Matérias / Irati de Todos Nós

10/05/16 - 14h23 - atualizada em 10/05/16 às 16h50

Escola Apostólica de São Vicente de Paulo - Capítulo VI

José Maria Grácia Araújo 

Muito bem, meus prezados ouvintes, chegou o momento de me incluir no enredo desta maravilhosa história, que hoje chega a seu VI CAPÍTULO. História esta que, até o capitulo de sábado passado nos foi, brilhantemente, relatada pelas memórias do Padre Sebastião Mendes, benfeitor e condutor das obras da ESCOLA APOSTÓLICA DE SÃO VICENTE DE PAULO, hoje GINÁSIO DE SÃO VICENTE DE PAULO, a minha inesquecível FORTALEZA DOURADA.

Fortaleza Dourada

E para que minha participação pessoal nesta belíssima história seja delimitada pelo exato período de tempo que frequentei o referido estabelecimento de ensino, ou seja, do final do ano de 1948 até o final de 1956, somando oito agradáveis anos de aprazível e venturosa convivência com uma significativa parcela da juventude iratiense, daquele saudável e romântico passado. Então sem mais delongas, quero desejar-lhes o MEU BOA TARDE, com muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

Estávamos ao final do ano de 1948. Ecos do estrondar das bombas da 2ª guerra mundial ainda podiam ser ouvidos por todos os cantos e recantos do nosso BRASIL. Irati havia cedido, aproximadamente, 40 de seus mais valentes jovens cidadãos, para lutarem em terras italianas, pela paz e pela liberdade mundial. Alguns se tornaram heróis. Poucos voltarão e muitos foram reverenciados pelo seu patriotismo e lealdade a nossa pátria amada BRASIL.

Tia Mariquinha e Tio Trajano
2ª Guerra Mundial











Porém, como nem só a violência e a tristeza contribuíram para a formação da sociedade iratiense daqueles terríveis anos. Cumpre-me, portanto, com muita modéstia, mas, com o coração repleto de belas lembranças, contar-lhes a minha própria história, de oito maravilhosos anos, passados e repassados na FORTALEZA DOURADA, do alto da Rua 24 de Maio.

- TUDO COMEÇOU ASSIM:

“Minha querida tia Olivia Maria Anciutti Grácia, também conhecida como TIA MARIQUINHA, recém enviuvara, de Tio TRAJANO GRÁCIA. Eu José Maria Grácia Araújo, já conviverá com os meus tios, Trajano e Mariquinha, desde os meus seis meses de vida até completar seis anos de idade.

Religiosa ao extremo, Tia Mariquinha, ainda sobre o abalo da perda de seu querido esposo Trajaninho, dividia-se entre o apoio a comunidade menos favorecida do seu querido Riozinho e Gutierrez e a sua extrema vocação religiosa. Na ocasião, alem de estar se dedicando de corpo e alma pela construção do seminário Santa Maria do Riozinho, hoje Unicentro, ela também, estava envolvida com as mudanças nas funções da ESCOLA APOSTÓLICA, que, no início de 1949, passaria de Seminário para Ginásio SÃO VICENTE DE PAULO.

E é, justamente, neste momento que EU, Zéca Maria, como era mais conhecido á época, entro em cena.

Era, creio eu, mês de julho de 1948, restava apenas, mais cinco ou seis meses de vida ao então Seminário São Vicente. A partir de então, seria transformado e Ginásio Estadual, conservando, como complemento de sua identificação, o nome SÃO VICENTE DE PAULO. Nascia, então, o Ginásio Estadual de São Vicente de Paulo.

No entanto, naquele mês de julho, após ter sugerido a meus pais de que eu poderia seguir a vocação sacerdotal, Tia Mariquinha os convenceu a me matricularem no, ainda Seminário, na esperança de um dia, no futuro, me verem ordenado sacerdote.

Eu aos 5 anos de idade
Permaneci, em convivência com muitos dos seminaristas, ainda durante os cincos últimos meses daquele ano de 1948, quando então, todos os seminaristas remanescentes foram transferidos para o Seminário do Caraça.

Minha Primeira Comunhão
Frequentei o curso de preparação para minha primeira comunhão e, no início de 1949 aconteceu a cerimônia em que comunguei pela primeira vez na minha vida.

