Matérias / Irati de Todos Nós

13/02/12 - 14h26 - atualizada em 13/02/12 às 14h49

Médico de família - parte I

O Programa Irati de Todos Nós é idealizado por José Maria Grácia de Araújo e vai ao ar pela Najuá AM, todos os sábados, às 14 horas
Já há algum tempo venho planejando apresentar em meu programa ‘IRATI DE TODOS NÓS” um resumo da história de um dos mais importantes cidadãos iratienses dos últimos tempos. LOURIVAL LUIZ FORNAZARI.

Neste último dia 21, fiz contato com Dona Leny, esposa do nosso inesquecível Dr. Fornazari, pedindo-lhe autorização para utilizar, em alguns de meus programas, o conteúdo do livro MÉDICO DE FAMÍLIA, o qual relata, em detalhes, a maravilhosa trajetória familiar, médica e profissional do seu esposo. Sem muitas delongas, Dona Leny, me comunicou que se sentiria muito alegre e honrada em autorizar-me a levar a frente este meu projeto.

Neste exato momento, com muita satisfação e orgulho, quero comunicar a todos vocês, meus prezados ouvintes que, a partir do programa de hoje e por mais alguns programas, estarei vos falando sobre partes daquilo que esta registrado no livro acima referido: LOURIVAL LUIZ FORNAZARI – MÉDICO DE FAMÍLIA – Especialidade em Humanismo e Caridade.

Capa do livro Médico de família


O meu BOA TARDE a todos, desejando-lhes muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações e aproveito a oportunidade para convidar a todos para acompanharem nossos próximos programas nos quais estaremos reverenciando a memória do nosso querido Dr. Fornazari.

Inicialmente vou-lhes apresentar a maneira com que, carinhosamente, o Dr. Fornazari agradeceu a todos que contribuíram para que a sua história, contida no seu livro MÉDICO DE FAMILIA pudesse ser editada.


Agradecimentos do Dr. Fornazari no livro Médico de Família


Desejo expressar minha gratidão aos meus estimados colaboradores que se empenharam na concretização deste trabalho: Ao jovem Vinicius Maciel Bizetto, que gravou, transcreveu e “penteou” os textos; ao meu sobrinho Lineu Bizetto, que mora em Curitiba, por ter me indicado seu filho Vinicius para a tarefa de colaboração; a senhora Halyna Hololob Konowalenko, que tomou nota e digitou o que ditei; ao professor José Maria Orreda e à Maria Cristina Pierucini, que nos deram importante orientação na organização geral do livro; à professora Maria Cacilda Maciel Bizetto e ao meu filho Luiz Ângelo Fornazari, que realizaram a revisão deste trabalho.

Ao meu amigo Moysés Paciornik, que com toda a bôa vontade leu meu livro e fez-lhe um poético prefácio.

Aos meus médicos José Carlos Dal Col Neto, Constantino Constantini, Janete Machozeki e esposo, Alexandre Freitas e Ezequiel Portella, pela paciência e dedicação ao cuidarem de minha saúde. À Unimed Guarapuava e ao seu presidente Manoel Luiz Brum, que me prestigiaram em todos os atendimentos médicos que tive de realizar e ainda me homenagearam com a distinção de Cooperado Símbolo.

A todos os meus colegas e assistentes de todas as especialidades, pela valiosa colaboração profissional ao longo de minha carreira na medicina.

Ao meu barbeiro e amigo Swami Nascimento, que há mais de vinte anos me atende – inclusive em minha própria residência – Para deixar-me sempre com impecável apresentação.

Ao Foto Lyris e à Revista Visual, ambos de Irati, que contribuíram com fotografias para este livro.

À Academia Paranaense de Medicina, que, além de ter me agraciado com a distinção de Acadêmico Honorário, sugeriu-me que escrevesse minhas experiências como médico de família para contribuir com a memória histórica da Medicina.

A todas as famílias iratienses, as quais depositaram a sua confiança em mim e no meu trabalho em prol do bem-estar da comunidade.

Aos meus queridos pais (in memoriam), que com amor educaram-me dentro dos princípios sólidos com os quais fundamentei todas as minhas ações durante a vida.
Aos meus filhos e netos – pelos quais tenho o maior carinho e orgulho – pela compreensão e apoio as minhas realizações.

E, especialmente, à minha querida esposa Leny, companheira de todas as horas e momentos de minha vida, que sempre trilhou ao meu lado essa longa estrada, deixando mais alegre esse caminho que nos leva á Deus.

Caros Amigos, a iniciativa de realização deste trabalho originou-se de uma proposta da Academia Paranaense de Medicina – o que muito me honra – para que fosse contada a minha trajetória como médico de família. Espero ter cumprido satisfatoriamente com o objetivo.

