Matérias / Irati de Todos Nós

03/05/16 - 16h29 - atualizada em 05/05/16 às 17h25

Escola Apostólica de São Vicente de Paulo - Capítulo III

José Maria Grácia Araújo


Escola Apostólica
Olá, prezados ouvintes do meu programa IRATI DE TODOS NÓS, estão lembrados em que parte dos relatos do Padre Sebastião Mendes nós paramos no programa do sábado passado? Não lembram? Não se sintam culpados, isso pode acontecer a qualquer um de vocês que me acompanham todos os sábados. Pois bem, eu estou aqui, para lembrá-los, não é mesmo. Então vamos lá: Padre Mendes e seu colega padre Francisco saíram a campo a procura de um terreno que pudesse servir a suas intenções de construção de uma ESCOLA para a formação de vocações sacerdotais, ou seja, a ESCOLA APOSTÓLICA DE SÃO VICENTE DE PAULO. 

Bem agora que já os localizei no ponto em que paramos no capitulo passado, posso, então, lhes desejar uma BOA TARDE de muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

Então vamos lá, acomodem-se em seus lugares de costume, fechem seus olhos e acompanhem mais uma coletânea dos maravilhosos relatos do Padre Sebastião Mendes.

Em princípios de agosto, instalei-me com um ajudante que viera comigo de Curitiba, em uma casa que a prefeitura de Iraty, gentilmente, alugara para nós. A casa ficava a uns vinte metros da pequena igrejinha, a caminho do terreno, onde iriamos iniciar as obras da Escola.

A nossa casa próxima da igrejinha
Era de madeira de pinho, assentada sobre dormentes de imbuia, como quase todas as construções da vila do Iraty. Era cômoda e muito bem dividida. A porta da rua dava para uma minúscula saleta, donde se abriam portas para a sala de jantar, sala de visitas e um pequeno quarto. Da sala de jantar, subiam escadas para o sotão, onde havia ainda dois bons quartos, além de um pequeno átrio e dois espaços laterais, aproveitando a inclinação dos telhados, que serviam como depósitos para objetos e moveis em desuso. Ao lado da sala de jantar, a cozinha com porta para o quintal, onde havia um poço bem fundo, com excelente água potável, casa para lenhas, galinheiro e um pomar bem maltratado.

Nos primeiros tempos, íamos comer na casa de uns vizinhos, Era um casal, de idade já avançada, que tinha em sua companhia, uma afiliada ainda muito jovem. Os velhinhos eram autênticos caboclos e muito supersticiosos.

Caboclos supersticiosos
Comíamos todos com a gente simples e sertaneja. Era mais barato que no hotel Veiga, e comia-se melhor. Isso durou apenas uns dez ou doze dias. Depois disso já eramos três que habitávamos a nossa casa.

Eu, na chefia, Gertrudes e o Nico. Eu tinha então, 43 anos e meio de idade, quando tomei o comando da minha equipe. D. Gertrudes merece, no entanto, particular atenção. Era minha ajudante, ou melhor, era uma verdadeira dona de casa. Conhecia todos os afazeres, respeitabilíssima, fiel, e dedicada.

Porém, o que ela não dominava com perfeição era a arte culinária. Como boa cabocla paranaense, sabia assar um churrasco, cozinhar feijão, torrar farinha e poucas outras coisas mais. Suas primeiras refeições resumiam-se feijão e carne cozida com batatas e hortaliças.

Feijão, carne cozida, batata e hortaliças
Divisão por dois


Meu colega, padre Souza, ensinou-lhe a fazer arroz, porém, ele mesmo teve de aprender antes, para depois ensina-la. Por meu lado, ensinei-lhe a fazer uma deliciosa canja parda. O segredo desta iguaria não foi divulgado, por que era uma patente secreta do meu cardápio.


O que nunca consegui, nem meu colega, foi ensinar d. Gertrudes as operações aritméticas Quando eu estava sozinho, servia-me um naco de linguiça, com três batatas cozidas. Quando éramos dois, apareciam, infalivelmente, três nacos de linguiça e cinco batatas. A divisão por dois, nunca dava certo. O último pedaço tinha de ser dividido ao meio ou tirada a sorte a fim de premiar um de nós dois... Nem só de pão vive o homem.

