Matérias / Irati de Todos Nós

06/08/12 - 14h08 - atualizada em 06/08/12 às 14h48

O maravilhoso futebol de Irati - Parte IV

Por José Maria Gracia Araújo

                                         
“A LEALDADE NA COMPETIÇÃO É A GARANTIA DE QUE SÃO AUTÊNTICOS OS VALORES QUE SE APRESENTAM NO ESTÁDIO. A LEALDADE CONFERE QUALIDADE HUMANA AO MUNDO DOS ESPORTES.”

O meu boa tarde a todos vocês, meus prezados ouvintes, ouvintes de todos os quadrantes deste maravilhoso pedaço de chão, chama do de IRATI – Nosso querido RIO DE MEL. Que a paz, a harmonia e o amor estejam bem lá dentro de seus lares e de seus corações.


O ano de 1921 não apresentou nenhum fato relevante dentro das atividades sociais e esportivas do Iraty Sport Club. Talvez, por falta de opções locais e regionais para a prática do futebol da sua, ainda, jovem equipe e, no campo social, por falta de espaços adequados para o seu desenvolvimento. Lembrando ainda, que neste período, da década de 20, o mundo estava envolto em sua primeira Grande Guerra Mundial, fato este que restringia muito estes momentos de alegria e descontração. 


Porém, no início do ano de 1922, o Iraty Sporte Club filiou-se a uma nova entidade esportiva do nosso Estado, a Liga Paranaense de Desportos, disputando o campeonato do interior em sua divisão principal. Este é um dos poucos registros das atividades do Azulão, durante este ano de 1922. No entanto, foi no ano seguinte, de 1923, como já tive a oportunidade de citar, que o Iraty Sport Club conquistou uma de suas maiores glórias dentro do futebol. A Liga, neste ano, organizou uma divisão para a disputa do campeonato da LINHA SUL do Paraná e, no final deste campeonato, o Iraty chegou em igualdade de pontos com o Teixeira Soares Foot Baal Club, do visinho município de Teixeira Soares. Como já vimos no inicio deste torneio, o nosso clube, após uma série de quatro partidas decisivas, em 05 de agosto, daquele ano, sagrou-se campeão daquele importante competição. Neste mesmo ano de 1923, a nossa seleção brasileira era formada por: Nelson, Pannaforte e Alemão; Mica, Nesi e Dino I; Paschoal, Zezé I, Nilo, Coelho e Amaro.

Professor José Maria Orreda, em seu livro O ESPORTE EM IRATI, pode-se notar que em alguns anos da década de 20 não aparecem relatos sobre as atividades do Iraty Sport Club, porque será?

Pois é, Zé Maria Araújo, realmente existem algumas lacunas em determinados momentos do passado do Iraty. Talvez por falta de informações que possam não ter chegado até nós ou, até mesmo por momentos de dificuldades pelas quais o clube tenha passado em tempos em que tudo deveria ser muito difícil na vida esportiva e social das vilas e pequenas cidades do interior do nosso pais. Mas, de intervalos em intervalos, a maravilhosa história do nosso mais antigo clube esportivo foi sendo contada.

Deve ter sido isso mesmo que ocorreu, aqui por Irati, professor Orreda, pois, podemos constatar em seu livro que, em 30 de julho de 1926, após três anos passados da grande conquista da taça da Linha Sul, foi convocada uma nova reunião de “reorganização” do Iraty. Desta vez quem presidiu os trabalhos foi o cidadão Theodoro Cichewiscz e o local escolhido para tal foi o Cine Theatro Central. Nesta reunião foi eleita uma nova diretoria que ficou assim constituída: Presidente Theodoro Cichewiscz; Vice-presidente Dr. José Augusto da Silva; 1º e 2º Secretários Dario Araújo (Primo) e Gumercindo Esculápio; Tesoureiros Allim Abill Russ e Bernardino Saldanha Muniz. 

Professor José Maria Orreda, me parece que um dos maiores entraves, pelo qual o clube estava passando naqueles momentos, era a falta de um local próprio e adequado para seu campo de futebol, não é mesmo?

Era exatamente isso, Zé Maria. Todos estavam muito preocupados em conseguir um terreno para construir o primeiro campo de propriedade do Clube. Foi, então que em 09 de agosto, daquele ano de 1926, realizou-se, na residência do, recém empossado presidente do Clube, Theodoro Cichewicz, uma reunião destinada a discutir o assunto do campo de futebol. Como resultado das discussões, foi nomeada uma comissão formada pólo próprio Cichewicz, Antonio Xavier da Silveira e Dr. José Augusto da Silva para entenderem-se com o, então, Prefeito Municipal Zeferino Salles Bittencourt, visando conseguir o local destinado ao campo de futebol.

