Irati e Região / Notícias

21/05/19 - 22h01 - atualizada em 21/05/19 às 22h10

Conselho Tutelar registrou 37 casos de violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes

Dados se referem aos anos de 2017 e 2018. Ainda não há estatísticas relacionadas ao ano de 2019

Da redação, com reportagem de Paulo Henrique Sava 

Psicóloga do CRAS Rio Bonito, Rafaela Maria Ferencz, e os conselheiros tutelares Ademir Carneiro e Sônia Mara da Rocha participaram do Meio Dia em Notícias desta terça-feira, 21

O dia 18 de maio marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e várias ações em Irati estão sendo tomadas pela Rede de Proteção para alertar a todos sobre a importância de denunciar esses crimes. É importante estar atento para reconhecer sinais desse tipo de ocorrência. O Conselho Tutelar de Irati registrou, entre 2017 e 2018, 37 casos confirmados de violência ou abuso sexual contra crianças e adolescentes. O órgão recebeu outras denúncias, que não foram confirmados. Em todo o Brasil, somente em 2017, o Disque 100, que acolhe denúncias anônimas, recebeu 20 mil chamados para denunciar esse tipo de violação de direitos.

Porém, é preciso estar alerta, pois a violência sexual contra crianças e adolescentes acaba sendo subnotificada, uma vez que muitas vítimas deixam de relatar os casos, por variadas razões: pelo abalo emocional causado pelo abuso; pelo medo de retaliações; pelo medo de que duvidem; pelo medo da reação de quem ouve; por duvidar que contar pode ajudar; pelo medo de ser apontado como culpado; pelo medo de ser alvo de chacota. A criança e o adolescente precisam ter um ambiente acolhedor para fazer a denúncia. O adulto precisa ser empático e solidário e ouvir a vítima com atenção, para que ela sinta que alguém está realmente disposto a ajudar.

“Atendemos a muitas denúncias, que dependem de muitas averiguações a fundo, para que, se isso for concretizado, vai para o SEPIA (Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência), que vai dar o diagnóstico completo dessas situações”, comenta o conselheiro tutelar Ademir Carneiro.

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A violência sexual pode ocorrer de duas formas: o abuso sexual e a exploração sexual. O abuso ocorre quando o menino ou a menina – pois a ocorrência independe da sexualidade, ambos podem ser alvos – é submetido a algum ato libidinoso para satisfazer sexualmente uma pessoa mais velha. A exploração sexual, por outro lado, envolve uma relação de mercantilização: quando o sexo é fruto de uma troca, seja financeira, de favores ou de presentes, explica a conselheira tutelar Sônia Mara da Rocha.“A exploração sexual pode ocorrer de quatro formas: em redes de prostituição, tráfico de pessoas, pornografia e turismo sexual”, detalha.

Conforme Sônia, o abuso sexual independe de transtornos de personalidade, por parte de quem o comete. Segundo ela, muitas vezes o abusador se aproveita de uma relação de proximidade com a vítima, pois frequentemente é cometido pelo próprio pai da criança, ou padrasto, tio, primo, avô, vizinho. Também ocorre de o abusador se fazer valer de certa vantagem econômica sobre a vítima, em troca tanto do favor sexual quanto do silêncio.

“O abuso sexual e a exploração são dois dos piores tipo de violência que se comete contra uma criança. Por isso, precisamos cada vez mais pensar em estratégias para conseguir prevenir que casos como esse aconteçam. Muitos abusadores adotam estratégias para conquistar a confiança da criança e ele usa dessa confiança para satisfazer os próprios desejos sexuais. Usa essa relação de poder que tem sobre a criança, numa situação de vantagem. Nenhuma criança vai ‘seduzir’ um adulto ou adolescente – pois existem adolescentes que também abusam de crianças menores. O abuso sexual é uma relação de poder de alguém que vai tirar satisfação sexual de quem não tem capacidade de se defender ou de tomar uma decisão se aquilo é o melhor para ela ou não”, alerta a psicóloga Rafaela Maria Ferencz, do Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) do Rio Bonito.