Eu não tinha intenção de fazer uma autobiografia propriamente dita, porém, acabei tendo de fazer apontamentos históricos de minha vida para que se pudesse entender, com mais clareza, meus procedimentos como médico de família, que é realmente do que deve tratar este livro.

A execução deste trabalho talvez tenha demorado, embora eu não tenha noção de quanto tempo leva para se escrever um bom livro. Afinal eu nunca havia escrito um antes. As dificuldades que encontrei para dar uma continuidade ininterrupta ao trabalho se deveram em parte aos meus problemas de saúde. No transcurso destes dois últimos anos estive internado em UTI devido à insuficiência coronária, que foi corrigida com a colocação de prótese para manter a circulação suficiente.

Em 2004, fui internado por várias vezes com insuficiência cardio-renal e com um edema agudo no pulmão. A medicação, a dispnéia e as tonturas obrigaram-me a suspender, por algumas vezes, a elaboração do livro. E, ainda, a esses problemas se somaram os sintomas gripais que me acometeram durante o inverno iratiense. Assim, muitos problemas de saúde acumularam-se, fragilizando-me. Mas é como eu sempre digo ao meu diabetes: “Sem vergonha, você vai morrer junto comigo!”

Devido às complicações de saúde, fiquei com dificuldades de raciocínio e de memória. Por isso peço desculpas aos leitores se algum dado foi esquecido. Quando mais jovem, eu tinha um raciocínio que era um “relâmpago”, em debates eu levava vantagem; quando alguém estava falando, eu já estava imaginando o que ia dizer-lhe. Tinham medo de mim quando eu subia para palestrar em um púlpito. Mas hoje tudo isso ficou um tanto lerdo, sinto que perdi aquela agilidade na conversa, na capacidade de retrucar com desenvoltura.

Eu não podia escrever este livro diretamente devido a minha visão estar prejudicada pelo diabetes, que ocasionou hemorragia na retina de ambos os olhos, impedindo-me de enxergar. Após submeter-me a um tratamento oftalmológico com raios laser e com pedidos insistentes a Deus, me foi concedida uma réstia de luz no olho esquerdo suficiente para que eu pudesse realizar minha higiene pessoal e minhas refeições. Entretanto, a visão ainda é insuficiente para ler e escrever. Assim, contei com o auxílio de pessoas amigas para grafar estas páginas, ás quais espero que proporcionem a todos uma proveitosa leitura.
                                           Lourival Luiz Fornazari – Abril de 2005

Casal Lourival e Leny Fornazari


VIDA DE UM MÉDICO
Devoção, carinho, caridade.
Devoção à profissão.
Carinho pelos pais, família, pacientes e amigos.
Caridade para os que, na pequena Irati de 1950, não podiam pagar e que era a maioria. A eles, o médico nunca faltou.
Fornazari, contador de histórias. Simples, direto, cheio de humor. Relata os sofrimentos, sacrifícios, compensados pelo reconhecimento dos seus protegidos.
Amigo dos amigos, homenageia as qualidades de todos eles.
A dedicação à clínica alia a dedicação aos problemas da sua querida Irati.
Eleito prefeito, lidera, realiza, cria raízes que darão frutos por toda a vida.
O livro de Fornazari, se agrada aos médicos, aos leigos, com certeza, encantará.
                                                   Moysés Paciornik – Maio de 2005

A FORMAÇÃO DOS MEUS PRINCÍPIOS

Transcorria o ano de 1925 na cidade paranaense de Ponta Grossa, precisamente no dia 16 de fevereiro, uma terça-feira de carnaval. Encontrava-se uma jovem mãe em trabalho de parto em sua própria residência, pois naquela época não havia hospital-maternidade no município. Os partos eram realizados nas próprias casas por parteiras que, com todos os conhecimentos que possuíam, obtinham êxito no seu trabalho.

Dentro da casa havia grande expectativa, todos com velas acesas, alguns fazendo oração para Nossa Senhora do Bom Parto. Lá fora, os foliões com suas cornetas e tambores, confetes e serpentinas; uma alegria extraordinária tomava conta das ruas. Até que, repentinamente, escutou-se o choro de um bebê, o que causou alívio e êxtase em todos que estavam presentes na casa da parturiente. O esposo ficou muito satisfeito, muito contente, porque o primogênito do casal era um menino, aquela coisa de machismo: “Meu primeiro filho é homem!”

A alegria dos que estavam na casa somou-se à dos foliões nas ruas. Todos riam e apenas um chorava: o recém-nascido. E este, por sinal, era eu! Lourival Luiz Fornazari.

