Matérias / Irati de Todos Nós

05/05/16 - 14h35 - atualizada em 05/05/16 às 16h28

Escola Apostólica de São Vicente de Paulo - Capítulo V

Professor José Maria Grácia Araújo                  

Ginásio de São Vicente de Paulo


Confesso a vocês, meus prezados ouvintes, não esperava tão grande repercussão como a que vem obtendo esta minha série que fala sobre a criação e atuação em Iraty da nossa querida ESCOLA APOSTÓLICA DE SÃO VICENTE DE PAULO, (ainda com Y). Essa entidade de ensino religioso atuou como seminário em nossa cidade no período de 1925 à 1948, quando, então, foi estadualizado e recebeu o nome de GINÁSIO ESTADUAL SÃO VICENTE DE PAULO. 

Dezenas de pessoas, inclusive professores e servidores da nossa UNICENTRO, têm-me contactado no meu ambiente de trabalho e nas ruas, a fim de me indagarem de onde extrai um relato tão rico e fiel que revela, quase que, em primeira mão esta maravilhosa história de amor, carinho e educação.

Como já o mencionei, no primeiro capítulo desta maravilhosa série, estes relatos do Padre Sebastião Mendes, principal responsável por essa maravilhosa dádiva divina que Irati recebeu no passado, está toda contida no pequeno livro: IRATI – CONGREGAÇÃO DA MISSÃO, do nobre, finado professor José Maria Orreda, editado no ano de 1975. Parabéns professor Orreda.

Após está introdução explicativa, só me resta desejar-lhes um ótimo dia de sábado, com muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

Padre Sebastião Mendes
Sábado passado, padre Mendes (espiritualmente) esteve conosco aqui nos estúdios da Rádio Najuá, ele até chegou um pouquinho atrasado, lembram? Hoje, no entanto, justificando sua ausência me pediu que, em seu nome, apresentasse a todos vocês, caros ouvintes, o capítulo V, de seu maravilhoso relato, que acredito que será o derradeiro que o bom padre estará nos oferecendo. Porém, desejo lhes comunicar que, após o capítulo deste sábado, estarei apresentando mais um capitulo contendo relatos de minha própria lembrança, e que se referem ao período compreendido entre o término das atividades do então Seminário (1948), o início das atividades do Ginásio de São Vicente (1949), até o ano de 1956.

Eu aos 5 anos de idade
Estes, sete ou oito anos, compreendem, exatamente, o período da minha história, vivida na imponente FORTALEZA DOURADA, denominação que, pessoalmente e respeitosamente resolvi dar ao nobre estabelecimento de ensino, do alto da colina. Então, sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Padre Mendes, no capitulo do sábado passado, o amigo interrompeu seu relato no momento em que o senhor e seus ajudantes, voltando de uma acidentada caminhada, entre Fernandes Pinheiro e Iraty, adentraram ao Hotel Veiga, onde gentilmente ofereceu a cada um de seus companheiros de aventuras um generoso cálice de aguardente, despediu-se e foi para sua casa. Não é mesmo?

É isso aí, caro Araújo! Você esta certo, por isso vou recomeçar meu relato, exatamente, do momento em que adentrei em casa e me defrontei com as caretas de espanto do Nico e as exclamações da Dona Gertrudes, indagando o porquê da aparência lastimável, de andarilho esfomeado em que me encontrava. Toda a minha roupa, principalmente minha batina, estavam em petição de miséria. Apressei-me para me recompor, lavei-me e já estava por me deitar, quando D. Gertrudes me convidou para jantar. Mas que podia eu comer, prejudicado, como estava pelo cansaço?

- Uma cebola crua em molho de azeite e vinagre, regada com uma taça de vinho, foi toda a minha ceia. Quem se encontrar, como eu, em igual circunstância, experimente essa minha receita, e verá que é milagrosa.

Cebola crua

Pedi, então, ao nosso bem-aventurado criador que me dispensasse do Breviário e deitei-me. Sonhei a noite toda com regatos de águas frescas a serpentear como fios de prata através de prados esverdejantes. Quando acordei pela manhã, tinha uma sede abrasadora e duas missas para celebrar, uma às nove, na igrejinha da praça e outra às onze horas, na capela dos poloneses.

