Matérias / Irati de Todos Nós

04/05/16 - 16h46 - atualizada em 05/05/16 às 17h29

Escola Apostólica de São Vicente de Paulo - Capítulo IV

José Maria Grácia Araújo                                  


IRATY 1925 - Com seus amplos espaços urbanos

Quando cheguei a Iraty, me deparei com a estranha informação de que não haveria na vila nenhum terreno apropriado para a construção de uma obra como aquela que pretendíamos edificar. Dizia-se que, apenas no Iraty Velho, encontraríamos o local adequado para tal empreendimento.

Percorremos, então, as redondezas, resolvidos a desvendar se estas informações eram verdadeiras. Não foi necessário procurar muito. Próximo à vila, ao seu alto, lá estava ele o terreno que desejávamos. Em frente da estação, sensivelmente para nordeste erguia-se uma encosta bastante suave, com terras de cultura e de pastagens, e que conduzia a rua em cujo início se encontrava a igreja e a nossa residência. Como em quase todos os terrenos daquela zona do Paraná, existiu ali, em outros tempos, pinheirais cerrados, que foram pouco a pouco sendo devastados pela serraria do Sr. Emílio Gomes. Restavam apenas alguns exemplares que as serras do engenho não puderam cortar.  

A derrubada de pinheiros de Iraty
Havia um, sobretudo, de proporções gigantescas, que atraia a admiração geral. Devia ter sido o rei daquela floresta e ficará em pé, como sobrevivente de tenaz batalha, a protestar contra o direito da força, com que as novas civilizações iam conquistando o pacífico sertão. Envelhecera sobre suas próprias raízes. Um belo dia em que os fortes ventos se revolveram frementes em torno dele o velho gigante sentiu-se agitado, estremeceu, cambaleou e desentranhando da terra os enormes tentáculos com os quais se agarrava ao solo tombou com fragor. Devo ter ainda em meu poder um retrato do gigante já abatido pelo vendaval, com dois pigmeus ao lado do raizame – os Revmos. Padres Silva e Souza.

Dois pigmeus ao lado do raizame

- EITA MUNDO BOM! Como deve ter sido linda a nossa vila do Iraty, no início da sua ocupação. Não é mesmo Padre Mendes? Vamos lá, padre, contemos mais um pouquinho de suas recordações daqueles tempos felizes e românticos.

Subindo uns quinhentos metros para cima da nossa casa, junto à capelinha de N.S. da Luz, encontrava-se uma das mais belas vistas do Iraty, dominando a vila toda, com exceção do bairro que ficava por de traz da Igreja da colônia polonesa, chamado de Rio Bonito. Essa posição foi-nos naturalmente indicada por dois pequenos córregos, em que a água corria sem cessar, a pequena distância, de um e outro lado da capelinha.

Procurando-lhes as nascentes, encontramos o terreno que melhor nos convinha para o nosso Seminário. Escolhemos o terreno que não nos obrigasse a grandes desaterros e desse acesso à água pelo seu próprio movimento natural.

Depois de escolhido o local, todos da vila, acharam que realmente era um espaço maravilhoso. Quando mais tarde a construção iniciou a se elevar do solo e atrair a curiosidade, aquele lugar tornou-se o ponto favorito para passeios e pic-nic da população iratiense, que para lá se dirigiam todos os domingos e feriados. Cheguei a escutar comentários muito favoráveis a nossa escolha, tais como: “Eu bem dizia que se os padres viessem para Iraty, haveriam de se estabelecer no melhor ponto da cidade”, como também: “Foi preciso que os padres viessem para cá, para mostrarem que no Iraty existia esta linda vista”.

Lindas vistas oferecidas pela topografia de Iraty

- Até nos dias de hoje, presados ouvintes, os arredores do nosso querido COLÉGIO DE SÃO VICENTE DE PAULO é muito procurado, quando se quer ter uma visão panorâmica da nossa querida Irati. Se vocês ainda não notaram isso, tomem suas maquinas fotográficas ou mesmo celulares, e vão até o local e confirmem isso que estou lhes dizendo. No entanto:

Aquele terreno tinha outra vantagem, que outros não possuíam, nos arredores da vila. Ali existia uma pedreira que nos possibilitaria extrais as pedras, indispensáveis para os alicerces da obra. Era uma vantagem de real valor econômico, dada às proporções da construção e que, por certo, diminuiria nosso orçamento em alguns contos de reis.

