Matérias / Irati de Todos Nós

21/03/13 - 14h24 - atualizada em 21/03/13 às 17h22

A felicidade não faz aniversário - parte II

José Maria Gracia Araújo
               

Segundo histórias repassadas de pai para filho, tudo começou quando alguns jovens índios vinham para Morretes vender seus produtos agrícolas, e lhes era servido, em uma grande panela, um delicioso cozido de carnes.

Foi desta forma que os habitantes do litoral tornaram popular este prato que é o BARREADO. 

O MEU BOA TARDE A TODOS, COM MUITO CARINHO, AMOR E SINCEROS AGRADECIMENTOS POR TE-LOS COMO OUVINTES DO MEU PROGRAMA.

Na semana que passou, eu estava lhes relatando o passeio do qual eu participei, juntamente com um maravilhoso grupo de adolescentes da terceira idade, da nossa cidade. Interrompi minha explanação justo no momento em nos preparávamos para saborear o prato mais popular do nosso litoral; O BARREADO.

Confortavelmente instalados na ampla varanda, de um dos mais freqüentados restaurantes da velha e romântica Marretes. Deslumbrados com a vista que nos descortinava toda a beleza das corredeiras do Rio Nhundiaquara, fomos lautamente servidos com iguarias típicas daquele paraíso. Frutos do mar, bolinhos de peixe e camarão, Pirões e saladas tropicais, tudo servido como meros coadjuvantes do prato principal, o BARREDO litorâneo. 


Satisfeitos, porem, um tanto quanto, preguiçosos e sonolentos, fomos convidados á nos dirigir a praça de onde, nossas “vans” nos conduziriam ao nosso próximo destino: ANTONINA.

Em pouco menos de meia hora, entramos na bela e antiga Freguesia de Nossa Senhora do Pilar da Graciosa que, em 29 de agosto de 1797, foi então elevada a categoria de vila com seu nome definitivo de ANTONINA. Segundo, nos conta a história, esta denominação é devida a uma homenagem feita ao então, príncipe da Beira, D. Antonio, filho de D. João e Dna. Carlota Joaquina. Um outro fato curioso sobre a localidade é que, devido à uma referência a capela de Nossa Senhora do Pilar, ali construída no ano de 1714, todo o cidadão nascido em Antonina e conhecido como “capelista”.

São os sambaquis, as primeiras referências humanas da ocupação da região de Antonina. Conta-se que alguns grupos indígenas nômades, deslocando-se do planalto para o litoral, praticavam a pesca e a coleta de marisco, para a sua subsistência, durante os meses mais frios do ano.

A colonização européia iniciou, somente, por volta da metade do século 17, ocasião em que Antonio Leão, Pedro de Uzeda e Manoel Duarte foram agraciados com três sesmarias no litoral paranaense. 

Em 27 de fevereiro de 1761 foi que, então, a antiga povoação foi elevada à categoria de freguesia, e recebeu a denominação de Nossa Senhora do Pilar da Graciosa e logo a seguir, já com 2.300 habitantes, foi elevada à Vila. Sua mais prospera fase de desenvolvimento aconteceu no principio do século 20, durante o ciclo da erva-mate, ocasião em que seu porto foi considerado o quarto mais importante do país em volume de cargas embarcadas. Porém, durante a Segunda Guerra Mundial, perdeu sua primazia para o porto de Paranaguá. Hoje o município utiliza-se de novas alternativas para seu desenvolvimento, investindo no potencial da sua agricultura e da sua vocação turística. 

No artesanato, Antonina se destaca em trabalhos executados com madeiras regionais, colhidas em suas matas. Móveis, esculturas, réplicas de embarcações e animais silvestres, são os temas mais empregados em seu artesanato.
 