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Segundo Rafaela, são poucos os casos de abuso sexual esporádicos e forçados, de acordo com as estatísticas, justamente pelo fato de que eles frequentemente se originam de relações de confiança entre vítima e abusador. Consta em levantamento do Ministério da Saúde, divulgado na Análise Epidemiológica da Violência SexualContra Crianças e Adolescentes, que foram notificados 184 mil casos de violência sexual no Brasil, entre 2011 e 2017: 58 mil contra crianças; 83 mil contra adolescentes. A psicóloga frisa que 69% dos casos ocorre dentro da casa da criança vítima de abuso. “Quando se trata de adolescentes, muda de foco, pois o abuso acontece mais fora de casa”, compara.

Rafaela ressalta que, nos últimos anos, há um crescimento no número de casos notificados e divulgados nos boletins. Entretanto, esse aumento não decorre necessariamente de mais violência, senão pelo fato de que há cada vez mais denúncias de violação de direitos, que antes acabavam subnotificados. “Desde 2011 até agora tem havido uma campanha para que notifiquemos esse tipo de situação. Porque antes chegava uma criança na Saúde, machucada, por situação de abuso, e não era notificado. Os profissionais não faziam a notificação. De 2011 para cá, passou a ser compulsório, ou seja, os profissionais são obrigados essa violência. Eles passaram por capacitação para que eles entendam a importância de termos esses dados para podermos trabalhar a prevenção”, diz.

Quanto mais nova é a criança, mais vulnerável ela se torna diante do abusador. Segundo a psicóloga, crianças entre um e cinco anos representam 51% das vítimas de abuso e 42% têm de seis a nove anos.

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Quanto ao perfil socioeconômico das vítimas de abuso, a psicóloga e o conselheiro tutelar frisam que não há como fazer uma distinção se os casos ocorrem mais em determinadas classes econômicas. Ocorre, entretanto, que a violência sexual ainda constitui tabu e, muitas vezes, familiares da vítima encobrem o abusador a fim de evitar um escândalo, o que contribui para tornar a vítima ainda mais vulnerável.

“Temos muitas pesquisas, mas nenhuma delas ainda nos mostra como identificarum abusador. O que o satisfaz é essa relação de poder. Não podemos dizer que ocorre em determinada classe social, essa ou aquela, enfim. Pode ocorrer em qualquer lugar”, enfatiza Renata.

A porta de entrada para atendimento a casos de violência sexual contra crianças e adolescentes é o Conselho Tutelar. Em Irati, ele fica na Avenida Vicente Machado, 399, próximo à Agência do Trabalhador e atende das 8h às 11h30 e das 13h às 17h30. O telefone de plantão 24 horas é o (42) 99133-2698.

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Outras formas de atendimento

É possível também buscar orientação e assistência junto aos quatro Centros de Referência em Assistência Social (CRAS) dos bairros Vila São João, Lagoa, Rio Bonito e Canisianas, além do Centro de Referência Especializada em Assistência Social (CREAS), que se dedica especificamente ao atendimento de casos de violência e de violação de direitos, que está instalado junto ao Parque Aquático. “O CRAS já é mais preventivo e atende às famílias de forma geral”, diferencia.

“Temos também o NEDDIJ (Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e Juventude), da Unicentro, que é muito bom, que tem advogado, psicólogo, para orientar as famílias em relação aos direitos da criança e do adolescente. Enfim, os serviços estão se estruturando. Qualquer um da sociedade pode denunciar violência contra a criança e o adolescente. Mas nós, profissionais da saúde, da educação e da assistência, não só podemos como devemos. Não podemos negligenciar essas crianças. Quando observamos, temos que notificar”, salienta a psicóloga.

Rafaela orienta que ensinar, desde pequenas, as crianças a reconhecer o abuso é o primeiro passo para prevenir a violência sexual. É importante que, desde cedo, a criança saiba diferenciar o que é carinho e afeto do que é violação e constrangimento. “Se ela não sabe que está sendo abusada, ela não vai contar. Estabeleça uma relação de confiança com seu filho, para que ele te conte qualquer coisa que vier a acontecer. E não brigue com ele, se ele conta. Ensine a eles a dizer ‘não’ e ensine a eles a contar, porque o abusador vai sempre pedir segredo. Oriente as crianças que, se alguém pede segredo de um ‘carinho’ é porque algo está errado. Carinho de verdade não precisa ser escondido”, instrui.


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