Matérias / Irati de Todos Nós

06/03/12 - 22h05 - atualizada em 06/03/12 às 22h06

Médico de família IV

O Programa Irati de Todos Nós é idealizado por José Maria Grácia de Araújo e vai ao ar pela Najuá AM, todos os sábados, às 14 horas
Por vezes acontecem coisas muito curiosas em nossas vidas. Há mais de cinco anos possuo, em minha estante, o livro MEDICO DE FAMÍLIA, do Dr. Fornazari.
Esporadicamente, já o pequei a fim de folheá-lo para ler algumas de suas páginas, porém, confesso: Em nenhuma dessas oportunidades o fiz com a intenção de lê-lo por completo.

Isso somente veio acontecer, após haver decidido utilizar-me de parte do seu conteúdo em alguns de meus programas e, então, eis que se me abriram as portas de uma nova realidade daquilo que, realmente, considero ser a “verdadeira” missão de um médico - A medicina do respeito, da dedicação e do amor pelo ser humano.

Livro Médico de família – A venda na Banca do Cavalim


Obrigado Dr. Fornazari, por nos ter legado este precioso compendio no qual o senhor soube muito bem reunir todos os “mandamentos” que o levaram a ser, durante toda a sua vida profissional, o nosso insubstituível e inesquecível MEDICO DE FAMÍLIA.

Meu boa tarde a todos, sempre lhes desejando muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

E agora, Dr. Fornazari, para alegrar um pouco a conversa nos conte mais um de seus “causos”.

Pois é Zé Maria, contar causos sempre foi, depois da medicina, a minha segunda maior satisfação na vida. Por isso vamos lá:

O CUMPADRE CHICO

Certo dia ensolarado um caboclo chegou à casa do seu compadre e foi logo entrando. Ficou surpreso, pois quem o atendeu não foi a comadre Ana, e sim um pessoa desconhecida.
- Bastarde minha sinhora, perciso falá cum o cumpadre Chico.
- Ele num tá, não sinhor. Pra morde te indo no interro...
- Interro é? I será que eli dimóra prá vortá?
- Ói, inté acho qui eli num vai vortá não... Poi ele foi é de defunto, seo!

Pois é, Dr. Fornazari, esse não deve ter voltado mais, não.

Mais, dexando os defunto sussegado, quero lhe pedir Dotor, que nos conte como era, realmente, praticada a Medicina de Família naqueles indos e bons tempos da nossa Irati cinquentona. Mostre a todos os ouvintes deste programa “Irati de Todos Nos” porquê a medicina praticada nos velhos moldes do MEDICO DE FAMÍLIA, jamais, deveria ter deixado de fazer parte das nossas vidas.

Bem, Zéca Maria, sendo para os ouvintes do teu programa, tenho muita satisfação em descrever, detalhadamente, aquilo que considero ter sido a função de um antigo e verdadeiro MÉDICO DE FAMÍLIA e, por conseguinte, a forma como eu próprio atuei por toda a minha vida profissional.

Medico de família


ESPECIALISTA EM TUDO

Zé Maria, falar sobre médico de família, para aqueles que viveram as primeiras décadas da vida iratiense, é até uma redundância. Afinal, todos os médicos de então eram de família, até aparecerem os especialistas. A medicina, então, foi “fatiada” como uma melancia. Cada especialista passou a saborear uma de suas fatias, porém, talvez pouco ou nada sabem sobre a melancia inteira. Entretanto, espero que falar sobre a minha experiência como médico de família que fui, inspire os médicos atuais em suas respectivas especialidades, como também pessoas de outras profissões atualmente compartimentadas.

Nos dias de hoje já não é mais viável a existência de um típico médico de família, porque esse tipo de profissional tem de ser tudo ao mesmo tempo. Eu era; me preparei para isso! Até dente eu extraia! Eu fui um médico da caridade.

O médico de família, típico de uma era romântica, não se atinha somente às patologias das famílias que o acolhiam, ele tinha também um dever sentimental, um dever de promover tudo que fosse possível para que elas fossem felizes, dando conselhos, dando apoio em horas difíceis. Esse profissional ganhava a confiança da comunidade, tornava-se repositório até de questões íntimas, de problemas não necessariamente ligados à saúde.