Antonina possui, também, muitos recantos lendários, destacando-se dentre eles: A Igreja do Bom Jesus do Saivá, construída entre 1789 e 1817, ocasião em que Manoel José Alves, proprietário da Fazenda Saivá e sua esposa, D. Serafina que estava bastante doente, fizeram a promessa de edificar uma capela em homenagem ao Senhor Bom Jesus, caso ela se curasse. Esta capela fica na Praça Carlos Cavalcanti, local visitado por nosso grupo de passeio. 

Outro exemplar histórico/religioso de Antonina é a Igreja de São Benedito que, no passado, serviu como abrigo e refugio religioso para muitos escravos. Conta-se que eles tinham São Benedito como seu protetor contra a perseguição dos seus senhores. Ela esta localizada na Rua Dr. Carlos Gomes.

A Fonte da Carioca, construída em 1867, outro ponto turístico da velha e aprazível Antonina, construída em 1867 e que foi, até os anos 30, o principal ponto de abastecimento de água da população “capelista” da época. Neste local, até mesmo o Imperador D. Pedro II, serviu-se de suas águas durante suas visitas a cidade. Seus habitantes mais antigos dizem que ela possui o poder de fazer, aquele que toma de suas águas, voltar sempre a Antonina. Ela, também, está localizada na Rua Dr. Carlos Gomes.


No que diz respeito à hábitos e costumes, Antonia também é detentora de alguns exemplos curiosamente marcantes. É o caso da sua: PINGA COM COBRA.

Corredeira acima, do Rio dos Nunes, me informaram que, pode-se encontrar um senhor de nome Cláudio, dono de um dos bares de barranca de rio, que prepara uma curiosa mistura de pinga com cobra. Podem acreditar, caros ouvintes. Cobra mesmo, e daquelas bem venenosas, por sinal.

O segredo do preparo desta inédita bebida anfíbia é o de cortar a peçonhenta um palmo para baixo da cabeça e um palmo para cima do rabo, isso, segundo seu Cláudio, evita a contaminação da mistura com o poderoso veneno de uma jararaca ou jararacuçu. 

Feita a amputação, coloca-se o restante o anfíbio em uma garrafa grande e se preenche o restante do recipiente com pinga produzida na própria região. A crença, entre os habitantes locais é que, logo após ingerir o preparado, todos ficam com os “zóio nas muié dos outro”. Isso acontece devido ao poder afrodisíaco de aumento das necessidades sexuais de todos aqueles que ingerem a milagrosa mistura do seu Cláudio. Outros, no entanto, afirmam que a pinga desperta o interesse das mulheres pelo homem que a bebe e que ela serve, também, para avaliar a masculinidade dos freqüentadores do bar. 

Quem bebe da mistura é tido como corajoso e quem não bebe, o bicho pega. É comum acontecer do valentão que ingere um ou mais copos de pinga com cobra, afirmar: “Tudo aquilo que antes me assustava, agora trabalha a meu favor” e ali mesmo, no bar, ele se vangloria da sua vitória. Eita, cabra macho, sêo! 

Além de todos os atrativos históricos, culturais e turísticos que já enumerei, Antonina oferece ainda, a seus visitantes, inúmeras Festas Populares de médio e grande porte, dentre as quais se destacam: 

- Festa de Nossa Senhora do Pilar

Esta festa, provavelmente, teve se início durante o século 18, ocasião em que duas irmãs de nomes Maria e Tereza, passaram a rezar o terço em louvor à Nossa Senhora do Pilar, atraindo com isso, inúmeros mineiros, faiscadores e lavradores de toda a região. Desde então, todo dia 15 do mês de agosto, a população local, homenageia a santa com muita iluminação e tiros para o alto.



Um fazendeiro muito rico, conhecido como Valle Porto, se motivou tanto com a devoção da população a ponto de se dispor a financiar uma capela para o culto da Virgem do Pilar. Com o tempo a festa cresceu e hoje reúne fieis de todas as regiões do Paraná e do Brasil para participar da festa que se desenvolve seguido o seguinte ritual:

Bem antes da chegada do mês de agosto os “capelistas” já se preparavam, mandando fazer roupas novas, pintando suas casas e preparando-as para abrigar parentes e conhecidos de fora.

