Matérias / Irati de Todos Nós

08/03/12 - 20h17

Médico de família V

O Programa Irati de Todos Nós é idealizado por José Maria Grácia de Araújo e vai ao ar pela Najuá AM, todos os sábados, às 14 horas
Pelo talento de suas mãos, transforma todo ser humano em bonança.
Tua alma não se contém diante do desespero de uma criança
ou de um idoso.
Por isso, você vai operando milagres trazendo esperança
a corações desesperançados.
Falar de teu ofício de médico não é fácil.
Se muitos o fazem só por dinheiro, você o faz por amor
ao ser humano, altruísta sempre.
Não há tempos, nem momentos para fazer o bem, por isso,
devemos a ti nossa saúde.
Parabéns pelo seu idealismo doutor!
Que bom que você não escolhe dia para exercer a sua profissão!
Para você, todo dia é dia de salvar vidas.
Por isso, seremos sempre gratos e lhe rendemos sempre nossas homenagens.
Nosso sincero agradecimento porque sabemos que sem você
nossa vida não seria tão longa e feliz.

Autor Desconhecido

Dr. Fornazari - Salvando vidas


O meu BOA TARDE a todos. A todos os iratienses que se espalham por todos os cantos e recantos do nosso querido e amado município. A Vocês, cá da cidade. A vocês, aí dos bairros e, também, a todos vocês, nossos queridos amigos, do pujante interior do nosso município. Que a paz, a harmonia, o amor e, muita saúde esteja inundando vossas casas e vossos corações.

Bem, agora irei dar seqüência à maravilhosa série de programas, que esta emissora esta levando ao ar e que nos conta um pouco sobre a vida e obra de um dos nossos mais ilustres e queridos cidadãos iratienses: Lourival Luiz Fornazari, o nosso MÉDICO DE FAMÍLIA.

O SINAL DO FORNAZARI

- Doutor Fornazari, que história é essa, que fala sobre um sinal que no senhor deixou em muitos iratienses do passado?

- Pois é, Zé Maria, isso não é bem uma história e sim uma verdade que, ainda hoje, pode ser confirmada quando se olha para a região do pescoço, próxima do gogó de alguns cidadãos, hoje já adultos, de Irati. Mas eu vou contar a todos os teus ouvintes como tudo isso aconteceu:

- Por volta de 1953 e 1954, houve uma grande incidência de difteria em Irati. Você nem imagina a quantidade de traqueotomia em gargantinhas de crianças que eu tive de fazer, para que elas pudessem respirar e não morrerem asfixiadas! Sem isso, bebezinhos de poucos meses de vida estariam fadados a morrer horrivelmente. Eu presenciava tudo isso e chorava, pensando que alguém tinha de fazer alguma coisa! Então resolvi a, eu mesmo, tomar para mim essa perigosa responsabilidade. Até hoje não sei se era por amor que eu fazia, ou se era por algum dom especial que me deram.

Perdi alguns casos, é certo, mas que já estavam em fase de toxicidade muito avançada e violenta. Mas, felizmente, muitos daqueles bebezinhos eu consegui salvar e, hoje, temos por aí, muitos homens e mulheres, já adultos, que trazem perto do gogó o “Sinalzinho do Fornazari”.

- Ohhh! Doutor Fornazari, eu não tenho esta sua marquinha, pois nasci algum tempo antes destas suas, providenciais, intervenções, mas lhe garanto que, a partir de hoje, vou prestar bastante atenção nos “gogós” de muitos sessentões iratienses. Principalmente das sessentonas, se o amigo me permitir procurar ali a sua “Marquinha registrada”.

- Tem a minha permissão, Zé Maria, más somente para olhar de longe e com muito respeito.

- Mas, Zé Maria, vamos em frente, pois durante a minha vida profissional, aqui em Irati, eu participei de muitas campanhas médicas, sobre as quais eu desejo falar um pouco para os ouvintes desta emissora.