Alguém quer saber o que é o tormento da sede? Faça então a proeza que, pelo mal dos meus pecados, fui obrigado a fazer no dia 7 de novembro daquele ano da graça de 1926.

Porém, havia outro grande e importante problema ainda por resolver, era o dos tijolos para a obra. Os serviços iam absorver centenas de milhares de deles. Como arranjar esse material em boas condições de preço e qualidade?

Tínhamos inscritos, a titulo de donativos, cerca de duzentos e cinquenta mil. Mas sabíamos, muito bem, que só poderíamos contar com esses, depois que a obra começasse a inspirar confiança nos doadores. Antes disso, tínhamos de contar com nossas próprias iniciativas. As olarias existentes no Iraty, nessa ocasião, não podiam fornecer material suficiente para as nossas necessidades. A olaria mais próxima, com bastante capacidade para encomendas de vulto, era a de Entre-Rios, que ficava a cerca duas horas de estrada de ferro. Lembramo-nos, então, de ir até lá para nos inteirarmos dos preços e da qualidade do material. Era uma grande indústria cerâmica e seu produto era de excelente qualidade. Resolvemos, pois, o Padre Souza e eu, irmos á fábrica de Entre-Rios, como ela ficava cerca de 5 ou 6 quilômetros da Estação que possuía um desvio de linha que diminuía em dois ou três quilômetros esta distância, resolvemos conhecê-la.

Olaria Entre Rios

Apesar de que as composições de passageiros não parassem no dito desvio, falamos com o maquinista, molhamo-lhe a garganta com uns copos de cerveja e pedimos-lhe para que diminuísse a velocidade ao passar pelo local que, então, saltaríamos sem que ninguém percebesse. Viemos para o vagão de trás e ao avistarmos o desvio, arremessamos para fora nossas maletas e sem mais reflexão, jogamo-nos também, um para cada lado da linha. Nenhum de nós ficou em pé, ao tocar o solo. Eu sujei toda a batina, tendo-me lançado de face para baixo, para aparar o choque com as mãos fui arrastado de quatro pelo movimento da queda, por uma distância de uns quatro a cinco metros. Ganhei algumas escoriações nas mãos e as biqueiras dos meus sapatos ficaram bem deformadas, além de uma dor nos quadris da qual nunca me queixei a ninguém. O meu companheiro, muito menos pesado do que eu, não sofreu qualquer arranhão, ou pelo menos nunca se queixou de nada mais grave. Os salteadores das fitas do Far-West americano, nas suas aparatosas exibições, não fariam mais nem melhor do que o fizemos.

Far-West Americano

- Eita, mundão de meu Deus, quantas aventuras nossos religiosos tiveram de enfrentar para que atingissem o seu objetivo de nos oferecer um dos nossos mais importantes educandários. Não é mesmo, meus caros ouvintes? Mas, continue... continue... Padre Mendes, todos estamos adorando o seu relato.

- Estivemos na olaria, onde encontramos um patrício nosso a modelar em barro verdadeiras obras de arte. O gerente da indústria não estava, mas ficamos sabendo que os preços de seus produtos eram convidativos. Com sua habilidade habitual, o meu colega, padre Souza, ainda tentou persuadir o encarregado de que, doando-nos os tijolos de graça, ainda seria um alto negócio para a empresa, pois a nossa meritória obra religiosa/educacional serviria de propaganda para sua fábrica, no município de Iraty e região. O homem, no entanto, não pareceu convencido, mas foi extremamente amável conosco. Já era bastante tarde, e nós só estávamos com o café da manhã em nossos estômagos, sentamo-nos, então, na barranca da estrada e merendamos as pressas. Do lado sul soprava um vento de tempestades e as nuvens tinham coberto o sol por completo e estávamos a uns seis quilômetros do povoado de Entre-Rios. Apertamos o passo o quanto pudemos, mesmo assim à noite nos surpreendeu até que avistamos as primeiras tênues luzes das casas da vila.