Havia casos em que era chamado para atendimento de alguma doença, mas após algum tempo de conversa em particular com o paciente, descobria que o mesmo não estava doente, mas endividado. Houve um caso em que um compadre meu estava mal, tinha insônia, não tinha apetite, não se encontrava disposto para trabalhar, não tinha ânimo para viver. De nada adiantaria enche-lo de remédios. Apliquei-lhe, então, uma boa dose de “salivoterapia”.

Meu compadre foi, então, se abrandando e, finalmente, me revelou que tinha uma dívida que o atormentava. Ele havia feito um empréstimo em um banco e não tinha condições de quitá-lo. Daquele tipo: (Se não paga, perde a propriedade). Ele chegou ao extremo de me confidenciar que pensava em tirar a própria vida. Dei-lhe muitos conselhos motivadores e já sabendo que o homem era honesto e trabalhador, não tinha vícios e que apenas era atrapalhado nos negócios, através de amizades que tinha, consegui sensibilizar o banco para negociar a sua dívida. Demos uma ajuda ao compadre e, felizmente ele conseguiu se safar do problema que, supostamente, era de saúde.

Mas, pra que conseguisse tudo isso, Zé Maria, ralei muito até conquistar a confiança deste povo de Deus. Depois, com a liberdade que aos poucos eu conquistei, podia sentir e descobrir outros problemas existentes na população, não somente aqueles referentes à saúde física e orgânica de cada um.
Eu sempre era procurado como conselheiro familiar, mediava desajustes entre parentes e aconselhava rapazes e mocinhas que, porventura, não estivessem procedendo corretamente, entre muitas outras questões do gênero. Na Paróquia de São Miguel, fui palestrante no curso de noivos durante, mais ou menos, uns dez anos.

A família é a unidade essencial da sociedade; é ela que tem de estar bem estruturada e que deve ser preservada. Com a família vivendo em condições dignas, toda a comunidade funciona bem. É uma coisa lógica, mas parece que isso esta cada vez mais difícil. A família que tem dificuldades para cuidar dos filhos pode acabar vendo-os se desviarem para o mal, enveredando para o mundo do crime e, assim, tornando-se perigosos para apropria sociedade.

- Quanta sabedoria social o senhor professou, Dr. Fornazari. E o senhor nem era sociólogo ou educador e sim um médico. Como isso pode acontecer?

Pois é, Zé Maria, filho do meu querido amigo Primo Araújo, tudo isso eu consegui pela minha sensibilidade e introduzindo-me na vida dos moradores urbanos e dos colonos dá área rural, de tal maneira que chegava até participar de suas vivências em questões humanas, sociais, religiosas, deixando ainda um espacinho para aplicar o meu conhecimento médico.

Desde o momento em que cheguei a Irati, graças a Deus, todas as vezes que fui procurado para algum atendimento médico houve uma enorme receptividade por parte de todas as famílias iratienses.

Com o passar do tempo, fui aumentando, cada vez mais, o número de famílias que atendia devido, principalmente, à conquista do respeito por parte dos mais velhos, aos quais eu refletia uma imagem de integridade, continuando assim a atender as gerações vindouras dessas famílias, sempre dentro dos princípios da caridade, do amor e do entendimento. Eu atendia especialmente ao que considero as “duas pontas” da vida: a criança e o idoso.

Eu atendia crianças e isosos


- Doutor nos fale um pouco sobre o seu grande circulo de comadres e compadres, pois me parece que o senhor é um dos campeões mundiais em número de afiliados e afiliadas, por esse Irati a fora!