O tempo foi se passando e a resposta do Prefeito Zeferino não acontecia. Todos estavam ficando muito impacientes quando, no dia 02 de março do ano seguinte, 1927 o presidente Theodoro Cichewicz, por motivos pessoais, renunciou ao seu cargo e, como surpresa aos seus companheiros de diretoria, lhes entregou uma “CARTA DE DATA” e o respectivo talão de isenção de impostos fornecidos pela CAMARA MUNICIPAL de Irati, referentes a um terreno doado ao Iraty Sport Club, com uma área de cento e vinte metros de frente, por cento e cinqüenta metros de fundo, situado próximo ao Matadouro Municipal no Rio Bonito. Tudo isso foi deliberado através da lei nº 45 da nossa Câmara Municipal com data de 12 de outubro de 1926. Mas a diretoria do Iraty, resolveu não aceitar o pedido de renuncia do presidente “visto tratar-se de um elemento verdadeiramente empreendedor e progressista a quem o Clube muito deve”. Visto isso Theodoro Cichewicz retirou seu pedido de renuncia, permanecendo na presidência do clube. 

Segundo consta, Zé Maria, uma grande alegria tomou conta da comunidade, motivada pela maravilhosa aquisição do Iraty Sport Club que, a partir daquela data teria seu próprio campo para a prática do futebol.

Pois é, professor Orreda sabe-se, também, pelo seu livro, que a Diretoria do Clube imediatamente reuniu-se para deliberar sobre o início dos trabalhos de preparação do terreno e das instalações do local doado pela prefeitura. O Sr. Bernardino Saldanha Muniz, em regime de mutirão, ficou responsável pelos serviços de nivelamento do terreno. O presidente Cichewcz, Dr. José Augusto e Antonio Xavier, saíram em busca de doação de madeiras para cercar o campo e levantar o botequim e vestuários. Este ano de 1927 marcou, indelevelmente, a existência do nosso querido Iraty Sport Club, tanto na área esportiva e social, como também, pela realização do seu sonho de construção do seu estádio. 
Em junho de 1927, a diretoria do Iraty, contratou os serviços do Sr. José Marochi, pela importância de 500$000 (quinhentos mil reis) para proceder ao movimento de terras na construção do campo.

“No início os trabalhos do campo foram executados em mutirão pelos jogadores, dirigentes e desportistas da cidade, dirigidos por Bernardino Saldanha Muniz. Depois José Marochi foi contratado para terminar a terraplanagem do campo. Os palanques para a cerca interna foram doados por Luiz Hilgemberg, da RVPSC e Jacob Haymussi, mestre de linha; a madeira, já cortada no tamanho, foi doada por Caetano Zarpellon. José Marochi utilizou arado para remover a terra”. Estas afirmações são do inesquecível Lourival Teixeira (Vico) em 1986, ex-jogador e massagista do I S C, durante muitos anos. 

Parabéns a todos estes maravilhosos esportistas do nosso passado, que com muita dedicação e amor, legaram ao Azulão um estádio próprio, que até os dias de hoje reina impoluto as margens do Rio das Antas e nas cercanias dos trilhos da nossa centenária ferrovia. Consta, nos anais da história do nosso futebol que o primeiro jogo realizado no novo campo do Rio Bonito, aconteceu no dia 14 de agosto daquele ano de 1927, isto é, há 85 anos passados. Perceberam a importância desse acontecimento, prezados ouvintes? Emocionante, não é?
Só, nos resta saber, até quando ele estará ali ostentando as cores branca e azul do glorioso Iraty Sport Club. Até quando? 

O que o amigo e professor, José Maria Orreda, dos diria sobre isso?

Caro amigo Zé Maria Araújo, acredito que este episódio da conquista do seu primeiro campo de futebol, deva ter sido o mais importante de todos esses 98 anos de existência do Iraty Sport Club. Foi a partir de então, que o Azulão pode, realmente, deslanchar e desenvolver em toda a sua plenitude, a prática do futebol em Irati. Zé Maria, continue folhando as páginas seguintes do meu livro e você, certamente, vai confirmar esta minha afirmação.

Com certeza, professor Orreda! E, olha aqui, já nesta página 61 do seu livro eu me deparei com uma notícia publicada no Jornal a Semana, na sua edição de número 245, levada ao público iratiense e regional, no dia 29 de janeiro de 1928:

                JORNAL A SEMANA – Edição nº 245, em 29 de janeiro de 1928.