No dia 15, bem cedo, saem de suas casas carregando cestos a balaios repletos de aipim, banana, farinha, biju e outros produtos da terra, a fim de serem divididos entre os visitantes, compadres e conhecidos. 

A festa começava bem cedo e os que chegavam de fora iam soltando foguetes para anunciar sua chegada e os moradores locais iam, então, correndo para a barranca do rio para apreciar a chegada das canoas e barcos trazendo os visitantes. A missa era cantada e celebrada pelos vigários de Antonina e Morretes e a procissão em homenagem a padroeira percorria as ruas da vila animada pelo som da “BANDA Euterpina” de Morretes, da “Banda dos Operários” de Paranaguá e da “Banda Musical de Antonina”. A partir dos anos 30 as comemorações cresceram ainda mais, surgindo, então, o costume do uso dos painéis, com imagens de santos e que eram queimados tão logo a festa se encerrava. Nos postes eram penduradas bandeirinhas azuis e brancas (cores do município de Antonina). A missa solene acontecia às 11 horas e no inicio da tarde ocorriam dezenas de batizados seguidos do leilão de prendas oferecidas pelas famílias “capelistas”. 

Antonina possui inúmeras festas populares, dentre as quais a de N.S. do Pilar, que já descrevi, a festa do “Boi do Norte” e a festa dos “Apinagés”, no entanto é o seu Carnaval que é tido como a mais animada e autêntica festa de todo o Paraná. Sua história remonta ao final do século 19, quando as primeiras iniciativas de se sair a rua portando fantasias eram praticadas por homens e mulheres locais. Alguns pintavam bigodes, utilizando-se de graxa, barro e banha, tingidos com carvão de fundo de panela. Aqueles que se esquivavam das brincadeiras eram atingidos por baldes e canecadas de água do mar. Os visitantes eram recebidos com uma farta mesa de barreado acompanhado por banana da terra, preparado já ao início da festa. 


Nos anos 40, começaram a aparecer as escolas de samba de Antonina, isso quando um grupo de jovens iniciou este tipo de atividade carnavalesca. O primeiro bloco a aparecer foi “Os Filhos da Capela”. Em 1947 foi fundada a Escola de Samba do Batel, que se apresentava com calças brancas e camisas vermelhas. A seguir, foram surgindo outras tantas agremiações, como: “Os Batuqueiros do Samba”, A “Escola de Samba do Portinho”, a “Escola de Samba seis de Novembro”, “Os brejeiros do Amor”, “O império da Caixa D’Água”, “Unidos da Canoa”, “Matarazzo”, “Os Guaranis”, “Não Tem Tempo”, o “Vai quem Quer” e muitas outras mais. 

Existe uma saudável rivalidade entre algumas escolas de samba do carnaval de Antonina, uma delas é entre a Escola Filhos da Capela e Batel, que mexe e anima os foliões que vãos as ruas, aprecia-las. A beleza da Escola Leões de Ouro encanta e seduz a todos que acompanham os festejos de Momo da cidade.

Esta Escola de Samba, Leões de Ouro preserva, até hoje, a tradição de homenagear os Orixás, defumando todo o percurso carnavalesco, para que as divindades a proteja e abençoe.

Que beleza, minha gente, e pensar que a nossa cidade de Irati, lá pelos anos 80/90, teve um carnaval tão animado e promissor, que hoje até poderia estar se rivalizando com Antonina, não é mesmo minha gente. Que saudades! Quem sabe, ainda poderemos nos recuperar. Vamos acreditar. 



Nossa!!! Prezados ouvintes, me empolguei tanto com tudo que vi e ouvi, durante o passeio que fizemos, que nem reparei que o meu tempo de programa já está no fim. Mas valeu a pena, não valeu? Acredito que deixei, a todos aqueles que ainda não fizeram este tipo de passeio, muito curiosos e motivados a, em um final de semana desses por aí, arrumar seu farnel com farofa de frango e tudo, ir até Curitiba, pegar a litorina e desembarcar no paraíso litorâneo do nosso Estado. Não é mesmo? 

