Matérias / Irati de Todos Nós

19/04/16 - 15h30 - atualizada em 05/05/16 às 17h24

Escola Apostólica de São Vicente de Paulo - Capítulo II

Professor José Maria Grácia Araújo


Presados ouvintes! Vocês não podem imaginar como foi grande a minha surpresa ao verificar a extraordinária repercussão alcançada pelo meu programa do sábado passado, ocasião em que abordei o primeiro capítulo da maravilhosa história do nosso querido Colégio de São Vicente de Paulo.

Várias pessoas, quase todas ex-alunos deste que é um dos mais antigos estabelecimentos de ensino do nosso querido RIO DE MEL, Irati, me abordaram nas ruas da cidade para me confidenciar terem ouvido este que foi o capitulo inicial desta maravilhosa história de amor e superação do povo iratiense.

 O meu BOA TARDE a todos vocês, meus presados ouvintes, que hoje estarão novamente me concedendo o privilégio de suas audiências nesta que será a segunda parte deste encantador relato religioso/educacional.

No programa passado, abordei o histórico oficial do inicio das negociações e posterior instalação da Escola Apostólica de São Vicente Paulo em Irati, nos meados dos anos vinte do século passado. 

No programa desta tarde, vos oferecerei, alguns relatos do lado mais curioso e pitoresco desta verdadeira epopéia vivida pela pequenina vila do Iraty, recém desmembrada do seu município mãe de Santo Antonio do Imbituba. Então, sentem-se confortavelmente em suas cadeiras de embalo ou estirem-se em suas redes ou em seus sofás e me acompanhem pelas trilhas do nosso rico passado.

 










Assim nos conta o Padre Sebastião Mendes: 

Da Bahia para o Rio viajei no navio “Ceará” do qual era imediato um patricio, amigo meu, muito correto e gentil, que me tomou como companheiro de mesa. Do Rio segui, poucos dias depois, para o Paraná pelo vapor nacional “Afonso Pena”.

Em Paranaguá me esperava no cais o Reitor do Seminário de Curitiba. Estava visivelmente, impaciente. O vapor lançou âncora com algumas horas de atraso e com grande risco de nos fazer perder o horário do trem que nos deveria levar até Curitiba. Mal eu tinha pisado em terra firme e o Padre Taddey já me indagava a queima roupa:  









- E a licença da direção da Província? Trouxe-a?

- Não, Respondi, timidamente.

- Pois eu já imaginava que o Sr. Não a traria. Franziu a testa, ergueu as sobrancelhas, exibindo aquela fisionomia característica de quem comeu e não gostou. Só então, depois disso, é que nos abraçamos para em seguida fazermos um rápido lanche e corrermos para a estação tentando não perder o trem que partiria para Curitiba.

Já em viajem, me foi dada a oportunidade de apreciar o panorama deslumbrante, que se descortinava das janelas do comboio, cujo traçado é talvez o mais arrojado do mundo, entrecortado por numerosíssimas obras de arte, que surgem a todo instante defronte a visão dos passageiros: tabuleiros, arremessando-se sobre abismos; trilhos inscrustrados na rocha viva; tuneis, uns após outros, separados, apenas por breves intervalos, enfim tudo quanto o cálculo matemático faz aflorar da imaginação da engenharia moderna. O nome do Eng. Teixeira Soares ficou cristalizado naquele traçado genial. Neblina espessa, que por intervalos se desfazia em um miúdo chuvisco, escondia-nos as maravilhas daquela encantadora viajem.

Foi-me chamada à atenção para o trecho da ferrovia em que se deu o crime político do Barão do Serro Azul, assinalado por uma cruz, provando mais uma vez que a politica é quase sempre o calvário em que se imolam vitimas da incompreensão cívica.

Ao chegar a Curitiba me ví nos braços do um velho amigo, Padre Francisco de Souza, de quem havia sido separado seis anos antes.

