sido condenado pela Justiça suíça a devolver o dinheiro da propina. A Fifa estaria impedindo a divulgação de um documento que revelaria que Teixeira e João Havelange foram condenados na Suíça. Ricardo Teixeira negou as acusações e processou o jornalista da BBC Andrew Jennings na Justiça brasileira, depois de declarações de Jennings ao blog do deputado Romário (PSB-RJ).

Venda de voto na Fifa   

Em maio de 2011, o ex-presidente da federação inglesa de futebol David Triesman disse em um inquérito do governo britânico que Ricardo Teixeira teria pedido propina em troca de apoio à candidatura da Inglaterra para sediar a Copa de 2018. A Inglaterra perdeu a disputa para a Rússia. Segundo o dirigente inglês, Ricardo Teixeira teria dito a ele: "Venha e me diga o que você tem para mim". Triesman entende que Teixeira estava pedindo algo em retorno pelo seu voto. Uma investigação da Fifa inocentou o brasileiro. Teixeira chegou a dizer que processaria o inglês, mas desistiu.

Amistoso Brasil x Portugal   

Em 2008, Brasil e Portugal jogaram um amistoso em Brasília. O jogo foi bancado com R$ 8,5 milhões de dinheiro público. A Polícia Civil de Brasília investiga se houve superfaturamento da empresa Ailanto. A polícia descobriu cheques de uma das sócias da empresa, Vanessa Precht, a Ricardo Teixeira, pelo arrendamento de uma fazenda em Piraí (RJ). Os pagamentos mensais de R$ 10 mil de Vanessa a Teixeira começaram em março de 2009, quatro meses depois do amistoso. Outro sócio da empresa Ailanto é o presidente do Barcelona, Sandro Rosell, amigo de Teixeira. Antes de a polícia achar os cheques, Ricardo Teixeira vinha negando qualquer vínculo com a Ailanto.


Comentários

Enquete

O Imposto sobre Valor Agregado (IVA) deve ser a base da Reforma Tributária?

  • Não
  • Sim
Resultados