Isso eu não posso negar, Zéca Maria, foram muitas comadres e compadres ao longo da minha carreira como médico e homem público, que fui. Fiz incontáveis partos e, geralmente, eu mesmo batizava os bebes nascidos pelas minhas mãos. Havia uma instrução da própria Igreja de que não se devia deixar nenhum cristão sem batismo, e me instruíram como deveria proceder em partos que atendia: Quando a criancinha apontava a cabecinha para sair do ventre de sua mãe, eu deveria dizer “Eu te batizo em nome de Deus e em nome de São Luiz”. Com isso caso a criança viesse a falecer por complicações do parto não ficaria sem o seu batismo. E desse modo, ouvintes da Radio Najuá, eu já me tornava compadre dos seus pais e, depois, era só ir até a igreja oficializar aquele meu ato inicial, aquele meu primeiro gesto de ligação com a criança e seus familiares.
Não sei bem ao certo, quantos afiliados em tenho por esse mundão a fora, mas deve ter passado de mil. Minhas comadres, com isso, foram se tornando minhas pacientes, não apenas, em obstetrícia e ginecologia, mas também, em outros problemas de saúde. Quando havia alguém doente em suas casas, essas comadres me auxiliavam no meu trabalho, trazendo bacias com água e panos. Tornaram-se minhas “assistentes”

- A historia de sua vida como MÉDICO DA FAMÍLIA deveria ser conhecida por todos, Dr. Fornazari. Não só por nós, iratienses, mas também, por aqueles que amam o seu próximo, que gostam de dar de si, antes de pensar em si.
Mas, doutor, uma pergunta ainda esta no ar: Toda essa sua dedicação profissional lhe rendeu bons resultados financeiros?

Pois é, Zéca Araújo, eu nunca fiz muita questão por dinheiro. Eu tinha um emprego fixo que já me possibilitava um ganho suficiente para a subsistência da minha família. Então, eu realizava as consultas e os meus pacientes é que faziam o preço e me davam aquilo de queriam ou podiam. Para alguns eu até passava a receita com uma recomendação escrita em seu verso instruindo o farmacêutico a debitá-la em minha conta. Porém, para isso eu contava, também, com o apoio inestimável de João de Mattos Pessoa, proprietário da Farmácia Pessoa. Ele, como eu, também era uma pessoa com um “coração de manteiga”, nunca cobrava os remédios fornecidos á pessoas carentes.

Por outro lado, as oferendas que eu muitas vezes recebia das famílias, como forma de pagamento pelas minhas consultas, eram para mim de grande valor, pois eram dadas de coração. Eram galinhas, abóboras, sacos de batatas, leitõezinhos e outros presentes. E se eu os rejeitasse, meus pacientes ficavam muito ofendidos, pois consideravam que estava tirando deles o prazer de contribuir, de alguma forma, para expressarem a sua gratidão.

Então, Zé Maria, minha vida de médico de família foi traçada dessa forma e a motivação que eu tinha era a de servir, de trabalhar incansavelmente com o intuito de eliminar o sofrimento de meus irmãos. Isso, para mim, era uma missão, que eu cumpria com imensa satisfação.

- Lembro-me, Dr. Fornazari, que por volta de 1960, mais ou menos, fui operado de apendicite, pelo senhor, no antigo e extinto Hospital de Caridade São Vicente de Paulo e, depois de ter escutado todo esse seu relato sobre galinhas e porquinhos como retribuição de seus atendimentos, eu lhe pergunto: Como foi que o meu pai Primo Araújo, pagou ao senhor o atendimento de minha operação?

Só posso te dizer o seguinte, Zé Maria, o Primo que sempre foi mais um grande amigo meu, do que um cliente, ao qual atendi por quase todo o tempo que cliniquei em Irati e até o seu falecimento, sempre soube valorizar muito o meu trabalho profissional. Tenha certeza, seu atendimento, naquela ocasião, me foi pago da maneira convencional. Mas se ele tivesse me oferecido um de seus quadros, eu aceitaria sem nenhum arrependimento.

- Ufaaaaaaaa! Ainda bem doutor, pois, que me lembre, nunca tivemos qualquer tipo de criações em nossa propriedade.
Mas vamos em frente nessa nossa conversa, pois, acredito que todos os ouvintes do programa estão acompanhando com muito interesse os seus relatos.

Espero que sim, Zé Maria, e por isso me sinto muito a vontade e continuar dizendo:

Já, no início da minha atuação em Irati, criei uma clinica para atender indigentes que perambulavam pelas ruas da cidade. Nessa época, passei a atender, também, no setor de pediatria da Legião Brasileira de Assistência – LBA. Logo depois fui convidado para trabalhar no Hospital de Caridade São Vicente de Paulo como funcionário da Saúde Pública do estado do Paraná.