Porém, como todos vocês, meus prezados ouvintes, podem deduzir a brilhante ideia de minha tia e meus pais de me tornarem um noviço não prosperou e foi tudo por água a baixo. Mas permaneci no novo educandário por mais sete anos e alguns meses. E é sobre esse período que quero vos falar. Acomodem-se em suas cadeiras preferidas, fechem seus olhos e me acompanhem nesta aventura vivida por um “moleque” de apenas oito anos, no misterioso e fascinante EDUCANDÁRIO SÃO VICENTE DE PAULO.

Inicialmente, por mais ou menos, dois anos obedeci o regime de internado. Para aqueles que não estão familiarizados com a condição de um aluno interno em um estabelecimento de ensino, devo lhes dizer que compreende o regime em que o jovem estuda, come e dorme no seu local de ensino, só saindo para visita a seus pais e familiares em finais de semana ou em datas previamente estabelecidas.

Prisão? Reformatório? Castigo? NÃO! Nada disso, muito pelo contrário, pelo menos para mim e muitos de meus colegas da nossa querida FORTALEZA DOURADA, estávamos lá soltos, livres como pássaros, alegres e brincalhões como todos os jovens saudáveis daqueles anos 50. Tínhamos responsabilidades, é certo. Estudos, missas e novenas, apurada disciplina e tudo o mais que um estabelecimento de ensino, dirigido por padres, impõe a seus alunos. Mas, meus queridos ouvintes, nos momentos livres que tínhamos e que não eram poucos, vivíamos em perfeita harmonia com a exuberante natureza que circundava o colégio, com inúmeras brincadeiras que os sacerdotes nos propiciavam e outras tantas que nós mesmos as levamos lá para dentro dos muros do colégio e que as desenvolvíamos, livres e em perfeita harmonia de companheirismo.

Livres e Felizes
 Mas sobre tudo isso, quero me aprofundar na sequencia desta minha explanação. Continuem me acompanhando... Sigam-me, por favor.

Seis horas da manhã, acordávamos em nosso dormitório com a batida de palmas de um dos padres da congregação. Por vezes, padre Lima, em outras, padre Nicolal, padre Ruy, padre Motta, padre Marcelo, entre outros.

- Acordem preguiçosos! Está na hora de levantar. Ao lado de suas camas, me acompanhem para rezarmos um padre nosso em agradecimento a Deus pelo dia de ontem e pedir suas bençãos para o dia de hoje. Lavem-se e desçam para o refeitório, para o café da manhã e depois para a capela, para as orações matinais.

Após, todas estas práticas religiosas, intercaladas por um bom caneco de café com leite, manteiga e mel no pão do Wasilewski, lá iamos nós para o páteo a espera do inicio das aulas do dia. Uns quinze ou trinta minutos de muitas brincadeiras e seguíamos nós para nossas salas de aula.

Ludus Primus
Aí, então, mesclavam-se, sacerdotes e civis a nos ministrarem aulas de Português, Matemática, história do Brasil e Mundial, Geografia, Educação Moral e Cívica, Ingles, Frances, e... O terror de todos nós, todo ele distribuído em páginas e páginas dos abomináveis LUDUS PRIMUS, LUDUS SECUNDUS E LUDUS TERCIOS, acho que era mais ou menos esses os nomes dos terríveis livretos que nos faziam conhecer um pouco do LATIM, muito comum no curriculo escolar da época.

Das sete às déis horas, três aulas e uma folguinha para o recreio. Saíamos da sala de aulas feito uma manada de búfalos, querendo chegar logo ao pasto para nos reunirmos com o restante do grupo.

Bolinha de gude, bete ao ombro, peteca, jogo de galo, entre outras brincadeiras mais que eram atração entre a molecada de oito a doze anos. Os mai velhos, iam bater uma bola nos vários campos de futebol, volei e basquete que existiam no colégio.

Como passavam rápidos aqueles 15 a 20 minutos de intervalo. Más, a final, estávamos alí para brincar ou estudar?

- A próxima aula vai ser de latim, lembrava um de nós. Bem que o padre Motta poderia ter viajado lá pra minas, visitar a sua família, completava outro, dizendo que não tinha estudado as “declinações”.

- Se ele não viajou temos ainda o recurso do alçapão, é só estarmos preparados e fugirmos por ele e irmos para a “cachoeirinha” do bosque São Francisco jogar “truco” e só voltar para a aula do Prof. Evaldo Rocha, que é bem mais gostosa. 

Cachoeirinha do Bosque

- Bem, meus amigos, esta história do alçapão é um dos segredos mais ocultos da nossa passagem pelo São Vicente. Eu vou lhes revelar, em parte, mas com a condição que vocês não comentem com nenhum dos atuais alunos do Colégio. Fechado?