Definida, definitivamente, a nossa escolha, a Prefeitura mandou o seu agrimensor medir e demarcar o terreno e elaborar a planta do prédio. Mas não esperamos por essa medição para dar inicio aos trabalhos. Fomos logo iniciando a obra.

Tio e sobrinho, os quebradores de pedra, que já lhes apresentei, desde logo, iniciaram a preparar as pedras para as fundações do prédio. Não sendo, exatamente, do ofício, seus rendimentos eram pequenos. Tivemos, então, de pensar num verdadeiro artista. Mas onde encontrá-lo? Não região do Iraty, não havia. Procuramos em Ponta Grossa e, de lá, nos foi indicado um espanhol que, além de ser bom em seu ofício, era sério e honesto. Conversamos com o Sr. Cesário Fortes, homem de boas falas. Ficou de ir, o mais rápido possível, examinar a qualidade das pedras, para então dar o seu preço e verificar se se mudaria para Iraty com toda a sua família.

Verificação da qualidade das pedras de Iraty

A pedra dará não só para os alicerces, mas também, para as lousas, que foram muito próprias para revestimento dos páteos e dos passeios do Colégio... Disse-nos ele.

Em dois ou três dias, seu Fortes já tinha preparado mais pedras que os nossos empregados em duas semanas de trabalho. Encabulados, tio e sobrinho começaram então a arrumar desculpas para voltarem para sua região de origem. Porém, antes que essa decisão se transformasse em realidade, outro acontecimento veio aumentar, ainda mais, a urgência de suas debandadas.

O casarão para onde tinha os mandado dormir, diziam estar assombrado. Barulhos insólitos, pancadas, gemidos, sobras de espíritos e tudo o mais que lhes metia medo, podiam ser ouvidos durante a noite, diziam eles. O velho, sobretudo, andava pálido, cabisbaixo, e acabrunhado. Perdera o apetite e o sono.

Barulhos, pancadas e gemidos

- Neste ponto dos relatos do padre Mendes, surge uma importante figura da nossa história, que ficou muito conhecida em nosso meio por ter sido, por muitos e muitos anos, proprietário de uma das maiores pedreiras do nosso município. Conhecida como a pedreira do Fortes, até hoje, mesmo após muitos anos de sua desativação, pode ser vista cá da cidade, se olharmos em direção ao morro onde se encontram as torres de comunicação de nossas TVs. e repetidoras de celulares.

Quando o Sr. Fortes resolveu mudar definitivamente para Iraty, pediu-me que lhe alugasse o casarão “assombrado”. Contei-lhe o caso dos meus empregados fujões. ”Que lo viengam las assombrações, que no tengo medo!” – Respondeu-me ele, sorridente. E lá se instalou sozinho, e depois com a família.

Um certo dia, lhe perguntei se se dava bem com espíritos de outro mundo. Respondeu-me, com certo ar de malícia, que os espíritos de outro mundo é que não se davam muito bem com ele. E contou-me que, de fato, na primeira noite ouvira alguns ruídos, mas que no dia seguinte comentou com a vizinhança que, se apanhasse algum espírito perambulando por lá, não sairiam ilesos de suas garras. O homem era valente mesmo e os “espíritos” não o incomodaram mais. Foram-se para não mais voltar.

Os alicerces já haviam sido iniciados, mas faltava-nos areia para a argamassa. Onde iríamos encontrá-la? Já tínhamos procurado nos arredores da vila. Para o lado da Olaria do Coronel Zeferino havia bastante saibro arenoso, com forte porcentagem de barro. Não era, porém, o que havia de melhor para o caso. 

Saibro arenoso

Uma bela manhã, dirigi-me para o local da obra, como fazia todos os dias e fui surpreendido por um montículo amarelado sobre a relva. Que será? Indaguei a mim mesmo. Aproximei-me e vi que era areia de muito boa qualidade para o assentamento de tijolos. Quem a depositará ali, tão perto da nossa obra? Um colono polaco, cujo nome não me recordo, tinha ido buscá-la e Fernandes Pinheiro, a cerca de oito quilômetros de Iraty. Transportou-a em sua carroça, puxada por dois cavalos, tipo de transporte próprio da etnia polonesa.