“Graças os esforço da directoria do Iratyense, vamos ter hoje mais uma belíssima tarde esportiva, novamente medirão forças os Casados X Solteiros. Em vista da desforra que os Casados pretendem tirar hoje, a partida promete ser bastante renhida, pois os Solteiros estão firmes no propósito de manter a sua victória."
Os quadros estão assim organizados: Primeiro quadro dos Casados – Ângelo, Julio e Filuca; Vergulino, Lourival e Maurílio; Primo (Captain), Zaléski, Xavier, Ubaldino e Neto. Primeirto quadro dos Solteiros – Mackiolki, Zarpellon I e Marcolino; Egas, Augusto e Marochi; Ernesto, Paulistinha, Osvaldo (captain), Canoco e Vico. Segundo quadro dos Casados – Rigoni, Zarpellon II e Saturnino; Alexandre, Valentin e Wille; Mario, Gilberto, Luiz (captain), Paulo e Adriano. – Segundo quadro dos Solteiros – Carmelito, Cavaco e Alcebíades; Tony, Generoso e Budel; Dito, Kurt, Berto, Penteado (captain) e Pedro. Reservas – Eugênio, Custódio, Gilberto Viana, Itaciano, Josino, Jacob e Theodoro Zeni. A Diretoria pede o comparecimento em campo de todos os jogadores escalados. (Os Solteiros venceram pelo ecore de 6 x 1, entre os segundos quadros e 8 x 2 entre os primeiros quadros). Vocês repararam, prezados ouvintes? Notaram a terminologia utilizada no futebol, naqueles idos e românticos tempos de nossos pais e avós? Captain, era a forma de se expressar quando se queria indicar o jogador que comandaria a equipe dentro do campo. Hoje, já, aportuguesado, usamos a denominação Capitão. Primeiro quadro, segundo quadro, ou titulares e aspirantes, também eram termos muito utilizados antigamente, para designar a equipe principal e a equipe reserva. Além do que, volto a lembrar, o esquema tático utilizado no futebol era com a formação de um (goleiro), dois (beques), três (alfs) e cinco (forst), ou atacantes. A palavra “score” designava o resultado do jogo, indicando o numero de gols que cada equipe convertia. Tudo muito romântico, não é mesmo, professor Orreda? 

É isso aí, Zé Maria Araújo. O esporte em sua essência amadorista do passado era muito mais puro, leal e apaixonante. Hoje os atletas visão muito mais a parte financeira de suas participações, do que no ato de desenvolverem-se física e mentalmente. Uma citação contida em meu livro diz o seguinte: “O esporte leva o homem a reunir-se numa atmosfera de alegria e de sinceridade. Permite-lhes conhecer-se e respeitar-se mais plenamente e despertar-lhes um sentimento de solidariedade e amor pela atuação nobre e desinteressada. Dá uma dimensão à idéia de fraternidade”. Essa era a principal premissa do nosso futebol do passado. Hoje... Bem... hoje, julgue você mesmo, caro Araújo.

Professor Orreda, enquanto nossos ouvintes pensam sobre esta tocante premissa esportiva, vou seguindo em frente, pois, a história do nosso MARAVILHO FUTEBOL DO PASSADO ainda esta em seu começo e temos ainda muito caminho a percorrer. Então, vamos lá!

No dia 21 de abril de 1929 o Iraty jogou em Imbituva, sendo a embaixada esportiva transportada aquella localidade por três caminhões e quatro “doublé-phaetons” (uma espécie de trole ou diligencia, provida de dois bancos para passageiros e um para o condutor, tracionado por cavalos). O Match em Imbituva, frente à equipe do Esperança, entre os 2º teams, terminou em 0 x 0. Em seguida entraram em campo as equipes principais da notável luta. O resultado do embate foi 1 x 1, com gols de Bruno para o Esperança e Álvaro para o Iraty. Eita, viajenzinha porreta seo! Alguns atletas na carroceria de caminhões e outros a bordo de duas diligências do tipo Oeste Americano. Só faltaram os índios, perseguindo a caravana. Se é que faltaram, em professor Orreda? 

Zé Maria, Araújo, em minhas pesquisas, não encontrei nada sobre este episódio que relatasse algum ataque de índios a caravana do Iraty, nem na ida e nem na volta, ainda bem!

Índios a parte, vamos seguindo o nosso caminho, rememorando esses maravilhosos momentos pelos quais passou o nosso futebol do passado.