Então, vamos lá. A primeira sala de aulas à direita, logo após o hall de entrada e as secretaria do colégio, possuía um alçapão que dava para um porão, todo de pedras brutas, onde eram guardados muitas relíquias históricas e arqueológicas. Aos fundos deste porão havia uma saida que se integrava com o início da vegetação que seguia até o bosque da cachoeirinha. Era. Vapet e vupet, e desaparecíamos da sala de aulas e nos refugiávamos na mata. Padre Motta só tinha a reação de, ao entrar na sala, exclamar: “Pucha! Como veio poucos alunos para a minha aula de latim de hoje!”. Só os “CDF”, e que não eram poucos, é que respondiam positivamente com sua presença á aquela aula tão apavorante. Mas, lembrem-se do nosso trato, presados ouvintes. Nada de deixar vazar este segredo para possíveis, atuais alunos do São Vicente. Porém, aqueles que quiserem verificar a existência do alçapão é só seguir as indicações que acima mencionei.

Depois de uma hora de trucadas e retrucadas, piadas e causos, sorrateiramente, fazíamos o caminho de volta, abriamos a tampa do alçapão e, como verdadeiros anjinhos, esperávamos o próximo professor adentrar a sala de aula, como se nada tivesse acontecido. “Bom dia professor Jorge Garzuze, o que o senhor vai dar hoje em sua aula de geografia?”

Prof. Jorge Garzuze

O sino batia, então, próximo do meio dia e a manada de búfalos já estava mais que preparada para “vazar” do potreiro. Nesta época eram três os regimes de frequência escolar no São Vicente. Os internos, como eu, que ao soar do sino do final do período matutino de aulas, ia para o páteo para aguardar o horário do almoço. Os semi-internos, que procediam da mesma forma, só que após os estudos da tarde, voltavam para suas casas e os Externos, que este era o momento de debandar por completo das dependências do educandário. Iam para suas casas e só voltavam no dia seguinte pela manhã. Entenderam?

Nós internos, como também os semi-internos, tínhamos, logo após o almoço um período denominado de “estudos”, durante o qual voltávamos todos juntos para um enorme salão, onde permanecíamos, até mais ou menos as 15 horas, estudando e fazendo nossas lições a serem apresentadas no dia seguinte. Junto com esta grande turma ficava um dos padres a fim de manter a disciplina.

Às 15 horas saíamos para o lanche da tarde, descansamos um pouco, para que o café descesse e... Vinha uma das melhores atrações dos nossos dias de felizes enclausurados. Munidos de grandes câmaras de ar, nossos longos e descorados calções de banho, em fila, sob a vigilância de um dos padres que, frequentemente era o padre Nicolau, lá iamos nós para nossa piscina, como chamávamos, o grande açude que ficava ha uns mil metros, para cima do colégio.

Tanque (Piscina)

Estão bem nítidas, em minha já cansada memória, as lembranças destes maravilhosos momentos de liberdade e felicidade que, ainda hoje, me causa palpitações de alegria em meu coração. Mergulha daqui, mergulha dali. Saltos acrobáticos, em pé e de cabeça para baixo. Brinca-se de pega-pega e de arremesso de bolas. Até o nosso vigilante, vestido com um daqueles maios masculinos de antigamente que só deixava os braços de fora, se arriscava a dar alguns mergulhos. Mas nunca tirando os olhos dos mais afoitos.

Quando estávamos no melhor de nossas brincadeira, um estridente apito... PI...pi...pi...pi, todos para fora da água, esta na hora de retornarmos as nossas responsabilidades. O último que sair da água tem de passar pelo corredor das batatas. Esta prática era muito temida por todos. Aquele que saísse da água por último, tinha de passar por um corredor formado por seus colegas, mais espertos, que davam grandes nós em suas camisetas e debulhavam pancadas no infeliz retardatário. Tudo fazia parte de nossas saudáveis brincadeiras e disputas. Ninguém reclamava.

Regressávamos, então, ao nosso dormitório, tomávamos um bom banho quente e, já era então 18 horas da tarde. Uma boa sopa de legumes ou de feijão, como jantar e então as atividades ludicas ou culturais que nos eram reservadas para antes de dormir.