Ao entrar no povoado, batemos na primeira porta que encontramos e perguntamos se por ali havia alguma estalagem para nos abrigar. Para nossa satisfação e resposta foi SIM. Seguimos então a indicação do informante seguindo em frente até nos depararmos com uma cancela fechada que dava para um quintal. A tempestade se aproximava rapidamente e nós não tínhamos se quer um guarda-chuva. Batemos palmas e apareceu na porta do rancho uma caboclinha que nos perguntou o que desejávamos.

- Queremos pousada até amanhã. Há quartos para dois? Perguntei.

A mocinha foi para dentro e voltou para nos dizer:

- Para dois não temos.

- Mas não haverá pelo menos duas camas livres?

A menina voltou novamente para o interior do rancho e retornou informando:

- Duas camas, temos sim. E de certo também querem jantar, não é mesmo?

- Isso, também, é do nosso agrado, pois estamos com um enorme apetite.

Qual, não foi nossa surpresa quando a rapariga, replicou:

- Pena, mas, jantar não temos mais.

- Esta bem, mas ao menos abra-nos a porteira, porque já começa a chover.

Tivemos apenas o tempo de entrar. Um trovão assustador ribombou atrás de nós e um aguaceiro caiu sem piedade.

Entramos para uma sala, que nos causou muito boa impressão. Deparamos-nos, então, com dois velhotes, marido e mulher, evidentemente estrangeiros, como dava para se notar pelas suas feições e pela fala. Sentamos em um banco, ao lado de um rapaz, viajante de uma casa comercial de Ponta Grossa. Após os comprimentos, perguntei:

- Então, não há nada mesmo para comermos? Arranja alguma coisa para saciarmos nossa fome.

- Não sei, vou ver – respondeu o velhote.

- Temos apenas alguns pães e banha de porco, serve?

- Bem – disse-lhe eu – temos aqui umas latas de sardinha, se vocês nos servirem os pães, estará tudo resolvido. Nada mais faltou, mas lá fora parecia que o céu se desfazia em trovões e terríveis jatos d’água.

Levantamo-nos no dia seguinte refeitos da véspera e bem melhores das dores causadas pelo arriscado salto que demos para desembarcar do trem. O tempo estava lindo. Depois do café dissemos que iriamos até a estação para nos informamos dos horários do trem que nos haveria de levar de volta a Iraty.

Volta para Iraty

- Não senhor, os senhores não podem sair sem pagar.

- Mas nós ainda voltaremos para o almoço e nossas malas ficaram aqui como garantia.

Depois de verificarem que deixaríamos as malas, não fizeram mais objeções.

Soubemos depois que o casal era russo e depositava pouca confiança em padres católicos.

Efetivamente, voltamos mais tarde para o almoço, após o qual meu colega e eu nos despedimos para seguir nossa viagem. Padre Souza, lembrou-se então de pregar uma peça nos velhinhos, perguntando-lhes a queima roupa:

- E o viajante? – Foi embora sem pagar?

Como que movidos por um choque elétrico, o casal levantou-se murmurando qualquer coisa que parecia ser uma praga russa muito comum em seu país de origem.

Pagamos honradamente a módica quantia da hospedagem e fomos para a estação, resolvidos a não relembrar mais os acontecimentos daquelas últimas horas. Esta viagem, aparentemente, inútil, levou-nos a convicção de que tínhamos de resolver o problema dos tijolos, em Iraty mesmo.

- Para grandes problemas, soluções caseiras, não é mesmo Padre Mendes. Tanto sacrifício e a solução teria de ser de casa mesmo.

- Pois é, corre pra cá, corre pra lá e tudo se resolve quando menos se espera.

Para os lados de Fernandes Pinheiro, a 25 minutos de viagem, havia uma pequena olaria manual, cujo material era bastante regular. O dono não se dera bem naquelas terras. Os negócios não corriam a contento e ele queria se desfazer da olaria e até já nos tinha feito algumas propostas por intermédio de um cidadão importante do Iraty e que era credor da pequena indústria. Este se prontificou a intermediar o negócio, pois ele era o único credor do oleiro.

