Matérias / Irati de Todos Nós

26/06/12 - 13h56 - atualizada em 05/07/12 às 17h15

O maravilhoso futebol de Irati - Parte II


“Em 1886, no Brasil-Império, Pedro Manoel Borges publicou um manual de Ginástica Escolar, destinado às escolas públicas, colégios, liceus, escolas normais e municipais. Foi ele que se empenhou pela obrigatoriedade da Educação Física no país, sendo com Rui Barbosa, pioneiro dessa campanha. Rui foi relator do Projeto nº 224, da Câmara dos Deputados, em 1882, sobre a Reforma do Ensino Primário, onde a Educação Física foi mencionada como “base sobre a qual devem repousar todos os outros princípios”. Até então as atividades eram muito limitadas: no mar havia interesse pela natação; em terra, as atividades eram a pelota, ciclismo, peteca e malha.” Citação contida no livro “O ESPORTE EM IRATI” do Prof. José Maria Orreda.


O meu boa tarde a todos vocês, meus prezados ouvintes, ouvintes aos quais desejo muita paz, harmonia e amor bem dentro de seus lares e de seus corações.

Professor Orreda, esse nosso assunto, sobre o MARAVILHOSO FUTEBOL DE IRATI, já ocasionou as primeiras reações nos apaixonados corações esportistas da nossa gente iratiense. Em especial daqueles de corações azuis celestes. Portanto, muito em boa hora e baseados em material histórico, contido em seu livro, repleto de relevante nostalgia, estamos procurando sensibilizar o povo esportista de Irati, para a importância de mantermos viva a tradição futebolística e social do nosso querido “AZULÃO”. 

O Iraty Sport Clube esta passando por um momento muito angustiante que, talvez, jamais tenha enfrentado em todos esses seus 98 anos de existência. Mas, nos primórdios da sua trajetória, o nosso AZULÃO, também, deve ter enfrentado alguns momentos difíceis.

Se não vejamos, prezados ouvintes, como os fatos tendem a se repetir com o passar do tempo, mesmo que não nas mesmas proporções. Se hoje estamos às voltas com uma inesperada possibilidade de extinção do nosso mais antigo Clube futebolístico, já, também, em 1916 algo parecido deve ter acontecido. Em uma ata, que aparece na página 33, do seu livro, Professor Orreda, já se falava em uma “reorganização” do Iraty Sport Club, senão vejamos:

“Ata da Assembléia Geral Extraordinária realizada no dia oito de Maio de mil novecentos e dezesseis em uma das salas da Pharmacia (ainda com PH) Apollo (com dois eles), desta Vila de Iraty.

Aberta a sessão pelo Snr. Presidente foi declarado que os fins da presente reunião era a “reorganização” do Iraty Sporte Club e eleição da Diretoria que deveria  reger os destinos da Sociedade durante o ano social de mil novecentos e dezesseis. Procedendo-se a votação, obtiveram maioria de votos os seguintes consócios: Para presidente - David da Costa Araújo; para 1º Secretário – João Baptista Dantas; para 2º dito – Hyran Peixoto; para thezoureiro – Antonio Xavier da Silveira; para orador – Luiz Felipe dos Santos, que imediatamente foram empossados de seus respectivos cargos. Tendo sido oferecido, ao Iraty Sport Club, pelas senhoritas, Aurora Sabóia, Mathilde Vieira de Araújo, Anathalia Cunha Teixeira, Cândida da Cunha Mendes, Rosa de Araújo Winkler, Helena Cunha Teixeira, Elisa de Araújo, Erothides de Andrade Gomes, Aracy da Cunha Teixeira, Elvira de Andrade, Julieta Miranda, Verônica Dias, Conceição Peixoto, Palmira Ferreira e Izabel Berlintes, um mimoso estandarte, bordado a seda com as cores Branco e Azul Celeste, ficou deliberado serem estas as cores oficiais do Club. E em sinal de agradecimento a essas gentis Senhoritas, ficou resolvido, oferecer-lhes um baile no dia 1º de junho do corrente ano. Para organização dos Estatutos foi nomeada a seguinte comissão: David da Costa Araújo, João Baptista Dantas, Arthur Xavier da Silveira, Hyran Peixoto e Antonio Xavier da Silveira. Foi proposto e aceito por unanimidade de votos que todos os cidadãos que assinassem a presente ata seriam considerados fundadores e, portanto isentos de jóia.


Pois é, José Maria Araújo, esta ata que você acaba de ler para teus ouvintes, com certeza, reflete um momento difícil, pelo qual, o Iraty Sport Clube passou, no início da sua existência. Porém, como vimos, todas as lideranças esportivas da Vila, principalmente as senhoras e senhoritas, abriram seus corações e arregaçaram suas mangas, em busca de soluções. E, como curiosidade ainda mais emocionante é que, foi nesta ocasião de dificuldades que a bandeira do Clube foi idealizada. Bonito não é Zé Maria?