Após 12 dias em Curitiba partimos, Padre Souza e eu, para Iraty. Uma viagem cansativa até Ponta Grossa. Tivemos como diversão apenas os tradicionais ovos cosidos servidos na Serrinha, entrocamento da linha de São Francisco. Após o almoço na estação de Ponta Grossa fizemos algumas visitas a clérigos da cidade e retornamos ao trem nos colocando, de novo, em viajem para Iraty. Aos poucos a paisagem foi mudando, surgiram as florestas de araucárias que, em matas serradas, cobriam montes e vales, a perder de vista. Esbeltas e graciosas, ao mesmo tempo possantes, as araucárias davam a impressão de fantásticos guarda-chuvas, que se abriam ao vento, para abrigarem animais das mais diversas especies. Lindas palavras de Pe. Mendes, sobre as belezas da nossa região. Não é mesmo? Prezados ouvintes.

Eis-nos, então, em Teixeira Soares, já mergulhada nas sombras que se projetavam dos pinheirais. Pouco depois, Fernandes Pinheiro, já quase na completa escuridão. E, Finalmente IRATI! Noite serrada, trevas por toda parte. Pirilampos de luz mortiça, aqui e acola, podiam ser vistas através das janelas das rústicas habitações. Estava em reparos a geradora de eletricidade da vila. Na estação nenhuma multidão, apenas o Sr. Prefeito Coronel Zeferino Salles Bittencourt e o grã Mestre da Maçonaria local, acompanhados de familiares e alguns assessores. Todos imaginavam que chegássemos somente no dia seguinte.

Pusemos os pés em solo iratiense, pelas oito horas da noite de 15 de julho do ano da graça de 1925.

Durante os 15 primeiros dias, fomos hospedados no Hotel Veiga, um majestoso prédio anexo a estação, também conhecido como Hotel Linguiça, por ser essa iguaria o prato obrigatório de quase todas as refeições do estabelecimento.

No dia seguinte, 6 de julho era festa de Nossa Senhora do Carmo, então celebramos a primeira missa na capelinha da vila com o auxilio de um sacristão e uma doce velhinha da vizinhança. Ficou-me esse dia sempre gravado na memória, por dois fatos. Um deles acontecido logo após a missa, quando fui procurado por um cavalheiro, de maneiras educadas, que me pediu a caridade de ir confessar a sua velha mãe, que estava na cama adoentada. Encontrei-me, então, defronte a uma respeitável senhora, com idade bastante avançada, mas em perfeito uso de suas faculdades e que, por suas primeiras palavras, notei que era uma autêntica matrona Italiana. “Nossa Senhora Bendita! Foi ela que o trouxe aqui”. E continuou, em uma linguagem hibrida, nem portuguesa, nem italiana: “ Padre, toda a minha vida pedi a Nossa Senhora das Graças que não me deixasse morrer sem a assistência de um sacerdote e o conforto dos últimos sacramentos. Quando adoeci há já algum tempo, estava em Curitiba, em casa de um filho que não praticava a religião, nem me daria a consolação cristã de receber os sacramentos se ali viesse a morrer. Diante desta perspectiva resolvi sair da grande cidade, onde há tantos padres, e vir para Iraty, para a casa deste meu outro filho. Ora! Eu sabia que em Iraty não havia padre, mas tinha a certeza de que Nossa Senhora da Luz, padroeira do lugar, não me deixaria morrer sem ter recebido os últimos sacramentos. E o senhor estar aqui é a prova de que ela me ouviu. Agora sei que vou morrer, mas coberta pelos sacramentos da Santa Madre Igreja”.

Confessei-a. No dia seguinte, levei-lhe o santo viático, ungi-a e, pouco depois ela extinguia-se suavemente no Senhor. Este fato foi minha primeira grande consolação na vila do Iraty. Completou Padre Sebastião Mendes.

Num segundo acontecimento relatado, o bom padre dizia o seguinte: Este fato aconteceu neste mesmo dia, mas foi de natureza inteiramente diversa do primeiro, porém serviu para confirmar-me a convicção de que iria trabalhar no Iraty sob uma proteção muito especial da Providência Divina.