Sabe, eu sempre procurei adotar em Irati uma identidade da verdade, e não fazia isso somente com o interesse de ganhar dinheiro ou prestigio. Sempre procurei abordar de maneira franca os problemas que afligiam a comunidade, sempre na busca de soluções. Assim, nos anos 50, chegou um momento em que decidi ir a Curitiba, a fim de falar com o Secretário Estadual da Saúde. Entrei em seu gabinete e fui logo dizendo: - Senhor Secretário, sou médico, trabalho como funcionário público do Estado na cidade de Irati.Não pedi permissão com antecedência para vir até aqui, pois quero lhe falar, não como médico, mas como um cidadão iratiense. Não consigo mais ficar na condição de somente ver as condições de como estão as coisas e não fazer nada. Visto isso quero fazer uma proposta ao senhor; Dêem-nos as vacinas, os soros antitetânicos e antidiftéricos, acompanhados das respectivas seringas, e então esqueçam de nós. Lhe prometo que depois vou trazer para o senhor o relatório do nosso trabalho. A própria comunidade é que vai fazer o serviço de vacinação.

Vacinação


Naquele tempo ainda havia os “Inspetores de Quarteirão”, um cargo político da época que funcionava como uma espécie de delegado, xerife, otoridade, perante as comunidades a que pertenciam. Reuni esses “xerifes” e os instruí: Os senhores vão colaborar com a saúde do município e receberão treinamento adequado para isso. Precisamos de vocês, façam um levantamento de quantas pessoas existem em suas comunidades, anotem seus nomes e idade, assim como, o número de cães existem por lá, pois, já morreram duas pessoas em Irati, vítimas de hidrofobia.

- Então alguns dos “xerifões” me disseram: - Sabe dotor, eu fico inté facêro de pode ajudá o senhor nessa coisa tão boa e bonita, mais meus ócros tão muito ruim e, intão, eu nem aconsigo inscrivinhá dereito.

- Sabe, Zé Maria, eu logo percebia que na verdade era que eles não sabiam era ler e escrever, e então sugeria; - Não tem probrema, meu amigo, peça a um de seus fio o netinho pra eles escrivinharem, não percisa o sinhôr ficá si preocupando cum os ócro.

Com isso, consegui fazer um relatório com todos os dados das comunidades de Irati e demos início à vacinação. As vacinas eram aplicadas pelas enfermeiras e vacinamos todas as pessoas da cidade, dos bairros e do interior, como também, de outros municípios vizinhos.

Que maravilha, Dr. Fornazari. Como já lhe disse, não possuo sua marquinha no pescoço, mas com certeza, tenho no braço o sinal das vacinas que o senhor providenciou para que fossem aplicadas em todos nós iratienses. Obrigado doutor.

Que nada, Zé Maria, deixe de salamalengues, pois essa era a minha missão como médico da caridade. Fique sabendo você e todos os seus ouvintes que, para isso, contei também com o auxilio de muitos outros cidadãos iratienses da época, em especial, do meu grande amigo Licínio de Moraes.

- Sabe, Zé Maria, nas várias campanhas de saúde que organizei  o Licínio era quem me acolhia em sua casa, me oferecendo pouso e alimentação, isso além de me acompanhar em minhas idas e vindas pelo interior, pois ele conhecia toda a região e me apresentava para seus amigos e compadres. Ele era o meu Anjo da Guarda.

Uma outra campanha que fizemos juntos foi na de combate à verminose. Mobilizamos a cidade inteira para que houvesse a colaboração e interesse de todo o povo em eliminar os parasitas que, na época, eram de considerável incidência em Irati.

O costume popular para se eliminar as tradicionais “lombrigas” era o de colocar um colar de alho no pescoço da vítima e passar mel de abelhas na sola de seus pés. Acreditava-se que os vermes fugiriam do alho e desceriam para os pés em busca do mel e no caminho acabariam saindo pelo... Bem... pelo anus do enfermo. Zé Maria, não me olhe desse jeito, pelo que me lembro não receitei ao Primo e a Julieta, seus pais, para que aplicassem em você, este remédio, pois nem eu tinha certeza da eficácia deste método, embora todos garantissem que funcionasse mesmo.

Ufaaaaa! Doutor! Obrigado por não ter sugerido aos meus pais esta formula milagrosa, porém, muito perigosa de acabar com as celebres lombrigas do passado.

Deixa pra lá, Zé Maria, mesmo que você tivesse sido medicado desta forma, com certeza, teria sobrevivido.

Mas, me deixa ir um pouco mais para frente, neste assunto, pois ele foi um dos mais importantes, em questões de saúde da população de Irati, durante aquelas décadas de 50.