Fui criado em um ambiente de muito carinho e especial atenção de meus pais, seu Luiz e Dona Martha, e principalmente, de minha tia Josefa, familiarmente chamada de “Fefa”, irmã mais velha de minha mãe. Ela não me chamava pelo meu nome de registro, Lourival, por ser muito longo e formal para um garotinho, e me deu o carinhoso apelido de “Lile”, mais simples, mais fácil de falar e memorizar. Então, eu era o Lile lá de casa.

Cresci entre amiguinhos cujas famílias eram mais pobres, repartíamos a merenda, jogávamos futebol com bola de meia ou de pano; e assim, fui notando a diferença entre nossas vidas. Eu tinha mais carinho, mais recursos do que eles. Suas mães não tinham muito tempo para dar-lhes atenção, pois eram muito ocupadas em seus afazeres.

Menino Lourival e seu primeiro automóvel
Eu não conseguia compreender essa diferença, para mim não poderia existir isso, todos os outros meninos deveriam ter o mesmo que eu tinha.

Fui crescendo sempre dentro de uma aura de carinho e entendimento, sem nada faltar, obtendo tudo o que desejava. Não obstante, eu ficava triste porque meus amiguinhos não tinham a mesma vida que eu levava. Já naquele tempo se inculcavam dentro de mim conflitos sobre aquelas diferenciações, que eu achava que não deveriam existir, mas eu era muito novo para fazer maiores distinções.

Minha mãe e tia Fefa eram costureiras e confeccionavam minhas roupas, feitas em veludo com grande esmero. Eu andava como um príncipe, mas em contrapartida, via pobreza do outro lado, o que me fazia sofrer e, em minha cabecinha, naquela tenra idade, já fervilhavam questionamentos sobre aquela desigualdade. Com a passar do tempo, comecei a entender o porquê dessa diferença.

Menino Lourival – Um pequeno Príncipe
Quando comecei a freqüentar o primário no Colégio Estadual Senador Correia, em Ponta Grassa, por volta de meus sete anos de idade, o meu pequeno mundo, aquele mundinho com oito ou dez piás, transformara-se em um mundo de quarenta ou cinqüenta meninos.

Nesse novo mundo tive a oportunidade de ter ainda mais contato com a desigualdade. Mesmo na escola, eu recebi uma atenção especial, não que fosse necessariamente diferenciada, mas uma atenção que me dedicavam os professores por eu ser um aluno curioso, que fazia muitas perguntas, ao contrário dos outros que eram quietinhos, tímidos; eu não me sobressaia porque queria, era algo natural em mim, era minha formação, meu jeito.

Cresci e meu cabelo também. Tive broncopneumonia, que àquela época havia levado muitas crianças a óbito. Minha mãe era uma mulher muito devota e buscou recursos com a fé. Dona Martha fez uma promessa a Bom Jesus de Iguape de que não cortaria meu cabelo até que eu saísse vestido de santo na procissão. Tive de suportar as gozações de meus coleguinhas em meus primeiros anos de escola. Devido o advento da Revolução de 30, tive de adiar o pagamento da promessa.
Quando eu já contava sete anos de idade, viajamos á Iguape, no Estado de São Paulo, onde acontecia a procissão ao Santo. E a viagem naquele tempo era bem longa e cansativa, pois se ia de trem até a cidade de São Paulo, descia-se até Santos, depois até São Vicente e de lá até Juquiá, onde se pegava um “vaporzinho” no rio e viajava-se durante, aproximadamente, um dia e meio até Iguape. Hoje uma viagem de automóvel até lá leva apenas três horas e meia.

O Santo saia ano sim, ano não, pois a imagem era extremamente velha e procuravam conservá-la o mais que podiam. Minha mãe descobriu que a cada vez que Bom Jesus de Iguape saia, vestia alternadamente uma capa de veludo de cor azul ou vinho. Sabendo disso, ela e tia Fefa confeccionaram a minha roupa de Bom Jesus com o manto na cor azul, que seria usada naquele ano.

Menino Lourival vestido de Bom Jesus de Iguape
Após a procissão, fomos imediatamente procurar um barbeiro para cortar meus longos cabelos, mais o comércio em Iguape estava fechado. O único comércio ativo no local era a venda de souvenires religiosos. Cortei meus cabelos somente quando cheguei à cidade de São Paulo.

Dona Martha era muito religiosa, católica fervorosa. Seu Luiz Fornazari era igualmente católico, mas tinha convicções espíritas; ele achava que o Espiritismo era antes uma filosofia e não propriamente uma religião. Meu pai tinha seus próprios conceitos sobre questões como o espírito e a reencarnação, mas respeitava a opinião dos outros, não fazia criticas, não entrava em discussões polêmicas sobre religião e não impunha suas convicções a ninguém. E seu Luiz tinha um dom especial: era clarividente. Uma vez ele me disse:
“Tenho dó de você, meu filho. Você é um “rastelo”, aonde vai carregar junto a si todos aqueles espíritos sofredores que anseiam por ajuda, pois você tem mediunidade.