Celebramos de manhã a Santa Missa, deixando a imagem da santa reserva dentro do Sacrário. O sacristão, um rapazinho ruteno, esperto e simpático, foi por mim incumbido de deixar uma vela acesa em cima do altar. Esperávamos voltar lá, mais tarde, para examinar as alfaias da capela e tomar nota de tudo aquilo que porventura estivesse faltando no local. Chovia tanto nesse dia que não pensamos sequer, por um momento, em sair do nosso quarto do hotel, entretendo-nos com os planos da construção do futuro prédio para o Seminário Apostólico. Estávamos para nos deitar, quando um de nós lembrou-se: “Será que o rapazinho não se esqueceu da vela acesa?” E lembramo-nos do risco que a capela corria se a vela provocasse fogo no castiçal que era de madeira e isso conduzisse o fogo para o altar e para a capela toda. Resolvemos, então, ir até lá, apesar da chuva, do vento e da escuridão. Foi uma dificuldade só. Lá fora, não conseguíamos ver um ao outro. O caminho era um rio de lama. As apalpadelas, agarrados um ao outro, com receio dos barrancos que limitavam o caminho, lá fomos nós, escorregando aqui, enterrando-nos ali em fundos buracos, tudo debaixo de uma impertinente chuva que nos fustigama o rosto. Em fim nos deparamos com a fachada da capelinha. Pelo buraco da fechadura, pudemos ver que a vela que ainda acesa já consumia as bordas do castiçal de madeira, prestes a lançar fogo ao altar. Chegáramos a tempo. Mas cade a chave? Como entrar na capela? O sacristão tinha levado a chave, e não sabíamos onde ele morava. Por felicidade, tínhamos reparado que havia uma pequena porta lateral, que dava entrada para a sacristia, apenas segura por um pedaço de pau. Conseguimos força-la sem grande trabalho, e entramos a tempo de salvar a velha capela do Iraty de um incêndio fatal.

Acredito que na vila, muito poucas pessoas ficaram sabendo dos trabalhos e da aflição, por que passamos naquela noite de 16 para 17 de julho de 1925. A volta para o hotel foi auxiliada pelas luzes mortiças da estação que tínhamos agora pela nossa frente e que se refletiam nas possas d’água e nos indicavam a direção a seguir. Passamos mais de uma hora a limpar a lama que se apegara à batina e ao calçado. Deitamo-nos tarde, cansados, mas gratos para com o nosso bom anjo da guarda, que nos livrara de tão grande perigo.

Olá meus amigos e ex-colegas das salas de aulas do inesquecível “SÃO VICENTE”, assim como todos os demais ouvintes que me acompanham neste momento. Tenho plena certeza que todos, sem exceção, estão maravilhados com estes relatos do Padre Sebastião Mendes, Não é mesmo? Mas, continuem me acompanhando, por estes caminhos e recaminhos da nossa história, pois, ainda tem mais... Muito mais.


A FESTA DE SÃO VICENTE 

No dia 18, daquele mês de julho de 1925, a chuva tinha cessado, porém, o vento ainda soprava frio. À noite, o céu estava límpido e as estrelas brilhavam com a nitidez de pedras preciosas. Preparava-se fortíssima geada para a manhã seguinte. O dia do nosso Santo Fundador foi efetivamente assinalado por uma das mais fortes geadas que eu ja havia visto em minga vida, continua nos contanto o bom Padre Mendes. O sol levantara-se radiante, mas os seus raios com pouca eficacia batiam sobre a espessa alva camada de gelo que a tudo cobria. O frio era intenso, principalmente para mim que acabará de chegar da Bahia...

O Sacristão tocou o sino exatamente às 8 horas daquela fria manhã, só então nos dirigimos para a capela, a fim de celebrarmos o santo sacrifício da missa festiva.


Deu-se, nesta altura dos acontecimentos, um fato curioso, que veio confirmar-me de que o frio que eu sentia não era apenas relativo ao clima da Vila, em relação à aquele da região que eu deixara a poucos dias. Era um frio para valer mesmo, um frio absoluto. Tínhamos trazido água do hotel, mas não conseguíamos introduzí-la na “galheta”. Gelava no gargalo e não entrava para o seu interior. Depois de teimarmos por algum tempo, tivemos de mandar aquecer a garrafa em casa de uma vizinha da capela, e só então conseguimos água líquida para os ofícios da Santa Missa. O termômetro deveria marcar, nesta lindíssima manhã, para baixo de 12 graus negativos. A frequência da missa foi diminuta, por causa do intenso frio como também por motivo de São Vicente ainda não ser muito conhecido na região.