Por tudo isso, tínhamos de, constantemente, darmos palestras para orientar à comunidade sobre os procedimentos de profilaxia contra a verminose, recomendando que todos usassem as latrinas e que fizessem a devida higiene após completadas as necessidades fisiológicas pessoais. Orientávamos, também, para que usassem calçados nos pés, lavassem bem  suas verduras, legumes e frutas e evitassem comer carnes mal-passadas. Eu, para minha felicidade, contava com o apoio do Joaquim Pioli Caetano, que sempre me acompanhava nas campanhas, auxiliando-me no preparo e exposição dos cartazes que falavam e ilustravam os malefícios que os parasitas causavam a saúde de todos.

Palestra


Os diagnósticos de verminoses eram demorados, porque tínhamos de enviar o material para Curitiba. Os potes eram transportados no compartimento traseiro dos ônibus, que ficava muito próximo do motor do veículo. Com o seu aquecimento, espalhava-se, pelo interior, do ônibus um cheiro insuportável que se espalhava até para fora do veículo. Um amigo meu, muito brincalhão, me disse certa vez: “Fornazari, você é o maior traficante de fezes que eu conheço!”.

Felizmente conseguimos livrar Irati da epidemia de verminoses com essa campanha preventiva. Atualmente, Irati felizmente, já dispõe de modernos laboratórios que permitem, com muita rapidez, identificar e sanar o problema.

Adeus, às lombrigas! Não foi, mesmo, doutor Fornazari. Acredito que, dentre as suas realizações, está foi uma das mais importantes, principalmente, para as crianças e adolescentes, das décadas de 50/60. Crianças e adolescentes que hoje já são adultos, pais de família, empresários e até, importantes autoridades municipais e estaduais e por aí a fora.

Mas, nos conte, também, doutor, como funcionavam as parteiras, naqueles idos, românticos, porém, quase que desprovidos de tecnologias adequadas para os partos de muitos e muitos iratienses, hoje sessentões?

Bem, este é um dos assuntos sobre os quais eu tenho mais espontaneidade para falar. Foi uma das especialidades da minha atuação como MEDICO DE FAMÍLIA que mais eu me dediquei no início da minha atuação em Irati.

Quando fui trabalhar na Saúde, em 1952, fiz uma estatística e verifiquei que em Irati havia muitos óbitos por tétano, em especial de bebês. Constatamos que isso ocorria, principalmente, devido à falta de assepsia aplicada pelas parteiras, pois a maioria dos nascimentos eram realizados por elas.

Conseguimos, então, que uma entidade ministrasse um curso de parto no hospital e trouxemos aproximadamente quarenta parteiras de Irati e municípios vizinhos para assistir às aulas. Pagávamos as suas passagens de ônibus e os donos de bares e armazéns da cidade contribuíam com a alimentação, fornecendo sanduíches e refrescos. Foram dez alunas por semana, que assistiam aos partos normais e cesarianas.

As parteiras se esforçaram muito e o curso teve ótimo aproveitamento. O Secretário de Saúde do estado gostou de nossa iniciativa e promoveu outros cursos similares.

Autoridades


Mesmo, depois de todo esse aprendizado, as parteiras, principalmente do interior, ainda conservaram algumas de suas “Técnicas” pessoais. Quando as dificuldades apareciam durante o parto, a “tática” era a de fazer muitas rezas, simpatias, defumação e, até, um estranho chá de “espoleta” de espingarda – que elas acreditavam que faria a criança ser “atirada” para fora. Uma outra simpatia, muito curiosa, e até, perigosa era a de colocar uma corda por baixo dos braços da parturiente e passá-la por sobre uma viga do telhado. Então, puxavam a corda, erguendo e baixando a pobre mulher, várias vezes. A fim de que os movimentos fizessem o bebê nascer.

Houve uma época em que, para realizar um exame em pacientes que viviam em regiões rurais do município, eu utilizava um pequeno lampiãozinho, do tipo conhecido como “morcego”, que fazia uma fumaça preta. E, para conseguir iluminar bem a região intra-uterina da paciente, a melhor posição para o “morceguinho” era logo abaixo do meu rosto. Aí então, ao terminar o exame, eu estava com minhas narinas pretas de fuligem.