D. Gertrudes era uma senhora viúva e já havia tido um lar. Quando chegou a nossa casa já começou a se instalar como se estivesse a refazer sua própria casa. Distribuiu, pelas paredes da sala retratos e lembranças de família. Foi assim que eu soube que seu finado marido tinha sido um elegante cidadão que usava chapéu de palha. Achei que tudo aquilo era altamente conveniente, pois, julgando-se em casa, a boa senhora haveria de tratar-nos mais carinhosamente. Longe de tecer queixas contra D. Gertrudes, só tinha que a louvar, pela sua perfeita seriedade, pelo seu zelo com que guardava a casa, nas minhas frequentes ausências, e até pelo modo discreto que se relacionava com os vizinhos. Só uma vez me zanguei com seriedade com a boa senhora. D. Gertrudes tinha chegado até aquela idade avançada sem se preocupar com as práticas religiosas. Notei certo domingo, que não estava na missa. De volta a casa, perguntei-lhe se estava doente. Respondeu-me que não. 

Então, porque não foi a missa?

- Então por que não foi à missa? Perguntei-lhe meio rispidamente.

- Para fazer o almoço. Respondeu-me ela. Ou hei de fazer o almoço, ou hei de ir à missa. Completou.

Preparei o NICO para a 1ª comunhão
- Muito bem, lhe respondi. Doravante a senhora vai à missa e não faz o almoço. Se optar pelo almoço e não for à missa, eu não almoçarei. Diante do tom decidido desta afirmativa, D. Gertrudes estudou o caso e daí por diante, foi sempre a missa e servia-me o almoço horas mais tarde. O que mais tarde, depois da minha saída de Iraty, fiquei sabendo, é que a boa senhora tornou-se assídua frequentadora dos ofícios religiosos. 

Ainda sobre o assunto religioso, lembro-me que também preparei o Nico, sobrinho de D. Gertrudes, para a sua primeira comunhão.

O Nico é, pois, a terceira personagem da história da minha permanência em Iraty. Não me recordo a que nome próprio pertencia aquele sufixio (NICO). O que sei é que o rapaz era levado da breca. Sem resultados práticos teitei enfiar-lhe na cabeça dois dedos de aritmética e umas noções de geografia e história pátria. Toda a minha pedagoria esbarrou em uma mentalidade que eu não conseguia entender. O rapazinho era esperto, mas eu não encontrei nenhuma brecha para lhe ensinar as regras do aprendizado.

Olha só a cara do NECO
Há, já ia me esquecendo do NECO. Ele era um cãozinho que veio não sei de onde e que achou-nos bons hospedeiros e sentiu-se no direito de se unir ao nosso seleto grupo. O Nico e o Neco eram inseparáveis em todas as brincadeiras diárias.

O Baio, o Bainho e outros mais
Outros personagens se agregaram ao nosso universo particular, até que somávamos nove inseparáveis indivíduos. São eles O Baio, o Bainho, o Russo e alguns mais, que sem certidões de nascimento não foram habilitados a terem um nome. As cindo horas da manhã, invariavelmente, ai dar-lhes a ração. Eles, compassadamente, em silêncio, como que em oração, iam triturando o milho abençoado que lhes servia para supri-los de força para os trabalhos diários.

Tive também, naqueles primeiros tempos, a meu serviço, dois homens que merecem especial menção. Tio e sobrinho. O tio era meu patrício e o sua função eventual, era quebrar pedras para os alicerces da escola. Armado de enorme martelão punha-se á serviço com toda a dedicação. Via-se logo que não era do ofício, muita força bruta e pouco jeito.

Certo dia mandei-os, a ele e ao sobrinho, dormir na olaria do Nhapindazal, propriedade que havíamos comprado para o fabrico de tijolos, situada a três quilômetros da vila, Havia lá um depósito de milho e receava que fosse assaltado. Ao voltarem no dia seguinte se apresentaram estarrecidos, protestando e dizendo que lá não voltariam a dormir. E contaram que altas horas da noite, cercaram a casa tentando arrombar o paiol de milho, acenderam um fosforo e entraram por debaixo da casa.

E não roubaram nada? Perguntei-lhes.

- Não senhor, fizemos barulho e eles fugiram.

Os fantasmas fugiram

- Esta noite sou eu quem vai dormir na olaria, mas vocês vão comigo. Argumentei.

- Se o senhor for junto, então nos iremos também.