Nesta época havia na área da saúde uma escassez de materiais, então fiz uma campanha pedindo doações que não fossem em dinheiro, mas em utensílios. Preparei uma relação do material cirúrgico que precisávamos, discriminando detalhadamente suas características e marcas que apresentassem o melhor custo-benefício possível.

Legião Brasileira de Assistência – LBA


A Maçonaria de Irati nos doou, então, 16 contos de réis, em materiais hospitalares de ótima qualidade, feitos em aço sueco, o que tinha de melhor para a época. Eram pinças, tesouras, agulhas, etc.

Usávamos, também, no hospital as famosas cataplasmas, que eram feitas com fubá, aquecido em uma frigideira e colocada em panos, os quais eram aplicados na região afetada do paciente. Esse método nos ajudou a curar, principalmente, muitos problemas de pneumonias.

Usamos, também, as célebres ventosas e para isso tínhamos uma grande coleção de campânulas de diversos tamanhos. Colocávamos dentro delas pedaços de panos, embebidos em álcool e acendíamos a chama e a aplicávamos sobre o local dolorido do paciente. Por incrível que pareça, todos os tipos de dores eram aliviadas, principalmente, as musculares.

Pelo visto, Dr. Fornazari, estes tempos, do início dos anos 50, foram muito difíceis para as atividades clínicas em Irati. O senhor pode nos dizer se outros médicos, com o seu nível de dedicação, também, atuaram em nossa cidade, naqueles anos?

Há! Sim! Tivemos em Irati, pelo menos, um outro médico que foi muito importante para a saúde do município e da região. Ildefonso Zanetti, que foi meu colega de turma. Formamo-nos juntos na Universidade do Paraná e eu o convidei para vir trabalhar em Irati, onde ele, também, tinha alguns parentes. Ele era muito dedicado e amava a obstetrícia. Acredito, até, que ele fez mais partos do que eu.

Ele também queria exercer a ginecologia e obstetrícia, como eu, porém, as mulheres daquele tempo evitavam consultar com médicos jovens e solteiros, ou por receio próprio ou de seus cônjuges. O fato era que isso acontecia na maior parte das vezes. Eu, como já possuía alguma tarimba com toda aquela minha experiência obtida em meus anos de faculdade, encontrei uma maneira de fazer os exames ginecológicos, com auxilio de minha esposa Leny. Assim, ninguém podia levantar suspeitas a meu respeito. O que não acontecia com o meu amigo Zanetti, pois ele ainda era solteiro. Ele, também, era um médico que ajudava a comunidade e um grande companheiro meu nas campanhas de saúde e, mais tarde, acabou sendo conduzido para a política, sendo eleito prefeito de Irati no final da década de 60. Foi quando iniciamos a pensar na construção de um novo hospital para Irati, pois o que existia já era muito velho e pequeno. Nós queríamos mais clinicas, mais leitos, mais espaços, por isso, providenciamos as plantas e os estudos técnicos para a construção de um hospital que atenderia satisfatoriamente a demanda do município e da região. Ildefonso Zanetti foi um cidadão muito importante para Irati e merece sempre ser lembrado pela nossa comunidade.

Realmente, Dr. Fornazari, o Dr. Zanetti, como o senhor, foi de uma grande importância para o nosso município, como também, para toda a nossa região, isso tanto na sua atuação como médico, como também, como cidadão e político, prefeito de nosso município. Seu convide para trazê-lo até nós, foi muito providencial, Dr. Fornazari.

Bem, Araújo, mas nem tudo que reluzia era ouro, naqueles tempos. Tínhamos as nossas dificuldades de ordem pessoal, como também, profissional. Estando em Irati, havia dificuldade para participarmos de cursos de atualização. A demanda era muito grande para a área de clinica geral e principalmente de obstetrícia, pela quantidade de gestantes que demandavam exames pré-natais. Essas mulheres ficavam preocupadas e até desesperadas quando, nós médicos, viajávamos, pois, temiam por problemas durante as nossas ausências. Era uma situação difícil, porque após a nossa assistência no pré-natal, o que infundia na gestante uma grande confiança em nosso trabalho, por vezes não podíamos estar presentes durante o parto.