Eram tantas as simpatias que algumas até surtiam algum efeito, porém, outras não adiantavam de nada. Em uma destas, colocavam uma sela de cavalo debaixo da cama da parturiente. Não sei bem qual era o motivo e nem eles sabiam me explicar a origem daquilo. Quando eu chegava, eles já tinham feito defumação, rezado para Nossa Senhora do Bom Parto, várias simpatias e outras coisas mais. Eu ficava sensibilizado com todos eles, pois ao menos procuravam, à maneira deles, fazer algo enquanto não chagavam recursos médicos mais adequados. E era assim, Zé Maria, que eles se ajudavam.

Doutor Fornazári, eu nasci em Dezembro de 1940, acredito que nessa época, não havia nenhum médico em Irati, ou se havia, minha mãe Iratyla não o utilizou em meu parto. Eu vim, como milhares de iratienses, também, vieram pelas mãos de uma das mais competentes parteira da época, Dona Pierina, a Mãe de Irati. O que o senhor nos conta sobre ela.

Sabem, meus amigos iratienses, desta senhora, Pierina Nadal, só tenho boas recordações. Ao me referir às parteiras iratienses, é de justiça que faça um adendo muito especial a ela, que era conhecida no município e nas regiões rurais da região, como “Nhá Pierina”.

Dona Pierina nasceu na Itália e imigrou ainda mocinha, para o Brasil. Trabalhou na Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa, onde adquiriu conhecimentos em obstetrícia. Tendo se mudado para Irati, atuou por vinte anos no município, onde efetuou um número recorde de partos, o que lhe valeu o título de “Mãe de Irati”.

Não obstante a sua idade já bastante avançada, sempre encontrava Dona Pierina, com sua característica, mantinha marrom cobrindo-lhe a cabeça e o pescoço, indo fazer seu trabalho de madrugada. Ela sempre levava consigo uma maletinha com luvas, materiais para fazer desinfecção e curativos. Dona Pierina, fosso afirmar, era quase uma santa. Ela ia por esses matos, meu Deus do céu! Que eu mesmo não enfrentava. Seu Ângelo Natal, marido de Dona Pierina, era que a transportava para o local dos seus atendimentos, em seu Chevrolet 1926, que tinha o apelido de “cegonha”.

O mais comovente de tudo isso, era que Dona Pierina levava roupinhas para os recém-nascidos, bolachas, doces e frutas para a parturiente. Ela se preocupava com tudo isso.

Com o bebê, ela tinha um carinho todo especial, dava banho, trocava suas fraudas, cuidava deles até o sétimo dia, para evitar que ocorresse contaminação do cordão umbilical. Enquanto a mãe fazia sua higiene pessoal após o parto, Dona Pierina preparava canja de galinha e também a comida para o restante da família. Ela não atendia por dinheiro, e sim por amor. Nunca a via braba com ninguém, era muito calma, tranqüila, paciente.

Eu, pessoalmente, tive a satisfação de certa ocasião, há muito tempo atrás, fazer uma homenagem a ela no Lions Club de Irati e, como vereador, propuz dar-mos o seu nome a uma das ruas da cidade. Dona Pierina merece sempre ser lembrada, pois sou testemunha do seu trabalho e do amor que tinha pela sua atividade de parteira “Mãe de Irati”.

Olha só lá na parede, doutor Fornazari. O relógio esta indicando que o nosso tempo está acabando. Sei perfeitamente que nossos ouvintes poderiam ficar muitas e muitas horas ainda escutando os seus relatos, porém a Radio Najuá tem a sua programação muito bem estruturada, com horários fixos para cada um de seus programas, portanto vamos ao causo de hoje, para então encerrarmos mais esse programa.

OUVIDO MUSICAL

Certa ocasião um rapaz me abordou na rua dizendo:
- Dotor, fui no delegado, mais ele num instava. Intão, vim falá cum o sinhor, mesmo.
- Mas eu não sou delegado, rapaz! Sou médico! O que houve, para que você acredite que eu possa te ajudar?
- è aquele meu cunhado, fio duma égua. Ele me deu uns pédovido nas oreia.
- Sim, mas ainda não entendi, o que eu posso fazer por você?
- O sinhor me dê uma inzaminadinha. É que os meu ovido ta musicando inté agora, dotor...

Eita! Ovido sonoro, esse seo! Bota preço nele!

Bem, Dr. Fornazario, chegamos a fim de mais um capitulo da sua maravilhosa história como MEDICO DA FAMILIA IRATIENSE, mas tem muito mais ainda, e, desde já convido a todos para no próximo sábado estarem conosco, novamente, para continuarmos essa prosa. Até lá.


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