Roda D´Água
Levamos lá uma pessoa de confiança para examinar o barro, que foi considerado muito bom. As instalações pouco valiam, mas ali existia uma roda hidráulica que nos pareceu mal aproveitada. Chegou-se ao preço e depois de nos termos aconselhado com gente amiga e entendida em negócios, resolvemos comprar a olaria. É possível que não tenha sido um negócio perfeito, mas o que é certo é que não havia outra solução para o problema. Contratamos um oleiro em Curitiba, que para cá veio com a família. Um homem sério que cumpriu com os seus compromissos. Já de posse da olaria, estudamos o caso da roda hidráulica e encontramos a solução para melhor aproveitá-la. Era uma bela peça que ali estava, mas faltava-nos o principal – a água suficiente para lhe fazer dar rendimento, próprio. Examinamos os arredores e a cerca de um quilometro encontramos água em abundância. Se conseguíssemos levá-la até o local, poderíamos produzir nossos tijolos automaticamente. A água dava ponto para o alto da roda, permitindo aproveitar-lhe todo o rendimento. Abriu-se uma valeta, que deu muito trabalho, despesas e canseira, mas a água nos chegou ao ponto exato que tínhamos calculado.

A roda movia-se com rapidez vertiginosa e nós precisávamos apenas de nove voltas por minuto em plena carga. Tínhamos resolvido um grande problema de hidráulica, mas não contávamos com as alternativas enganadoras das águas de superfície, cujo volume varia constante e consideravelmente com as águas que se precipitam do céu.

Tínhamos trabalhado em vão e foi necessário resolver o problema do amassador pela tração animal, mais lenta e mais cara, porém a única forma possível naquelas circunstancias.

Amassador de barro
Construíram-se novos barracões e montaram-se prateleiras para cerca de 20.000 tijolos. A olaria começou a funcionar em muito pouco tempo. O novo oleiro era inteligente e ativo. Melhorou as instalações, pôs tudo em movimento e, quando menos esperávamos, tivemos uma primeira fornada dos nossos preciosos tijolos caseiros.

Quando nossos pretensos doadores de tijolos viram a nossa olaria funcionar e os tijolos a se amontoar nas prateleiras e no local da obra, pensaram logo em cumprir suas promessas de doações espontâneas.

O sr. Caetano Zarpellon, tendo encontrado barro de boa qualidade na sua propriedade do Iraty Velho, improvisou uma olaria para nos fornecer o material que nos prometera e dentro em pouco as suas carroças, que estavam paradas devido a crise da madeira, começaram a carretear milhares de excelentes tijolos até a nossa obra. O sr. João Batista Anciutti segui-lhe o exemplo, mas devido a quantidade de barro que tinha a disposição, foi menos bem sucedido e acabou por comprar da nossa própria olaria os tijolos que nos prometera, ajudando-nos duplamente com essa iniciativa. Outros doadores, embora de menor vulto, seguiram o exemplo do sr. Anciutti, comprando os tijolos de suas doações, quer na olaria do sr. Zeferino, como na nossa também. E com tudo isso estavam então garantidas as paredes que deveriam abrigar as futuras gerações de religiosos de Iraty e de toda a região.

E como num bom passe de mágicas, ergueu-se o nosso tão querido EDUCANDÁRIO DE SÃO VICENTE DE PAULO.

Parabéns padre Mendes e todos os demais idealizadores desta grande obra educacional, que ainda em nossos dias, serve a nossa população de Irati e região.

Sonho realizado

Mas, meus prezados ouvintes, ainda me resta lhes contar um capitulo desta apaixonante história de amor e dedicação por Irati, agora já com “i”. O capitulo a que me refiro, o VI desta odicéia educacional, muito me diz respeito, e reporta-se ao período compreendido entre o término das atividades vocacionais da Escola Apostólica, que se deu ao final do ano de 1948, abrangendo ainda o início das atividades do Ginásio de São Vicente de Paulo, ocorrido no princípio do ano letivo de 1949 até o ano de 1956, quando a primeira turma ginasial formou-se na FORTALEZA DOURADA. Neste período de, aproximadamente seis ou sete anos é que a minha história pessoal foi vivida dentro das paredes construídas por padre Mendes. E para que eu possa honradamente tomar a palavra do senhor Pe. Mendes peço-lhe licença. E a meus ouvintes a paciência para me escutar, na próxima semana, contar-lhes a minha própria história como aluno do COLÉGIO DE SÃO VICENTE DE PAULO da minha querida IRATI. Até sábado!
 


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