Foi uma revelação divina para nós. Numa daquelas manhãs, fomos então, o padre Souza e Eu, a Fernandes Pinheiro examinar a qualidade da areia alí existente. Encontramo-la, em boa quantidade e qualidade, no barranco de descia do Rio até o leito do Rio Imbituvão. Falamos com o proprietário, que gentilmente, permitiu que “cortássemos” o quanto precisássemos dela.

Poderá parecer estranho ter me utilizado da palavra cortar areia. Mas é perfeitamente exata esta afirmação. Pois a areia que, normalmente, se apanha com pá, em Fernandes Pinheiro existe em no estado rochoso, formando sólidos sedimentos geológicos em alguns terrenos argilosos da região. Para que pudêssemos retirá-la do local tivemos de nos utilizar de cortadeiras e picaretas.

Resolvemos então, um belo dia fazer a primeira jornada para o transporte da areia que nos foi ofertada. Anunciou-se na igreja, durante a missa do domingo, que necessitávamos de gente de boa vontade e com as suas devidas carroças, para irmos a Fernandes Pinheiro buscar a bendita areia. Combinamos o dia e a hora, logo após a missa, e muito cedo partimos para as barrancas do Rio Imbituvão, com oito ou dez carroças e uns 30 a 40, abnegados cristãos.

Trabalhamos o dia inteiro e conseguimos chegar a Iraty, com nossa preciosa carga, ao anoitecer. Ao descarregarmos as carroças verificamos que o montículo formado era desanimador. Tanto trabalho, tanto sacrifício, para quase nada.

O problema da areia não estava resolvido e se tornava urgente resolve-lo. Lembramos, então, do transporte por estrada de ferro e estudamos o caso. Graças as boas relações do Pe. Souza, obtivemos da Chefia da ferrovia o transporte gratuito da areia que necessitávamos, de Fernandes Pinheiro até Iraty. Não se poderia ter conseguido mais e nem melhor condição de solução para os nosso problema da areia. A uns 500 m. Antes da estação de Fernandes Pinheiro, existe um desvio da linha férrea do qual nos aproveitamos para carregar os vagões. Construímos uma rústica plataforma de madeira, a altura do vagão, para mais facilmente podermos fazer os carregamentos. Este expediente facilitou extraordinariamente os nossos trabalhos.

Em dia combinado por antecipação, partimos de manhã de Iraty, com meia duzia de carroças, conduzidas por seus próprios donos, e mais cinco ou seis ajudantes. Estes cortavam a areia e ajudavam a encher as carroças que eram conduzidas até o desvio, depositando-se a areia na plataforma. Trabalhamos ininterruptamente, desde a chegada até ao meio dia, almoçamos e continuamos o serviço pela tarde a fora. Só encerrávamos os trabalhos pelas seis horas da tarde, quando já tínhamos preparado para o embarque, aproximadamente, uns trinta metros cúbicos de areia. Os vagões que nos foram cedidos, eram então deixados no desvio e imediatamente carregados por uma nova turma de abnegados ajudantes.

Vagões para o transporte da areia

Na estação de Iraty tínhamos um lugar reservado, onde a areia era descarregada. Dali era levada, pouco a pouco, para o local da obra. Desta forma conseguimos, dentro de pouco tempo, a quantidade de areia suficiente para o inicio das fundações da nossa escola.

- Ufaaaa! Presados ouvintes. Vocês viram como as coisas eram difíceis naqueles distantes anos da década de 20 do século passado? E, nem por isso, nossos patrícios deixaram de construir a nossa FORTALEZA DOURADO, do alto da Rua 24 de maio, não é mesmo? Porém, ops sacrifícios dos iratienses, não pararam por ai, não é mesmo Padre Mendes?

Fortaleza dourada


- Muito pelo contrário, meu bom amigo Araújo, pois tivemos de nos defrontar com muitas dificuldades mais, más não desanimamos e ás vencemos uma a uma. Vejam só:

O trabalho insano e esgotante que todos tínhamos que suportar, sob sol ardente, para levar a cabo nossas tarefas diárias, quase que esgotavam nossas forças por completo. Na última vez que fui a Fernandes Pinheiro foi em um ensolarado dia do mês de novembro de 1926, dia do nosso bem aventurado João Gabriel Perboyre. Nunca mais esqueci este dia. Ainda não tinha feito minhas orações matinais, quando bateram a minha porta. Eram os homens escalados para juntos irmos buscar nova carga de areia. Pensei e cumprir com minha obrigação religiosa matinal, mas eles argumentaram que, se perdêssemos o comboio que já estava por partir, teríamos de palmilhar a pé as três compridas léguas que nos separavam de Fernandes Pinheiro. Com a esperança de poder fazer minhas preces matinais em nosso destino, tomei algumas hóstias e uma porção de vinho e partimos para o trabalho.