Emocionante, professor Orreda. Talvez algo parecido possa vir a acontecer, neste outro momento de dificuldades pelo qual o Clube está passando. Quem sabe?

Recuperada a auto-estima do Clube, que enaltecida ainda pela nova bandeira bordada nas cores alvi-celeste, oferecida pelas senhoritas iratienses, naquele mesmo ano de 1916 o AZULÃO cumpriu um extenso calendário de jogos contra equipes regionais.

Já, no dia 10 de junho de 1916, ao aceitar um convite do Entre-Rios para um match amistoso naquela localidade, a diretoria do Iraty nomeou Antonio Xavier da Silveira, para capitain de sua equipe, ficando com isso encarregado de organizar o team. Ficaram responsáveis pela organização de um regulamento de campo os sócios João Baptista Dantas e o próprio Antonio Xavier da Silveira.

No dia 02 de julho, daquele mesmo ano de 1916, o Iraty jogou, então, em Entre-Rios, vencendo pelo score de 2 X 0, atuando com a seguinte formação: Goal-keeper João Bota; Backs - Bazilio e Alderico; alf-backs – Dantas, Totonio e Antoninho; Forvards – Valentim, Andrade, Huran, Carioca e Vidal. “Esses jogadores – diz a ata – consentiram e fazer as despesas de transporte a que estiveram sujeitos, em vista das actuais condições do Club que não as pode custear. As despesas de hotel, naquela localidade, ocorreram por conta do Club anfitrião. Tudo isso estava contido no convite das festividades”. O team do Club Sportivo Entre-Rios esteve assim constituído: Godoy, Dadan e Amalio; Rozeira, Arthur e Quinzinho; Paulista, Edmundo, Cezário, Bertoldo e Sylvio.


Sabe, Zé Maria, depois da primeira crise de sobrevivência pela qual o Iraty Sport Club passou, naquele início de sua existência, me parece que as coisas tomaram o seu rumo certo. Os convites para jogos intermunicipais foram aparecendo, a diretoria foi se consolidando, os esportistas locais, adeptos do futebol, foram se multiplicando e, aí estão 98 anos de uma história de grandes glórias e conquistas e serem contadas.

Mas, professor Orreda, se a razão maior desta série é rememorar as glórias do nosso querido AZULÃO, vamos em frente, então.

Ainda naquele ano de 1916, surgiria no cenário esportivo uma equipe que, com o passar dos anos, iria se tornar o mais tradicional adversário do Iraty Sporte Club. Tudo aconteceu no mês de agosto daquele ano, o Operário Foot Ball Club, de Ponta Grossa, Club alguns poucos anos mais antigo que o Iraty, nos convidou para um Match amistoso em seu ground, confronto que seria realizado no dia 27 de agosto de 1916.

Em uma ata, posteriormente redigida pela diretoria do Iraty, pode-se encontrar as seguintes informações:

“A Diretoria do Iraty resolveu aceitar o convite, em vista de todos os jogadores do Club mostrarem-se desejosos de jogar com um team de valor. A diretoria telegraphou as sócio Arthur Xavier na Lapa e officiou aos sócio Hyran Peixoto em Ponta Grossa a Álvaro Pires em Guarapuavinha, chamando-os para o dia 27 apresentarem-se em Ponta Grossa. E aprovou o team que irá a Ponta Grossa: goal Keeper Luiz; Full-Back – Álvaro e Victorio; alphs-backs – Alderico, Antonio e Andrade; forvards – Vidal, Hyran, Arthur, Dantas e Valentin. Reservas: Antoninho e João.”


Mas esta história, que marca a primeira disputa futebolística ocorrida entre o Iraty Sport Club e seu tradicional rival, Operário Foot Ball Club, de Ponta Grossa, não terminaria com os acontecimentos previstos na ata da diretoria. Muita água haveria, ainda de passar sob a ponte.

Como estava previsto, no dia 27 de agosto o Iraty seguiu para Ponta Grossa composto dos seguintes atletas: Antonio, Dantas, João, Alderico, Antoninho, Luiz, Vidal, Valentin, Victorio e Andrade. O jogador Hyran iria esperar em Ponta Grossa e Álvaro e Arthur, por motivos de força maior, deixaram de seguir viajem com a equipe. Mais um imprevisto iria acontecer já na chegada a cidade anfitriã: Hyran, que na falta de Arthur era o único que se adaptaria a posição Center-alph, encontrava-se enfermo em leito de hospital. Para que o Iraty não jogasse sómente com deis atletas e com o consentimento do presidente do Operário, foi acertado que um jogador do Guarany, também daquela cidade de Ponta Grossa, jogaria pelo Iraty.

