Irati e Região / Notícias

19/10/11 - 18h44 - atualizada em 19/10/11 às 19h04

Contos de um psiquiatra

Reportagem de Nilton Luy e Rose de Castro - Edição, Da Redação - Colaboração de Elizabete Budel


O médico psiquiatra Ladislau Obrzut Neto, esteve no programa Show da Tarde da Rádio Najuá no Dia do Médico e contou algumas histórias
No Dia do Médico, o psiquiatra Ladislau Obrzut Neto participou do programa Show da Tarde da Rádio Najuá. Num papo descontraído, Ladislau narrou algumas histórias que aconteceram com ele no tempo que passou pelo hospital psiquiátrico Pinheiros, na região metropolitana de Curitiba.


Sozinho, atravessando um imenso corredor na madrugada


Há muitos anos quando eu fazia plantão no Pinheiros, internei este paciente depois dele ter tido um surto de agressividade. Ele havia sido preso, foi trazido pela polícia, algemado e amarrado. Mas a gente soltou o paciente para conversar. Aparentemente ele estava tranqüilo, conversando, aceitando o internamento, mas relatou uma ansiedade insuportável.

Ilustração
Na mesma ala que ele, já de madrugada, eu fui chamado para atender outra ocorrência. O hospital tinha corredores enormes, imaginem-se atravessando aquilo à noite sozinho. De repente, quando estava passando por uma das alas, dei de cara com este paciente encostado em uma porta. No que me virei pra abrir ele veio rapidamente e tentou me enforcar. Com muito custo, com a ajuda de outro paciente eu consegui fazer com que ele me soltasse. Do contrário, eu teria morrido ali, enforcado no corredor.

Mais tarde, quando fui conversar com o paciente ele disse assim: “Mas doutor o senhor não perguntou pra mim o que eu sentia nos momentos de ansiedade. Eu só fui lhe mostrar o que era assim que eu me sentia. Só que o senhor ficou naquela de querer se soltar e eu fui lhe apertando mais”.


Importância do envolvimento familiar


Este rapaz qual me recordo teve um final feliz. Ele retornou a vida normal, pena que perdeu o emprego. O que eu acho bom na psiquiatria é quando um paciente totalmente desestruturado, quebrado, alucinando, vendo um monte de “coisarada” que só existe na cabeça dele, brigando, quebrando, batendo, totalmente desestruturado no ambiente familiar e você vê, devagarinho, sua vida sendo reconstituída. 

No tratamento nós vamos aprendendo a conhecer também a rotina familiar, que é importante porque se percebe que alguns interesses entram em jogo. Vontades das pessoas “ditas normais” da família se sobrepõe sobre o problema do paciente. Então, às vezes, o médico fica numa posição de defesa deste paciente, para que ele não tenha prejuízo algum tanto dos seus bens financeiros e materiais como do fator emocional.

Já tive pacientes, na época do Hospital Pinheiros, que depois de ter deixado a instituição após longo prazo de tratamento, quando voltava para casa não tinha mais nem lugar na mesa para sentar.  Por isso que o meu tratamento aqui é breve, não quero dar tempo para o paciente sair de casa.

A doença mental é um problema que não precisamos transportar para lugar nenhum. Nós precisamos criar condições de resolvê-los no mesmo lugar que vivemos. Nós temos estas condições, nós temos tudo para tratar no local de convivência. Na questão da dependência, muitas pessoas acham que o paciente dependente tem que sair, ser exportado, internar, ficar 60, 90 ou 100 dias fora, deixa-lo isolado. Existem alguns tratamentos que parecem da idade média. O cara fica fechado em uma sala durante 100, 15, 20 ou 30 dias até perder aquela necessidade da droga. Daí ele passa para uma sala de convívio social, depois passa para outra sala maior até que ele sai para ser acompanhado ambulatorialmente.


Em Irati


Hoje tem os Caps – Centro de Atenção Psicosocial, mas tudo isso faz parte de uma rotina, que nós temos condições de criar aqui, para nós fazermos o nosso tratamento. O problema de dependência química vai ser resolvido com qualidade, compreensão e com técnica. Eu acho que nada disso foge de técnica. Mas isso é na política municipal de saúde que vai ter que ser implantada. Na última conferência Municipal de Saúde eu sugeri que a secretaria criasse o departamento de Saúde Mental para agregar toda esta gama de tratamentos que nós temos hoje aqui.


Mensagem


Vamos trabalhar estamos ai pra isso. Eu acho que a melhor coisa para não errar é tratar os outros como gostaria de ser tratado. Isso se chama tratamento de empatia, fazer os outros se sentir bem. Isso eu mantenho na minha vida. Se preciso falar sério, falo. Se o momento é de brincar, vamos brincar. O paciente precisa sair do consultório sabendo que vai poder melhorar, e se ele se ajudar bastante vai ficar bom e vai viver uma vida longa, sem mentira, sem enganação.



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