O Pão e o Vinho

Dois dos trabalhadores que tinha contratado para esse dia, não apareceram e os demais que me acompanharam até Fernandes Pinheiro, não dariam conta dos trabalhos. Então me lembrei de que tinha eu dois fortes braços, me encorajei e peguei uma picareta e trabalhei, par a par, com o meu pessoal. Os serviços se desenvolveram normalmente. Contava com a volta do comboio para então poder rezar uma parte do meu breviário, deixando a outra para rezar tranquilamente em casa. Porém não me lembrei de que sábado e neste dia não havia comboio. Após um dia inteiro de trabalho forçado, quase sem descanso, teríamos de voltar a pé, palmilhando mais de três léguas para chegar a Iraty. Olhei para os meus homens, rutenos e polacos, em sua maioria, que também olhavam para mim e perguntei:

E agora, que faremos?

- E agora, que faremos?

- Agora pomo-nos a caminho, me responderam eles, um tanto desanimados.

- Então vamos partir imediatamente, retruquei.

- Mas o senhor, não pode. Não vai conseguir.

- Já lhes mostrei que tenho dois braços fortes e ágeis. Agora vou apresentar-lhes as minhas pernas, não menos adaptadas para essas ocasiões extremas. Respondi-lhes, e pus-me logo a caminho. Só Deus sabe com que apreensão eu marchei. Eu adiante e eles atrás.

Escolham o carrero da direita
Ao sair de Fernandes Pinheiro, já quase ao escurecer, encontramos uma velhinha, a quem perguntei se não havia caminho mais curto para o Iraty.

- Há, sim sinhô – respondeu – Vois messeis sigam por alí – e apontou para um carreiro bem largo – Dispois vois messeis vão se depará cum dois otros carreros, inscolham o da dereita. Em, maio meno meia hora vão tá na porpriedade do nhô Harmuche. Vão direto cumo um tiro de pica-pau.

E assim seria, se tivéssemos tido juizo. Mas a certa altura, quisemos seguir nossa intuição. Depois de muito caminhar, não encontrávamos nem sinal da serraria dos Harmuche. Andamos por três a quatro horas e o carreiro começou a desaparecer no meio da tiguera. Estamos perdidos, disse alguém do grupo. Olhamos uns para os outros, sem quase nos enxergarmos.

_ E agora? Perguntaram meus companheiros. Refleti uns instantes, refazendo mentalmente o caminho que havíamos percorrido, desde o encontro com a boa velhinha.

- Agora... Voltemos para trás. E as apalpadelas, com mil e uma precauções, o rosário na mão, refizemos todos os passos que havíamos dado por nossa conta e risco, só aí, então reencontramos a carreiro, que tão imprudentemente tínhamos renegado. Foi a nossa salvação. Pusemo-nos, então, a seguir a direção que a sabedoria da velhinha nos indicara. E, assim, dentro de pouco tempo estávamos na serraria do Harmuche. Da li ao Iraty, havia ainda uma boa hora de caminhada. Ao avistarmos as luzes do Hotel Veiga, sentimo-nos reanimados e em casa. Dei Graças a Deus e prometi não mais duvidar dos idosos e não me meter em outra enrascada dessa. Entramos no restaurante do hotel, mandei ser servido a meus colegas de aventuras um bom cálice de aguardente, despedi-me deles e fui para minha casa.

Eita, mundão de meu Deus! Como diz o Candinho: “Tudo que é de ruim, vem pera melhorar”, não é mesmo padre Mendes?

 

Luzes do Hotel Veiga

É isso aí, Zé Maria! Mas me parece que já estamos no final do teu programa de hoje, não é mesmo? Então, se assim for, convido a todos os teus ouvintes, que estão acompanhando esses meus modestos relatos, sobre a criação e construção da ESCOLA APOSTÓLICA DE SÃO VICENTE DE PAULO, para que estejam conosco, no próximo sábado, ocasião em que terei mais novidades para lhes relatar. Até lá
 


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