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20/11/14 - 09h49 - atualizada em 20/11/14 às 16h25

Sem pagamento há 80 dias, funcionários do Darcy Vargas entram em greve

Um médico e uma equipe de enfermagem continuam prestando atendimento de emergência no hospital
Edilson Kernicki, com assessoria e reportagem de Sergio Soriani/Rádio Alvorada

Projetos aprovados na sessão da Câmara

O PL 008/2014, do Legislativo, de autoria da vereadora Luiza Andrade (PP), que denomina como “Marilu Domingues” a sala de fisioterapia, foi aprovado por unanimidade em segunda discussão, encaminhado ao Executivo para sanção.

Em primeira discussão, foi apreciado o Anteprojeto de Lei 003/2014, de autoria coletiva dos vereadores Laércio Cipriano (PT), Ricardo Hirt (PT) e Jaderson Molinari (PP). O anteprojeto concede direito real de uso de imóveis. Com pareceres favoráveis das Comissões de Justiça e Redação; Finanças e Orçamento e de Agricultura, Indústria, Comércio e Meio Ambiente, foi aprovado em primeira votação por unanimidade.

Palavra Livre

Era aguardado o pronunciamento do secretário municipal de Urbanismo, Otávio dos Santos Herthel, que estava convidado para a sessão e, no entanto, justificou a ausência, pois estava em viagem a Curitiba e não conseguiria chegar à sessão em tempo hábil.

Os servidores do Hospital Darcy Vargas, de Rebouças, apresentaram um abaixo-assinado contendo 36 assinaturas requerendo a demissão do administrador Darci Rodrigues da Silva, durante sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Rebouças desta terça (18). Nesta quinta (20), eles completam 80 dias sem receber o pagamento dos respectivos salários. Durante a sessão da Câmara, o técnico em informática, Márcio Gobor, funcionário do hospital, utilizou a Tribuna Livre para falar em nome dos demais a respeito da situação enfrentada por eles e justificar a paralisação.

De acordo com ele, os funcionários decidiram tomar uma atitude frente aos atrasos nos pagamentos dos salários, porém, antes, realizaram uma reunião com o presidente do hospital, José Amilton Massoqueto (Bepe), que não deu previsão para que esses salários sejam colocados em dia. Os servidores resolveram paralisar o trabalho, mas mantiveram um médico e uma equipe de enfermagem prestando atendimento de emergência. A paralisação dos funcionários tem apoio da presidência do Sindicato dos Empregados, que encaminharia ofício à Câmara de Rebouças sobre o tema.

Depois da reunião com o presidente do hospital Darcy Vargas, os servidores foram até o gabinete do prefeito Claudemir Herthel (PSDB) e fizeram uma pequena manifestação. “Nos chamaram até de arruaceiros e ironizaram perguntando se tínhamos conseguido falar com o prefeito”, alegou o funcionário. Conforme Gobor, o prefeito informou que o repasse que ele faz ao hospital está em dia e que esse valor estaria sendo aplicado somente no pagamento dos médicos. “Aquele gargalo, que é o Pronto Socorro, manter médicos, funcionários, farmácia, telefone, luz, água e internet não estamos conseguindo mais”, protestou.

Funcionários decidiram entrar em greve em função de salários atrasados
Ainda conforme o funcionário do hospital, os servidores estariam sendo onerados para que a instituição conseguisse arcar com os custos da nova ala de cuidados continuados. “O hospital estava com os impostos atrasados e tiveram que tirar nosso salário para pagar e saírem as certidões negativas para vir o projeto de cuidados continuados”, afirmou. Gobor criticou o fato de que só a ala recém-inaugurada está em boas condições de funcionamento, diferente das demais.

O funcionário questionou se a ala de cuidados continuados, de fato, seria algo bom para os reboucenses, pelo fato de que abrange um espaço do hospital que é disposto para o atendimento de pacientes de uma ampla região e que, por outro lado, estaria faltando leitos para os moradores locais e dinheiro para manter as outras instalações.