De tardinha, depois da janta, mandei-os para lá. Eu fui mais tarde, quando já era noite escura. Armei-me de uma garrucha de dois canos, para o que desse e viesse. Devo dizer que, até aquela data, só havia dado dois tiros em minha vida toda. Uma vez para espantar morcegos e outra, por desconhecer o mecanismo daquele instrumento e que só por um milagre não me feri gravemente. Só com a graça de Deus não estourei meus miolos. Isso, porém, não me impedia de dormir sempre com o fatal instrumento sobre minha mesinha de cabeceira. É que Iraty, ao tempo que lá cheguei, era uma espécie de Far West das fitas americanas.

Far West Americano

- Será que era assim mesmo, nossa pequenina Iraty dos anos 20, em Padre Mendes?

Era assim mesmo, meu caro cultuador da história iratiense.

Armado, pois, de pistola, lá fui eu para a olaria, onde encontrei, dispostos a não dormir, os meus valentes companheiros. Inspecionamos os arredores, vistoriamos por debaixo da casa e do paiol de milho e trancamos as portas. Mandei meus companheiros ocupar um dos quartos, ficando eu em outro, deitado no chão, apenas embrulhado num cobertor. Já estava a pegar no sono, quando meus companheiros, chamaram por mim e voz bem baixa. Mandei-os ficar calados e pus-me a escultar. Havia passos que se aproximavam cautelosamente. Ouvi o acender de fósforos e uns lampejos passaram pelos vãos do assoalho. O intruso foi até o paiol de milho e empurrou ligeiramente a porta da entrada, que não cedeu. Andou ainda mais algum tempo em volta da casa, depois ouvi alguns de seus movimentos mais e recomendei aos meus companheiros a não se mexerem, se eu por eles não chamasse. Era necessário desvendar o mistério. Abri a porta da rua e me deparei lá fora com um luar de sertão, capaz de inspirar nova obra prima de Catulo cearense. A lua aparecia dourada naquela noite de outubro. Reparei que alguém tinha trepado em uma das árvores, distante apenas á poucos metros da casa.

Moleque trepado em uma árvore

- Boa noite. Disse-me em voz alta e clara alguém empoleirado em um dos galhos da majestosa árvore. Silêncio...

- Boa noite, respondi.

Novo silêncio...

- Boa noite, repeti mais uma vez, completando, se não responder eu atiro.

Uma voz muito tímida de polaco respondeu então:

- Boa noite; desculpe senhor padre, sou eu que vim buscar uns pombos que compramos do oleiro, antes de ter ido embora da olaria. Eles teimam em voltar para cá e só à noite os podemos capturar novamente.

- Ora, muito bem, mas poderia ter acontecido uma grande desgraça. Se vos messe tivesse falado logo nada disso teria acontecido e nós o ajudaríamos apanhar as aves.

- Já os tenho comigo, muito obrigado, padre.

Era o filho do criado de uma família polaca que morava cerca de um quilometro dali. Depois desse incidente, nos deitamos despreocupados. Porém, pelas duas da madrugada, soaram na porta duas fortes pancadas. Bem, pensei eu, desta vez deve ser coisa séria. Lancei mão da pistola e gritei:

Aves fujonas
- Quem está lá?

- Somos nós, os da ronda.

Abri a porta e era, com efeito, uma patrulha de três guardas que tinham ouvido os meus empregados contar a história da noite anterior e resolveram ir até a olaria verificar o que poderia estar acontecendo por ali.

Coaxar dos sapos

Conversamos por uns instantes, contei-lhes o sucedido e convidei-os à irem, no dia seguinte, à nossa casa da vila, tomar uns copos de cerveja caseira. Então os três vigilantes despediram-se e foram embora. Após alguns minutos, o coaxar dos sapos e das rãs, abundantes nas imediações, se avultaram. Estava descoberto o mistério da olaria, que tinha aterrorizados os meus valentes empregados.

Uffa! Caros ouvintes. Estes relatos do padre Mendes são bem realistas, não é mesmo? Quantas coisas estamos conhecendo sobre a nossa pequenina vila do Iraty, dos anos 20.

Padre Mendes, estamos chegando ao final de nosso tempo de programa, teremos de nos despedir de nossos ouvintes e convida-los para estarem conosco no próximo sábado, quando o senhor estará nos contando mais um pouquinho desta maravilhosa história do nosso glorioso passado. É isso aí pessoal, até o próximo sábado, se Deus e o padre Mendes nos honrarem com suas presenças, mesmo que sendo só em espirito, alma e coração. Até lá.


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