Mas, antes de encerrar esta apresentação, ainda tenho de contar-lhes uma lenda. Uma maravilhosa lenda muito popular lá pras banda de Antonia, que é a:


LENDA DA MÃE DO OURO

Histórias contadas de geração em geração, falam de uma mulher branca, com uma enorme cabeleira dourada, de olhos verdes e bondosos, conhecida como MÃE DO OURO. Ela era a guardião da minas e lavras que proliferavam na Serra do Itupava, ocasião em que, lá pelos anos 1600, aventureiros vinham atrás de riquezas da região.

Uma das lendas sobre esta bela senhora foi criada por um minerador que queria assustar seus escravos, impedindo-lhes que chegassem próximos de sua mina. Contava um escravo, de nome Jerônimo, que habitava um dos acampamentos mineiros da época e que mais tarde se transformou no povoado de Antonina.

“Em um determinado dia de forte tempestade, temendo ser mais uma vez chicoteado por meu senhor, caso não lhe levasse o produto de minha lavra, continuei a batear em busca de mais algum ouro. Foi, então, que avistei uma imensa bola de fogo que, depois de muito girar em minha volta, caiu num descampado perto de onde eu estava. Fui até o local, tremendo muito de tanto medo, e avistei, junto a uma pedra esculpida por um artesão, um punhado de pepitas do mais puro ouro que já tinha visto em minha vida. Rapidamente comecei a junta-las em um bornal a fim de entregá-las a meu senhor, quando, de repente, surgiu em minha frente o vulto da MÃE DO OURO.

Rapidamente me ajoelhei, na esperança de que a visão desaparecesse, mas ao levantar a vista me deparei com uma linda mulher que me disse: “Vim pra te ajudar. Toma todo o ouro e leva a teu senhor. Nada digas a ele sobre o que viu. Amanhã eu retornarei.”

Sai em desabalada carreira e fui ter com meu amo. Mas, como era muito mais ouro do que costumava entregar-lhe, pensei: “Por que não esconder um pouco do ouro do “Sinhô” e depois fugir para a liberdade?” Então, perto de uma velha goiabeira fiz o “enterro” de parte do ouro que a bela senhora me ofertará. Certo dia, quando roçava um trecho do rio para abrir uma picada até no Itupava, me deparei, novamente, com a “MÃE DO OURO”. Cai de joelhos e esperei que ela me dirigisse a palavra. Então ouvi de seus lábios: 

- “Por que roubou o ouro do teu amo?”, rapidamente lhe respondi: 
- “Senhora, eu somente guardei um pouquinho do que a senhora me deu. E isso para conseguir a minha tão sonhada alforria”.
- “Se não parar, vou te castigar e nunca mais vais encontrar ouro”.
Então, apanhei o ouro roubado e o devolvi para meu patrão. Mas, na ânsia da liberdade e nas lembranças dos tempos que corria livre pelos campos da minha África querida, fizeram-me roubar novamente.

A MÃE DO OURO me apareceu novamente, dizendo-me:
- “Jerônimo, você continua a roubar seu patrão e, por isso, não poderá mais batear o meu ouro”.
Me ajoelhei a sua frente e lhe pedi:
- “Senhora, Mãe do Ouro, não me faça isso. Quero ser livre! Não agüento mais a vida que levo”.
Mas a sua resposta foi dura:
“Não, filho! Serás para sempre um desgraçado”.

Fui tomado de uma grande cólera e apanhando minha foice, de um só golpe, degolei a piedosa MÃE DO OURO. Foi, então que eu vi, de seu pescoço jorrar muito sangue, que se transformou em sua vasta cabeleira da cor do ouro que me ofertará. Desde então a lenda da bela senhora MÃE DO OURO, ficou conhecida em todo o nosso litoral.

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