Gobor reclamou que os funcionários já estão contraindo dívidas em função da falta de pagamento dos salários e que eles estariam insatisfeitos por estarem recebendo um tratamento de segundo plano, ao passo que teria sido dada prioridade à ala de cuidados continuados. O funcionário alegou, ainda, que os servidores não querem criar indisposições nem com o prefeito nem com a administração do hospital, mas que estariam cansados da situação e da falta de informação. “Foi marcada uma reunião somente quando já estava fechando o segundo mês de atraso para nos contarem que não havia dinheiro para nos pagar”, reclamou.

Empréstimo é solicitado

Márcio Gobor usou a Tribuna Livre para falar sobre a situação do hospital
Ainda de acordo com ele, ao conversarem com o prefeito, os funcionários teriam sido informados de que o hospital aguarda a liberação de um empréstimo junto à Caixa, por intermédio da Secretaria Estadual de Saúde e que esse dinheiro seria para cobrir apenas os dois meses em débito.

Gobor disse que para os pagamentos vindouros, incluindo as parcelas de 13º salário, o hospital estaria contando com a devolução de verbas da Câmara ao Executivo. O empréstimo seria no valor de R$ 260 mil, mas com valor líquido liberado de R$ 115 mil (o restante fica retido pela Caixa), o que não seria suficiente para cobrir as folhas de pagamento que custam, mensalmente, R$ 54 mil líquidos, sem os encargos trabalhistas (previdência, FGTS etc.), de acordo com o funcionário.

Gobor diz que os funcionários estão prestes a entrar no terceiro mês sem pagamento. Da equipe de 43 funcionários, cinco já pediram demissão no período.

O abaixo-assinado que solicita a demissão do administrador do hospital teria sido sugerido pelo próprio presidente, José Amilton Massoqueto, conforme Gobor. Na lista, estariam os nomes de todos os funcionários e, ainda, a adesão de cidadãos. O funcionário relatou que colegas foram intimidados e ameaçados de demissão pelo fato de estarem cobrando os salários atrasados.

Discussão na Câmara

O presidente da Câmara, o vereador Laércio Cipriano (PT), comentou que o Legislativo já requereu há mais de 50 dias que o Hospital Darcy Vargas encaminhasse prestação de contas, o que não ocorreu. Ele também questionou o fato de que o hospital requereu aumento no repasse mensal para um valor que é o triplo do que era repassado há dois anos, defendendo que não acredita que os custos para a manutenção, incluindo os salários de médicos e servidores, tenham triplicado de valor no período.

Gobor respondeu ao questionamento do 1º secretário, vereador Fábio Chiqueto (PSD), sobre como imaginava que o hospital poderia sanar suas contas. O funcionário, que já fez parte da administração do hospital, disse que a solução seria retirar o Pronto Atendimento e deixá-lo a cargo da Secretaria Municipal de Saúde, que atende somente até as 17 horas. Segundo ele, ou a Prefeitura assume os custos totais do Pronto Atendimento ou constrói uma UPA à parte do hospital.

O funcionário elogiou o projeto de cuidados continuados, mas apontou que os funcionários que foram até Portugal para receber treinamento para poderem atuar nesta ala não estariam mais ligados ao hospital e que os que restaram não estariam devidamente aptos para esse atendimento.

O vereador Ricardo Carlos Hirt Júnior (PT) disse que o manifesto dos funcionários é legítimo e que eles estão aparados pela lei 7783/89, que prevê o direito de greve e coíbe retaliações a funcionários nesses casos. Disse também confiar que mesmo em condições adversas, pela falta de pagamento, os funcionários mantiveram o bom atendimento durante o período pré-greve.

Ele ressaltou que a campanha eleitoral acabou desmotivando a população a manter as doações regulares e que o número de colaboradores vem diminuindo. Segundo Ricardo, os vereadores formaram a Comissão de Saúde, que já foi extinta ao encerrar seus trabalhos, mas que visitou o hospital e que, em seu relatório final, apresentou a proposta de criação de postos de saúde do trabalhador à noite, para a qual ainda não houve resposta.