Vocês pensam que todos os problemas foram, então resolvidos? Que nada. Em vista de todos esses contra-tempos já era quase certa a derrota do Iraty. E não deu outra, o resultado foi uma sonora goleada de 8 X 0, para o Operário que jogou com a seguinte formação: Maister, Bach e Souza; Fychse, Simonete e Piva II; Azevedo, Evaldo, Piva I, Paulista e Brandalize”. E assim, infelizmente, começou uma escrita, que duraria muitos e muitos anos, nos quais o nosso Iraty não conseguiu sequer uma vitória contra o nosso velho “Fantasma” Operário Futebol Clube.


Zéca Araújo, nesta segunda metade da década de 10, a partir da fundação do Iraty Sport Clube, que ocorreu em 1914, não havia ainda, outras equipes de futebol aqui no nosso município, fazendo com que o nosso clube disputasse seus jogos, apenas com equipes de municípios vizinhos ou da região. Para aquela época em que os meios de transportes eram, somente, as carroças, as montarias e, em alguns casos, o trem, até que o movimento esportivo aqui da região era bastante intenso. 

Tenho certeza disso professor Orreda, pois em seu livro encontrei o registro de inúmeras partidas de futebol, disputadas pelo meu querido Iraty Sport Club e times de municípios vizinhos ao nosso. Senão vejamos:

No dia 15 de novembro de 1916 o Iraty jogou em nossa cidade com um Clube, curiosamente, chamado de Nyctteroy ( N Y C T T E R O Y) de São Mateus do Sul e o venceu por 5 X 0. Quatro dias depois, no dia 19 do mesmo mês de novembro de 1916, voltou a jogar, só que em União da Vitória, contra o Iguasse Sport Club, vencendo-o por 4 X 2.

Houve então um breve intervalo nas atividades do Clube, tanto esportivas como, também, sociais e administrativas. Somente em 23 de março de 1917 é que aparecem registros da retomada das atividades do Clube. Foi nesta data que, em Assembléia, o Iraty elegeu e empossou, para o período de 1917/1918, sua nova Diretoria, que ficou assim constituída: Presidente – David da Costa Araújo; Vice – Bernardino Saldanha Muniz; 1º Secretário – Rozelmiro da Cunha Teixeira; 2º Secretário – Evandro Sabóia; Tesoureiro – Antonio Xavier da Silveira; Orador – Luiz Felippe dos Santos; Procurador – Gumercindo Esculápio; Guarda Sports – Arthur Xavier da Silveira.

Outro fato relevante para o nosso futebol, que encontrei na página 39 do seu livro, professor Orreda, é o seguinte:

No dia 02 de Maio de 1917, a nova diretoria eleita, decidiu filiar-se a Liga Regional Paranaense, com sede em Ponta Grossa e nomeou para representar o Iraty, junto a instituição, o Snr. Alfredo Holzmann. A razão dessa filiação prendia-se ao motivo de dar ao nosso clube condições para disputar o campeonato da Liga, daquele ano de 1917. Logo em seguida houve uma mudança de nosso representante junto a Liga, o qual passou a ser o Capitão João de Paula Xavier que, juntamente com a diretoria do Clube, solicitou ao Inspetor Geral da Viação Férrea Paraná Santa Catarina um abatimento de 50% no preço das passagens de trem quando do deslocamento do Iraty até Ponta Grossa. Tempos românticos aqueles, em que se viajava de trem, para a disputa de campeonatos de futebol.


Mas, nem só de romantismo, vivia o futebol do passado e logo no primeiro jogo do Iraty, na Liga, marcado para o dia 13 de maio daquele ano, o time deixou de comparecer, motivado pela doença de dois de seus principais jogadores, tornado-se com isso impossibilitado de reorganizar sua equipe há tempo para cumprir o importante compromisso. Mas, já a seguir, no dia 24 de maio, o Iraty foi até Castro para jogar contra o Caramuru, daquela cidade. Faltavam oito minutos para terminar a partida e o jogo estava empatado, quando, sem motivo justificado, o Caramuru abandonou o campo, possibilitando ao Iraty, segundo os estatutos da Liga, deveria ter sido considerado o vencedor do embate. Mas segundo consta, em setembro, ainda de 1917 o, então presidente do nosso clube, Sns. Bernardino Saldanha Muniz, deliberou que o Iraty se retirasse da Liga Regional Paranaense, tendo-se em vista que a mesma procedeu incorretamente, não reconhecendo o nosso direito, naquela partida contra o Caramuru de Castro. Nesta mesma ocasião o presidente Bernardino, agradecia ao Circo Paranaense, pertencente à família Spena, pelo apoio dado a clube, lhe destinando a renda de R$ 88$00, oitenta e oito mil reis, angariados em um de seus espetáculos circenses. Tudo isso pertence á história do nosso maravilhoso futebol do passado, professor Orreda. Ainda bem que você se preocupou em registrar tudo isso.