Como eu já havia verificado na histórica da trajetória esportiva do Iraty Sport Club, quase que anualmente era eleita uma nova diretoria para o Clube. Em maio de 1929, isso aconteceu novamente. Foram eleitos: Luiz da Silva Zaleski como presidente; Godofredo Varella como vice-presidente; Plínio da Cunha Teixeira e Josino de Campos como primeiro e segundo secretários; David Araújo e José Galiciolli, primeiro e segundo tesoureiros; Dr. Alcides Pereira Júnior e Osmar Silveira, primeiro e segundo oradores; Antonio Xavier da Silveira e Dario Araújo (Primo), diretores esportivos. A posse ocorreu em 27 de maio no Cine Theatro Central. O Jornal O SUL assim se reportou: “A escolha dos novos Diretores do Iraty Sport Club, tão acertada ella foi, merece aplauso de todos os nossos desportistas que, com a maior satisfação vêem para o nosso sport uma phase de grandeza e prosperidade. Luiz da Silva Zaleski a testa do valoroso e destemido campeão sulino do Paraná, representa o desenvolvimento, a gloria e o progresso do glorioso Iraty Sport Club”.


Professor José Maria Orreda, o programa de hoje está chegando ao seu final, solicito ao amigo que ofereça aos nossos ouvintes uma última citação de motivação esportiva, uma das muitas que estão contidas em seu livro.

Pois não, Zé Maria Araújo. Nada melhor que frases motivadoras para demonstrar a nossa juventude o quão belo e importante é a prática esportiva, principalmente, quando ela é exercida com ética e lealdade. Então lá vai:
“Podemos comparar um grupo de desportistas à uma família. Sendo que o segredo da sua coesão baseia-se na simpatia e no calor humano que cada um encontrará no grupo e na amizade que pode nascer nas competições esportivas.” 

Lindo... lindo... Professor Orreda! Mas agora é a minha vez de dirigir aos meus ouvintes as palavras finais deste programa de hoje, contando-lhes como aconteceu o último evento esportivo do Iraty Sport Club, naquele ano de 1929.

No dia 05 de maio de 1929 0 AZULÃO foi a Teixeira Soares para jogar contra o Teixeira Soares Foot Ball Club. O Jornal O IRATY assim relatou os acontecimentos desta visita ao vizinho município.

“A nossa embaixada partiu desta cidade, tendo alguns de seus membros seguido pelo trem da manhã e os demais em dois caminhões e mais doze automóveis, juntamente com vários torcedores dentre os quais valorosas representantes do sexo seductor”. 

Professor Orreda, eu já havia escutado muitos tipos de elogios ao sexo feminino, porém, é a primeira vez que vejo uma citação jornalística utilizando-se da menção “Sexo Seductor”. Lindo e romântico, não é mesmo?

Sem dúvida alguma Zé Maria, sem dúvida alguma, mas se você procurar em jornais e revistas da época, com certeza vai encontrar, muitas formas literárias, como essa, que eram utilizadas comumente pelas nossas mídias escritas e faladas.

Bem! Mas neste evento social-esportivo inter-municipal, infelizmente o nosso AZULÃO perdeu para o Teixeira Soares por 1 x 0, jogando com: Makiolki, Natalio e Marco; Hilário, Egas e Laurival; Primo, Julio, Luiz, Paulista e Neto.

E, novamente o Jornal O IRATY fez a seguinte matéria: “A pugna ia terminar sem que nenhum dos contendores obtivesse uma vantagem, quando Marco sofreu uma vigorosa cabeçada de Sergio, que lhe atingiu o estomago, prostando-o por terra e tendo se recuperado do seu desfalecimento, contrariou-se enterrando o team, applicou um desabrido penalt na linha do gol que foi habilmente tirado por Sergio, rompendo dessa forma, nos últimos quatro minutos de pugna, as traves defendidas por Makiolki”. O Referee (Referee era o apito que os juizes usavam para dirigir os jogos da época e jornalisticamente referia-se ao juiz que apitava o jogo), então “O Referee no primeiro tempo do jogo foi José Leite e no segundo Ercílio Ramiro (O jogo deve ter sido dirigido, a cada tempo, por um cidadão de cada cidade) suponho.

Notaram, prezados ouvintes, como a forma de relatar os acontecimentos daquela época, era bem diferente e até romantizada. Coisas do passado.

Bem, amigos e amigas ouvintes, nosso tempo esta se esgotando e vamos ter que interromper por aqui, porém temos ainda muito mais história a ser contada sobre este que foi o NOSSO MARAVILHOSO FUTEBOL DE IRATI. Até o próximo jogo, ou melhor, até o próximo programa. Até lá.




Comentários

Enquete

Reforma da Previdência

  • Nenhuma das respostas
  • Não deve mexer nos que ganham menos
  • Não é necessária
  • Deve ser ampla
Resultados