A partir do dia seguinte, 19 de julho, o tempo firmou, e nós aproveitamos para começar a trabalhar. Conseguimos uma reunião com as principais lideranças da vila na casa do Exmo. Prefeito Zeferino Salles Bittencourt. Estudava-se de que forma o terreno para a obra seria adquirido, como também, com quem poderíamos contar, para levar avante a delicada empreitada da qual tinham-nos incumbido. O prefeito nos orientou que procurássemos nas imediações da vila um local adequado para o levantamento da obra e indicássemos qual a área de que carecíamos, pois a Prefeitura e alguns cidadãos se encarregariam de providenciar sua aquisição ou desapropriação, pois se tratava de um empreendimento muito importante para o engrandecimento do Iraty, e por isso a comunidade não mediaria sacrifícios para concretiza-lo.

Os cidadãos que estavam presentes, na sua maioria, madeireiros importantes, subscreveram auxílios valiosíssimos. Sendo o tijolo o primeiro material de maior urgência para a construção e como no Iraty só existia duas olarias; uma delas operada manualmente e outra mecanizada, mas ainda em fase de construção, chegou-se a conclusão que não absorveriam integralmente o volume das necessidades da obra.

O Sr. João Baptista Anciutti, de Riozinho, então, subscreveu a doação de cem mil tijolos; a firma Zarpellon, do Irati Velho, cinquenta mil; O Sr. Prefeito Zeferino, dez mil; e outros subscreveram cinco mil, dois mil, ninguém menos de mil. Devemos ter apurado, nesta reunião, cerca de duzentos mil tijolos. Era um bom começo, conta Padre Mendes.

Os Srs. Anciutti e Zarpellon chegaram a montar suas próprias olarias, propositadamente, para fornecer os tijolos prometidos, visto que as olarias existentes não poderem fabricá-los com a necessária urgência.

Num desses dias de fins de julho de 2015, acompanhados pelo Coronel Zeferino e outros amigos, percorremos algumas casas importantes da vila, para pedirmos donativos para as obras da Escola. Abriu a lista o comerciante polaco, Theodoro Cichevicz, homem de vistas largas e farta generosidade, que ofereceu dois contos de reis. O Sr. José Smolka, chefe da colônia polaca, subscreveu quinhentos mil reis. Muitos outros, comerciantes e particulares, subscreveram quantias de acordo com suas posses. Por toda parte fomos muito bem recebidos e ninguém nos negou seu generoso apoio. O total das quantias subscritas nesta primeira visita, se não me falha a memória, foi de aproximadamente cinco contos de reis. Era ainda um bom começo. Ainda, neste final de mês de julho, antes que meu colega partisse, para retomar a suas aulas no seminário de Curitiba, procuramos terrenos em toda a Vila do Iraty, a fim de tomarmos posição e determinarmos o devido local da tão esperada construção da ESCOLA APOSTÓLICA DE SÃO VICENTE DE PAULO. 

Nossa, nem notei que o meu tempo de programa já estava se acabando. O assunto realmente e fascinante e envolvente, não é mesmo, caros ouvintes. Padre Mendes, realmente soube transferir para o papel, todas as suas experiências vividas, naquele longínquo ano de 1925, quando por aqui esteve á fim de nos oferecer aquele que é o embrião da nossa mais importante iniciativa Religiosa e educacional. Esperando que todos vocês que estiveram comigo nestes últimos 30 minutos, de elevo e recordações, voltem a me acompanhar no sábado que vem, pois aqui estarei novamente para oferecer-lhes o terceiro capítulo desta empolgante historia que nos fala sobre os primórdios do nosso COLÉGIO DE SÃO VICENTE DE PAULO. Até lá.


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