Padre Rui, Padre Lima, Padre Nicolau, Padre Marcelo - contadores de histórias
Padre Rui











Os Padre Rui, Lima, Nicolau e Marcelo, em certas noites de luar reuniam o grupo de alunos de internos, em um carramanchão que ficava ao lado do prédio do colégio e, a luz do luar, contavam-nos belíssimas histórias de capa-e-espada que envolvia as Cruzadas, os Mosqueteiros, Rei Artur e todos aqueles maravilhosos contos que embalaram nossas infâncias e juventudes, e só paravam quando notavam que muitos de nós já estávamos bocejando de sono. Então era chegada a hora de uma rápida passagem pela capela, para a derradeira oração da noite e... Cama. Escovávamos nossos dentes, nos lavávamos rapidamente para nos aninharmos dentro de nossos lençóis e cobertores. Eita Mundo Bom!

Outras atividades, extracurriculares, também merecem algumas observações de minha parte.

No São Vicente os esportes eram muito praticados. Futebol de campo, volei e basquete eram os mais comuns, no entanto outras modalidades esportivas mais, também, eram praticadas em nosso meio. A educação física, por exemplo, sempre foi uma atividade imprescindível naqueles tempos. Recordo-me que nosso professor, para esta modalidade de esporte, era o comandante do destacamento de bombeiros de Irati, o Sargento Marques. Eram quase duas horas de inúmeros exercícios físicos, que nos deixavam quase que extenuados por completo. Mas era gostoso e salutar para todos nós. 

Educação Física

Os arredores do São Vicente, nos anos em que lá estive, era ainda rodeado por muitos bosques gramados e até matas nativas com árvores de grande porte. Recordo-me que uma das brincadeiras que praticávamos, logo a tardinha quando o sol começava a se por, era de mocinho e bandido. Espaços não faltavam para nos esconder e representar acirrados tiroteios entre os bons e os maus, os xerifes e os pistoleiros fora da lei. Estas brincadeiras eram sempre supervisionadas por algum dos padres do colégio, que formulavam as regras e dirigiam o tempo todo as nossas alegres brincadeiras.

 - Mãos ao Alto! Você esta preso e vai para a cadeia. A noite caia e os mocinhos quase sempre levavam a melhor, extirpando os maus feitores da face da terra.

Prontos para festa
Haaa! Sim! Estava me esquecendo. Quando aconteciam as principais festas religiosas, comuns em nossa cidade, naqueles tempos. Tais como: Festa de São Miguel e Festa de Nossa Senhora da Luz, lá íamos nós, internos, em alegres grupos, lá pra cidade. Sempre vigiados de perto por um padre, em nossas roupas de passeio, de barriga cheia e benzidos na capela, antes de sairmos, íamos festejar o santo juntamente como a população de Irati.
Minha foto de formando

Até as 10 ou 11 horas da noite, nos esbaldávamos visitando barraquinha por barraquinha, fazendo respeitosos galanteios para as meninas conhecidas que por ali encontrávamos e até arriscávamos em uma cartela ou outra do sorteio do frango ou da vispora. Quando alguém de nós ganhava era obrigado a dividir o frango ou os “mil reis” arrecadados. Ai daquele que assim não procedesse, no dia seguinte enfrentava o corredor das camisetas com nós bem grandes e firmes.

Permaneci como aluno interno do São Vicente até, aproximadamente, o final do ano de 1952, ocasião em iniciei meu curso ginasial. Me formei em 1956, juntamente com mais 17 de meus mais importantes colegas de estudos Vicentinos. 

Sergio Gomes, Eziquiel Gomes, Jeca Pessoa, Nego Pessoa, Viquinho, Julio Lisboa, Tózinho, Pio, Joãozinho Anciutti, Joãozinho Dallegrave, Rubens Borazo, Carlos Cezepanski, Fazano, Rezende, Eloi Piçaia, Melado, Canário, Catanke, Neno Anciuti, João Anciutti e tantos e tantos outros jovens iratienses que me acompanharam nesta aventura lá pelos anos 40 e 50. “Quanta saudade, meu Deus”.

Quadro da minha Formatura - 1956

Meus queridos e prezados ouvintes, não sei não, se não vou ter de editar mais um ou dois capítulos desta maravilhosa aventura coordenada por São Vicente de Paulo. Acredito que posso ter deixado muitas outras coisas de fora, deste meu breve relato. Se assim o for, lhes prometo que assim que reunir todas as minhas demais lembranças que, por ventura, ficaram de fora e ai, então, voltarei ao assunto oportunamente. Bem por hoje é só isso. Até o próximo sábado, que aqui estarei para trazer-lhes sempre um pouquinho mais da história da nossa terra e da nossa gente. Até lá.


Comentários

Enquete

Reforma da Previdência

  • Nenhuma das respostas
  • Não deve mexer nos que ganham menos
  • Não é necessária
  • Deve ser ampla
Resultados