Aí, então, surgia novamente a necessidade de aplicarmos na paciente uma boa dose de “salivoterapia” que, invariavelmente, muito ás acalmava.

Dr. Fornazari e sua equipe de trabalho


Ho! Zé Maria! Vejo que você esta olhando com insistência para o relógio da parede. Será que isso quer dizer que o nosso tempo de “prosa” de hoje esta chegando ao fim?

- É quase isso, Dr. Fornazari. Mas os nossos ouvintes estão esperando o seu “causo” de encerramento do programa, e acredito que o Magu, vai nos dar um pouquinho mais de tempo, para não frustrarmos os amigos e amigas que nos ouvem, não é mesmo?

Isso é a última coisa que eu quero, Zé Maria. Não vou deixar os teus ouvintes a ver navios, ou melhor, sem o ultimo golinho do copo.

PINGUINHA DA BOA

Certa ocasião fui chamado por uma família de italianos afim de atender a um senhor de 83 anos de idade e que estava com um processo infeccioso. Ele estava quieto e sentado em sua cama em seu quarto. Examinei o velhinho e perguntei-lhe sobre a doença, porém, ele permaneceu em completo silêncio, com a cabeça baixada e olhos fechados, como se ignorasse aminha presença.  Então sua mulher me explicou:
- Ele non que i no hospital de jeito nenhuno, dotor! Ele num confia em nenhuno médico.

Pedi a enfezada mulher para me mostrar os remédios que tinham na casa e encontrei um antiinflamatório e um analgésico, e lhe disse:
- A senhora pode dar estes aqui para ele, a cada duas horas.
- Mas o sinhore non vai dar a receita?
- Não precisa, pois vocês já têm aqui os remédios necessários.

Saímos da cozinha e quando eu já estava quase entrando no quarto, a velhinha me parou e disse:
- Dotore Fornazario, mio marito non quiere nem sabê de médico, ele parla que tuto vocês non prestare e que son tuto safato, ma, na veritá, é porquere tuto eles viero acuí e parlaron pra ele pará de bebere. Sabe, dotore, ele é cachacêro desde los trece anios de la idate. Já faze setenta anios que este home bebe!
- Então, eu falei: Mas então dona, sendo assim, ele não pode mesmo parar de beber de uma só vez “de vereda”. Tem que ser aos poucos, deve reduzir gradativamente a bebida. Foi aí, então, que de soslaio percebi que o velho malandro se mexeu na cama. Era sinal de que estava ouvindo tudo muito bem.

Assim continuei, para que ele continuasse a escutar:
- A senhora vai das para ele conhaque. Mas não desses caseiros, feitos de gengibre. Compre uma garrafa de conhaque de uva, desses bons que se vende em armazém, e dê um cálice por dia para seu marido. Aos poucos vá reduzindo a dose até parar completamente e esconda muito bem a garrafa.

Me despedi e fui embora. Mais tarde. A senhora me contou o que aconteceu depois da minha saída. O safado, quando ouviu o motor do meu carro se afastando, falou:
- Esse que é médico!!! Non é cueles outros maledetos qui vierum qui! Per que non me trouxeram este dotore antes? Porca miséria!!!! Queste si, entende de lãs cossa!

 A esposa do velhinho comprou o conhaque e procedeu conforme eu recomendei. Ele sempre se antecipava e lembrava;
- Ta na hora de mio conhaque! Querida mia! Questo é ordem médica, viu! Questo ere remédio, você non pode esquecere, porco cane!

Na última vez em que o visitei, antes do seu falecimento ele, bem alegre e sorridente me disse: Sabe, dotore Fornazario, io quero  a bem bêbado na hora da minha morte, só pra ver a cara que Son Pietro iria fazere ao me vere subinto em sua diresson. Esse era dos bons, em Dr. Fornazari?
Deixa pra lá, Zé Maria. Deixa pra lá, não me complica!

É isso aí, meus prezados ouvintes. Todos temos de concordar, esse maravilhoso homem, chamado Lourival Luiz Fornazari, está fazendo muita falta, cá pra nós. Quem deve estar muito satisfeito, com boa saúde e rindo pra valer é, sem dúvidas, São Pedro e todos os anjos do céu. Tchau! A todos.


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