E, realmente, mais tarde, no início da minha carreira profissional como médico, havia casos que me deixavam com cefaléia. Porém, com o tempo aprendi que era uma vantagem que eu tinha sobre os outros médicos: eu identificava que o problema de certos pacientes era mais espiritual do que patológico. E, assim, comecei a curar gente que outros médicos não conseguiam.

Fui um “regentino” do Colégio Estadual regente Feijó, em Ponta Grossa, onde fiz o ginásio. No Regente recebi uma base fundamental para minha formação educacional, com professores muito exigentes.

Nesse colégio fundamos o Grêmio Intelectual e Esportivo, onde fui o primeiro presidente. Nosso grêmio estava sempre em evidência. Fizemos uma biblioteca e montamos um bom time de basquete.

Eu e alguns amigos chegamos a fazer peças cômicas em festivais promovidos pelo regente no Cine Teatro Renascença, em Ponta Grossa. Fazíamos esquetes de Romeu e Julieta, O Barbeiro de Sevilha, Carmen e outras peças. Na coluna de crítica cultural do jornal Diário dos Campos eu era conhecido como “Lile, o Rei do Riso”.

Contávamos com dois irmãos que faziam os cenários, muito bem feitos por sinal – Eram perfeitas as pedras, velas e detalhes arquitetônicos, tudo feito em um papel especial, tudo bem iluminado.

Na última vez que encenamos Romeu e Julieta, eu fazia a Julieta, usava umas tranças falsas no cabelo e um “vestido” somente no tórax, pois o resto ficava escondido pela sacada de papelão. Por baixo eu usava bermudas. Eu subia e ficava no topo da uma escada oculta atrás do cenário.

O Romeu era o Raul Zanoni, com uma calça bem curta, um chapeuzinho tirolês e um violão na mão que era só de adorno, pois ele não sabia tocar. Com sua voz grave, cantou: “Julieta, Julieta, ò Julieta, abra a janela, não seja ridícula, se não te arrebento a clavícula!”

Os diálogos eram todos criados na hora, de improviso.
- Quem é o Jaguára que tá latindo ai embaixo? – gritava eu (ou melhor, Julieta) da janela.
- Sou eu, ó Julieta! Fiz uns trinta quilômetros a pé só pra te ver!
- E você lavou os pés?
- Passei um paninho molhado...
- Romeu, papai está vindo aí, se ele te ver, vai te matar! Corra! Corra!

Aí aparece o Bittencourt, que era baixinho, vestindo uma enorme camisola e portando uma espingarda – que pertencia ao Fernando Machuca – maior que ele, carregada só com pólvora. Ele dá um tiro no Romeu. Puseram muita bucha na arma, colocaram um Diário dos Campos inteiro no cano, o que provocou uma bola de fogo que passou entre as pernas do Zanoni, chamuscando-lhe os pêlos de suas pernas, que eram muito peludas.

Eu já havia entornado uns vinhos e não agüentei, desatei a rir, desequilibrei-me na escada e agarrei no papelão da sacada, que foi rasgando até embaixo e destruindo o cenário, deixando à mostra os bastidores, onde pessoas trocavam de roupa. A platéia gritava “bis! bis!” e dava muita gargalhada.

Era um sucesso, o teatro enchia, chegavam a brigar por causa de lugar. As peças em que catávamos em italiano, uns pedaços de opera – como A morte de Mimi, de Rossini -, essas tinham venda de ingresso garantida. Para mostrar essas peças, tínhamos ajuda do alfaiate Andretta, um italiano que adorava operar.

O ingresso era um mil réis. As famílias das moças que faziam bailado no teatro tinham entrada franca, o que contribuía para lotar a platéia.

As várias atividades de cunho cultural e administrativa durante minha adolescência contribuíram muito para complementar a minha formação educacional e preparar-me para minha vida profissional futura.

Bem, meus prezados ouvintes, por hoje é só, mas convido-os para que no próximo sábado estejam novamente conosco oportunidade em que estaremos levando até vocês o segundo capítulo desta maravilhosa História de altruísmo, dedicação e amor pela profissão de MEDICO DE FAMÍLIA.

E não deixem de adquirir, na BANDA DO CAVALIM, o livro do nosso inesquecível Dr. Fornazári. Até o próximo sábado.

Dr. Fornazari em foto ao lado da esposa Leny e com os filhos Eleuzi, Luiz Ângelo e Eleuza


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