José Maria, ainda no final deste ano de 1917, o Iraty disputou mais duas partidas e em ambas não foi muito feliz. Em pleno dia de Natal, 25 de dezembro, perdeu para o Mallet Foot Ball Club, por 4 X 0 e, na véspera de dia primeiro do ano, voltou a perder, agora para o Operário, por 5 X 2.

Professor Orreda, pelo que tenho verificado em seu livro sobre o esporte em Irati, com o enfoque principal dirigido ao nosso futebol, o Iraty Sport Club elegia, a cada novo ano, uma nova diretoria, não é mesmo. E me parece que as gestões, de cada uma delas, ia de junho a junho. Segundo está registrado à página 41 do seu livro, em 1º de junho de 1918, foram eleitos os seguintes cidadãos iratienses como diretores de uma nova gestão, que foram os seguintes: David Costa Araújo, aclamado como presidente honorário; Arcilio Ramos – presidente; Bernardinho Saldanha Muniz – vice-presidente; Evandro Sabóia e Alderico Pires – 1º e 2º secretários; Antonio Xavier da Silveira – tesoureiro; Tito Marçal e Luiz Felippe do Santos – oradores; Álvaro Pires – diretor sportivo; Antonio Xavier – capitain; João Baptista Dantas – guarda sports; José Reis Sampaio, Adelino Ferreira Moraes e Nicolau Molinari – comissão de contas. A posse da nova Diretoria aconteceu no dia 09 de junho de 1918 nas dependências do Club Internacional.

Zé Maria Araújo, neste mesmo ano de 1918, no dia 22 de setembro o Tiro de Guerra, uma instituição militar sediada em nossa cidade, convidou o Iraty para um match treino. Aproveitando este evento esportivo o Clube promoveu um festival social/esportivo, que o mau tempo atrapalhou, mas mesmo assim foi arrecadada uma renda de R$ 421$800 (quatrocentos e vinte e um mil e oitocentos reis) que, depois de liquidadas as contas do clube, restou ainda em caixa R$ 20$00 (vinte mil reis). Assim era, naquela época, a forma que os clubes se utilizavam para custear suas despesas esportivas e sociais. Bons tempos aqueles!

Pois é, professor Orreda, acredito que de festival em festival, de quermesse em quermesse, o nosso querido Iraty, no passado, sempre honrou as suas contas. Sra que nos dias de hoje, não seria uma boa idéia se pensar em um grande festival esportivo, com quermesse e tudo mais que o povo gosta, para que se consiga reverter a situação em que o clube se encontra? Quem sabe?

Mas, como últimos registros esportivos do ano de 1918, encontrei o seguinte: Em 24 de março o Iraty jogou e venceu o Mallet por 5 X 3 e em 22 de dezembro, empatou com o Iguassu de União da Vitória por 2 X 2. 


Viram só, prezados ouvintes, como o nosso AZULÃO, lá no passado, teve uma atividade esportiva e social bastante agitada. Isso, apesar das dificuldades de locomoção, de estádios, de materiais esportivos e tudo mais que era necessário para que um clube de futebol se mantivesse atuante o ano todo e por diversos anos seguidos. “Para desenvolver a inteligência, necessário se torna exercitar, antes de tudo, o corpo. O jovem deve ser robusto e ágil como um selvagem, no qual a força física e a inteligência nativa crescem paralelamente no seu estado de liberdade” Rousseau.

Prezados ouvintes, continuem acompanhando os nossos programas “IRATI DE TODOS NÓS”, em especial estes que abordam um tema tão ântico e ao mesmo tempo tão atual, que versa sobre O MARAVILHOSO FUTEBOL DE IRATI. As suas audições serviram para nos motivar a continuar buscando alguma forma para que possamos reverter a atual situação do nosso querido AZULÃO – Iraty Sport Club. Quem sabe, juntos não iremos “reorganizar” o nosso clube, como o fizeram há quase 100 anos os nossos aguerridos cidadãos David Araújo, João Batista Dantas, Hyran Peixoto, Antonio Xavier da Silveira, Luiz Felippe dos Santos e tantos e tantos outros iratienses de fibra que militaram em nosso futebol do passado. Não nos esquecendo, também, das gentis senhorisas que nesta mesma ocasião (1916) bordaram em seda e doaram ao Iraty Sport Club o primeiro pavilhão azul e branco da sua história. Quem sabe, os Deuses do Olimpo, não intercederam por nós. Até o próximo sábado com um pouco mais do nosso MARAVILHOSO FUTEBOL DO PASSADO. Até lá.




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