Ricardo reconheceu e elogiou o projeto de cuidados continuados, mas disse também que “foi feito um marketing muito grande” em torno do projeto, de que seria o “salvador da Pátria” e que, no entanto, contribuirá apenas com despesas de água e luz e ofertará apenas duas vagas para reboucenses.

Outros vereadores se manifestaram na Palavra Livre em apoio aos funcionários do hospital: Fábio Chiqueto (PSD), Jaderson Molinari (PP), Luiza Andrade (PP), Ana Maria Cararo (DEM) e Ricardo Hirt Júnior (PT).

Reação

O administrador do hospital, Darci Rodrigues da Silva questionou a autonomia dos funcionários para requererem sua demissão, dizendo que eles não teriam nenhuma procuração para falar em nome da administração do hospital. Darci ressaltou a gravidade das acusações feitas por Gobor e requisitou a gravação do áudio da sessão. De acordo com ele, as denúncias feitas pelo funcionário requerem abertura de sindicância para comprovar supostos desvios de recursos.

“Lamento muito que um funcionário venha aqui acusar que a direção do hospital não está prestando contas”, protestou e alegou que há prestação de contas mensal em jornal.

Darci afirmou não concordar com as afirmações do funcionário do hospital e que vai procurar meios legais para se defender. “Eu vou provar que todo recurso que entrou no hospital tem fonte segura e prestação de contas”, garantiu o administrador.

O presidente da Câmara devolveu o questionamento a Darci, ao perguntar se ele também teria alguma procuração para falar em nome da diretoria.

Gobor, por sua vez, disse que não acusou nem demitiu ninguém ao se pronunciar acerca da situação enfrentada pelos funcionários do hospital Darcy Vargas e lamentou a reação do administrador. Segundo ele, na reunião marcada para a quarta-feira (19), o presidente José Amilton Massoqueto (Bepe) pediria o afastamento do administrador Darci Rodrigues da Silva e que, se houvesse assinatura dos funcionários do hospital, ele teria maior respaldo para o pedido.
Funcionários e vereadores, após a discussão sobre o tema, concordaram previamente em formar uma Comissão.

Busca de soluções


Prefeito Claudemir Herthel diz que município aumentou repasse para o hospital de R$ 60 para R$ 100 mil mensalmente
Em entrevista ao repórter Sergio Soriani, da Rádio Alvorada, o prefeito de Rebouças, Claudemir Herthel (PSDB), confirmou que o hospital vai depender da devolução de recursos da Câmara ao Executivo para que possa pagar o 13º aos funcionários.

Quanto à proposta de aumentar o repasse mensal ao hospital para o valor de R$ 170 mil, Herthel disse que seria impossível se for levada em consideração a responsabilidade fiscal e o orçamento disponível. Segundo ele, para que o município hoje consiga fazer o repasse de R$ 100 mil é necessário economizar no orçamento destinado às demais Secretarias e estaria sacrificando, essencialmente, o Pátio de Máquinas, da Secretaria de Obras.

Sobre o empréstimo solicitado à Caixa, o prefeito confirmou que, para que seja liberado, deve ter anuência do governo estadual, via Secretaria de Saúde, para que o banco seja informado que o Estado repassa um valor financeiro, o que daria condições para o hospital quitar o empréstimo. Herthel explica que esta é uma mera questão de formalidade, como uma garantia para o empréstimo, em vista de que é um hospital filantrópico que também presta serviços ao SUS.

Na busca de soluções para a gestão do hospital, o prefeito considera que a ala de cuidados continuados traz a expectativa de que, num futuro breve, a entidade tenha condições de se manter sem o envolvimento direto do poder público.

“É responsabilidade do município ter o Pronto Atendimento para sua população. Mas nós, em contrapartida, conseguimos fazer com que o hospital tenha um fôlego financeiro e continue existindo. É uma instituição que tem mais de 60 anos, muitas pessoas nasceram nele”, destacou o prefeito. Herthel se comprometeu a pressionar o governo do estado para que libere o empréstimo, na busca de encerrar a paralisação ainda esta semana.



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